Os judeus, credores de um Ocidente desaparecido
Em “Alentours du nom juif” (Verdier), Jean-Claude Milner analisa a ruptura com a ordem moral e política do pós-Shoah. Trechos selecionados
“Alentours du nom juif” [Em torno do nome judeu], que sai pela Verdier, prossegue a interrogação conduzida por Jean-Claude Milner sobre a afirmação judaica e as forças que procuram apagá-la. Questionando em especial o que resta da dívida que o Ocidente havia reconhecido para com os judeus depois da Shoah, Milner sustenta que ela se extinguiu e oferece um diagnóstico radical sobre a ruptura de uma ordem política e moral herdada de 1945. Segundo ele, o “antiantissemitismo”, último resíduo da dívida pós-Shoah, perdeu sua evidência. Ele conclui, de maneira sombria, que o nome judeu volta a estar ameaçado. Trechos selecionados.
Introdução:
Desde Les Penchants criminels de l’Europe démocratique [As inclinações criminosas da Europa democrática] (2003), Jean-Claude Milner interroga a persistência do ódio antijudaico no próprio cerne das promessas europeias de emancipação. Nesse livro, que foi importante para muitos leitores, sua tese era radical: ao tratar a existência judaica como um “problema” a ser resolvido definitivamente, a Europa desenvolveu uma lógica de apagamento da qual o nazismo não pode ser considerado um acidente exterior à história do Ocidente. Milner examinava então o que, dessa lógica, continuava atuante na Europa democrática. Le Juif de savoir [O judeu do saber] (2006) e, depois, L’Arrogance du présent [A arrogância do presente] (2009) prosseguiram essa investigação, de um lado, pelo viés do saber (o que representou a ideia de saber universal para os judeus europeus?) e, de outro, pelo do engajamento revolucionário. Retomando ali, em particular, sua própria experiência maoista, Milner interrogava o que alguns judeus tinham buscado na Revolução. Alentours du nom juif [Em torno do nome judeu] retoma questões que atravessam esses três livros por meio de textos escritos ao longo de quase vinte anos (inclusive na K.), vários deles reformulados ou ampliados. Duas figuras ocupam ali um lugar decisivo: Benny Lévy, cujo percurso abre uma reflexão sobre o estudo e a transmissão; Claude Lanzmann, cujos filmes transformaram, para Milner, o conhecimento da destruição dos judeus da Europa. Essas presenças dão à coletânea uma dimensão pessoal, porque o encontro com esses dois homens lhe permitiu afirmar um nome que por muito tempo permanecera silencioso em sua própria história familiar. O posfácio de onde foi extraído o trecho publicado pela K. nesta semana dá uma coda bem sombria ao conjunto de seu corpus judaico. Milner volta ali ao sentido de seus alertas desde 2003. Ele censurava então os países ocidentais por invocarem a memória da Shoah ao mesmo tempo em que faltavam às obrigações que dela haviam extraído: combater o antissemitismo e garantir a existência de Israel. Mas lembrá-los desses compromissos supunha que eles ainda se reconhecessem uma responsabilidade particular para com os judeus. Segundo ele, já não é o caso. A fratura entre a Europa e os Estados Unidos, o 7 de outubro e a guerra em Gaza teriam consumado essa ruptura. Seu diagnóstico muda, portanto, de alcance: ele já não denuncia apenas compromissos traídos, mas afirma que as próprias razões para cumpri-los deixaram de se impor. É essa virada que dá à conclusão do livro a sua gravidade. – A redação
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Confrontada com seu próprio balanço, a Europa Ocidental, em sua parte continental, reconheceu [após 1945] que havia contraído uma dívida para com o nome judeu. A destruição dos judeus, o fato bruto de ela ter ocorrido, o detalhe de suas modalidades, o número de suas vítimas: o conjunto desses dados fazia vacilar os valores que o nome europeu supostamente resumia. Quis a ironia da história que não se tivesse deixado de comentá-los durante a curta paz que terminou em 1939. As valas comuns da Primeira Guerra os haviam posto em questão uma primeira vez; esgotaram-se as forças para restaurá-los, sem que fosse preciso modificá-los muito. A lembrança dessas discussões contrastava dolorosamente com a realidade dos atos.
Para salvar o essencial, era preciso, portanto, ir além da tentativa anterior. A restauração dos valores já não podia contentar-se em enumerar alguns princípios; ela exigia medidas pragmáticas e resultados tangíveis, que dissessem respeito à ordem do mundo. Nesse ponto, judeus e não judeus, intelectuais e políticos estavam de acordo, ainda que nem sempre se entendessem sobre a lista e a hierarquia dos próprios valores.
Ora, a nova restauração não podia realizar-se sem uma lembrança incessante daquilo que a tornava necessária. Jamais esquecer o que havia ocorrido, a fim de melhor impedir sua repetição; para não esquecer, não hesitar em recordar o passado: tal era o programa. Nessa perspectiva, os campos da morte e as câmaras de gás determinavam o ponto de fuga. O pensamento jamais devia negligenciá-los em suas reflexões; a política jamais devia omiti-los em seus cálculos. Sobre esse fundamento construiu-se um sistema de representações e de tomadas de decisão que devia vincular não apenas os governos, mas também os indivíduos. Eu o chamo de esquema da dívida.
Que ninguém pudesse implicar o nome judeu sem reconhecer uma dívida: tal foi a obrigação. Ela começou a vigorar a partir do julgamento de Nuremberg, que se desenrolou de 1945 a 1946. Manteve-se, não sem se aliviar progressivamente, até as primeiras décadas do século XXI. Afirmo que ela se extinguiu em 2025, três quartos de século depois de sua instauração inicial.
A rigor, a dívida deveria ter dito respeito ao continente europeu, com exclusão das outras partes do mundo. Durante algum tempo, aliás, as opiniões públicas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha hesitaram em suportar seu peso. Depois da guerra, no entanto, a evidência dos dados se impôs. A fim de situar juridicamente a destruição dos judeus da Europa e de fundar em direito o tribunal militar de Nuremberg, a Carta de Londres definiu o crime contra a humanidade, em 8 de agosto de 1945. Talvez sem se dar conta de imediato, os Estados Unidos assumiam assim para si, em nome da humanidade, o essencial da dívida da Europa continental. Uma vez conhecida a posição dos Estados Unidos, a maioria dos países anglo-saxões a adotou. Orgulhosa de sua impavidez de 1940, a Grã-Bretanha relutou, mas acabou entrando na linha. A França ficou felicíssima em juntar-se ao campo dos vencedores. As outras nações da Europa Ocidental fizeram o mesmo. Assim que a divisão da Alemanha entrou em vigor, a RFA fez questão, acima de tudo, de colocar-se na primeira fila dos devedores.
A dívida não poderia caber apenas à Europa continental, mas ao Ocidente inteiro, convencido de ser o braço armado da humanidade. Reparar as consequências de um crime cometido contra si mesma, a humanidade pode e deve fazê-lo; para isso, passará por seus representantes, que são as nações unidas na ONU.
Apesar do Plano Marshall, apesar da OTAN, apesar dos acordos comerciais, a natureza política do Ocidente renovado permaneceu difusa. De um ponto de vista descritivo, ela oscilou entre dois extremos, a confederação e o império. Até o segundo mandato de Donald Trump, a concepção confederativa prevaleceu de modo geral, ainda que se possam constatar, no comportamento dos Estados Unidos em relação a este ou àquele de seus aliados, nesta ou naquela ocasião, diversos surtos de prurido imperial. De 1950 a 2025, a incerteza manteve-se, ainda assim. Na falta de clareza política ou jurídica, o verdadeiro princípio de unidade do Ocidente, alegou-se, não consistia nos tratados militares ou comerciais, mas sim numa carta de valores comuns. Só que, diferentemente do que ocorrera com a Liga das Nações nos anos 1930, essa carta ocidental devia realizar-se em ações políticas. Nela se amontoaram, de qualquer jeito, a exaltação da democracia eletiva, a defesa da livre-iniciativa, o respeito às organizações internacionais, a proclamação da paz como ideal supremo etc. Cada um desses valores tem vocação a ser reconhecido universalmente, de modo que o Ocidente se torna, ao menos a seus próprios olhos, o porta-bandeira da humanidade inteira. Uma vez que havia decidido romper com o moralismo impotente dos anos 1930, sua responsabilidade autoproclamada impunha-lhe um programa de ação.
Ora, a carta ocidental assume a doutrina do julgamento de Nuremberg. Este havia estabelecido que a destruição dos judeus da Europa constituía um crime contra a humanidade. A dívida, por conseguinte, não poderia caber apenas à Europa continental, mas ao Ocidente inteiro, convencido de ser o braço armado da humanidade. Reparar as consequências de um crime cometido contra si mesma, a humanidade pode e deve fazê-lo; para isso, passará por seus representantes, que são as nações unidas na ONU. Uma vez que a dívida não requer apenas palavras e atos simbólicos, uma vez que ela requer decisões materiais, estas devem ser tomadas, em nome da humanidade, pela ONU, por maioria de votos.
Consequentemente, a humanidade, representada pela ONU, será chamada a reconhecer a existência de um Estado judeu, situado nas terras que a diplomacia moderna chamava de Palestina. Em 1947, a ONU adotou uma resolução nesse sentido. Em 1948, foi proclamada a criação do Estado de Israel, sob a forma de uma Declaração de Independência. Aos olhos do Ocidente, essa sequência correspondia a suas expectativas fundamentais. Naquele momento, a criação e a proteção de Israel não diziam respeito apenas à política externa dos diversos países ocidentais; elas contribuíam, de maneira decisiva, para a definição ética do Ocidente e para a realização da humanidade por si mesma.
A Europa Ocidental, mais do que qualquer outra região do mundo, podia dar-se por satisfeita com a configuração que se desenhava. Ela conseguira descarregar parte de sua dívida sobre o resto do mundo ou, ao menos, sobre o Ocidente. Ainda era preciso que desse todas as provas necessárias de sua própria ocidentalidade: ideologicamente, devia combater sem trégua o antissemitismo; materialmente, devia salvaguardar a existência de Israel no solo da antiga Palestina, dentro de fronteiras “seguras e reconhecidas”. As antigas potências coloniais, França e Grã-Bretanha, ainda alimentavam sonhos árabes: na nova configuração, estes jamais deveriam prevalecer sobre a obrigação ocidental. Muito apegadas à sua grandeza passada, as duas nações demoraram a aceitar todas as consequências do que percebiam como uma renúncia. A França, condicionada por sua história e sua geografia, nunca o conseguiu inteiramente.
Apesar dessas reservas marginais, pode-se afirmar como tese que, durante três quartos de século, o esquema da dívida dominou a carta dos valores ocidentais. Pertencendo ao que se poderia chamar de metapolítica, ele se materializou em três regras que vinculam a política propriamente dita:
(I) entre os dados históricos que determinam o horizonte ideológico do Ocidente, a destruição dos judeus da Europa ocupa um dos primeiros lugares;
(II) a existência do Estado de Israel, dentro de “fronteiras seguras e reconhecidas”, constitui um axioma da política externa ocidental: nenhuma nação pode pretender pertencer ao Ocidente se tergiversar sobre esse ponto;
(III) o destino dos palestinos não judeus, no Oriente Próximo e no Oriente Médio, pode importar a esta ou àquela nação ocidental, desde que esse interesse não chegue a contradizer a regra II. Com efeito, o destino dos palestinos não judeus não decorre de um axioma da política externa ocidental comum: uma nação pode desinteressar-se dele sem deixar de pertencer ao Ocidente. Exemplo maior dessa indiferença: os Estados Unidos.
Mal formuladas e aceitas, no entanto, cada uma das três teses começou a perder, silenciosamente, algo de sua evidência. Por isso, o esquema da dívida não parou de se desagregar. Desde meados do século XX até a véspera do 7 de outubro de 2023, os diversos governos ocidentais ainda o invocavam, é verdade. Em contrapartida, suas ações libertavam-se dele de maneira cada vez menos dissimulada. Na Europa Ocidental, em particular, a dissociação acentuava-se dia após dia: insistência na dívida na boca dos tomadores de decisão e dos comunicadores; indiferença em relação à dívida nas escolhas efetivas dos governantes, mas também na opinião dos governados.
Em 2025, pode-se afirmar que o antiantissemitismo espontâneo desapareceu dos lugares onde existia. A isso se somam, na Europa, os lugares onde nunca havia existido.
Tentei, na medida de meus meios, chamar a atenção para a ascensão desse dispositivo intrinsecamente perverso. Minha primeira tentativa tomou a forma de um livro, Les Penchants criminels de l’Europe démocratique, publicado em 2003. Depois, continuei meu esforço em artigos, vários dos quais foram reunidos aqui. Eles foram escritos durante as duas décadas que precederam a fratura de 2025. Denunciam as tentativas destinadas a apagar objetivamente a dívida, ao mesmo tempo em que a proclamavam em palavras.
Sob essa luz, pode-se situar com exatidão o referencial em que se inscrevem as primeiras partes da presente coletânea. Não é preciso recorrer à dialética hegeliano-marxista para compreender um dado muito simples: as tentativas de apagamento da dívida supunham que o esquema da dívida ainda funcionasse. Desejava-se afrouxar seu aperto, mas porque esse aperto ainda se fazia sentir. Só se procura livrar-se do que estorva; ora, o estorvo é uma forma maciça da existência. Embora eu tenha ocasionalmente assinalado o declínio do esquema, eu tinha de supor, além disso, que esse esquema ainda conservava uma sombra de efetividade. Era em seu nome que eu tomava da pena.
Eu não ignorava que meus alertas só tinham sentido se fossem, por pouco que fosse, ouvidos. Mas, para que fossem ouvidos, era preciso que o nome judeu despertasse uma aparência de atenção. Para que essa aparência persistisse, era preciso que a dívida continuasse reconhecida, ainda que escrita com uma tinta cada vez mais invisível, sobre um suporte cada vez mais frágil.
De fato, os sociólogos haviam notado que a opinião francesa continuava a concordar quanto a uma temática mínima: o antiantissemitismo. Ainda em 2020, um jovem pesquisador em ciências sociais podia escrever que o antiantissemitismo “parecia pertencer à opinião dominante”. Em termos puramente descritivos, a característica desse antiantissemitismo resumia-se nisto: ele nem precisava ser dito. Pertencia à ideologia espontânea, aquela que se chama “evidência”. Permito-me hoje reinterpretar essa observação usando minha própria terminologia: espontâneo e, portanto, irrefletido, tido como óbvio e, portanto, mal informado, o antiantissemitismo concretizava o que então restava, na França, do esquema da dívida. Ele indicava ao mesmo tempo quanto esse esquema se enfraquecera e quanto, apesar de tudo, continuava a funcionar. As melhores cabeças julgavam que se havia assim chegado ao estágio último de seu apagamento. Não se iria além. Reduzida a um reconhecimento mudo, a dívida duraria tanto quanto durassem os valores fundamentais do Ocidente.
Eu não dava crédito algum a essas vãs esperanças. Meu propósito, desde 2003, consistia em lançar dois alertas, e não um só. O primeiro dizia respeito ao presente: “se, da dívida, resta apenas o antiantissemitismo, então não resta quase nada dela”; o segundo referia-se ao futuro: “o antiantissemitismo se desvanecerá ao primeiro sopro da tempestade”. Mas eu não formulava nenhuma hipótese, nem sobre a natureza da tempestade, nem sobre sua origem.
Hoje, o tempo dos alertas passou, de qualquer modo. A tempestade soprou, o desvanecimento produziu-se. Em 2025, pode-se afirmar que o antiantissemitismo espontâneo desapareceu dos lugares onde existia. A isso se somam, na Europa, os lugares onde nunca havia existido. Limitando-se à União Europeia, quem pode acreditar, com efeito, que os países da antiga Europa do Leste algum dia tenham aderido a ele? Pesando bem as coisas, o esquema da dívida passou, na Europa, do quase nada ao nada. As belas almas objetarão que os tomadores de decisão “sérios” multiplicam incansavelmente as declarações contra o antissemitismo. O argumento não vale. Essa insistência prova o contrário do que deveria provar. Se é preciso repetir tão alto e com tanta frequência que, em matéria de luta contra o antissemitismo, a França não tem lições a receber, é justamente porque o antiantissemitismo perdeu ali sua evidência imediata.
Por mais que o Ocidente residual se gabe de manter os valores definidores do Ocidente de 1950, sua política externa se afasta deles num ponto decisivo: já não é verdade que a destruição dos judeus constitua ali um marco de importância maior.
É claro que as leis definiram delitos e crimes; por ora, os Estados ocidentais ainda aplicam as leis que reprimem as ações e as declarações antissemitas, mas, uma vez que é preciso passar pelas leis, saiu-se do domínio da evidência. Além disso, já se entrevê por meio de que sofisticações os textos legais podem ser contornados ou mesmo, se necessário, contraditos. Quando se olha para a juventude francesa, esperança dos otimistas, o antiantissemitismo espontâneo lhe repugna. Vindo dos boomers grisalhos, ele deve ceder diante da judeofobia passional das periferias e diante do antissemitismo arrazoador das universidades.
Como se produziu a transformação?
Um primeiro fator diz respeito simplesmente à ordem do mundo: o Ocidente de 1950 acabou por deixar de existir. Consideremos as três teses que resumiam o núcleo duro de sua carta. Em 2025, cada uma delas é posta em questão; sobre o nome judeu, uma oposição tão diametral divide o Ocidente que se pode supor que ele se partiu em dois. Contrariamente à primeira tese, várias nações ocidentais já não consideram a destruição dos judeus da Europa um acontecimento maior da História. Contrariamente à segunda tese, várias nações ocidentais (não necessariamente as mesmas) ainda admitem, a contragosto, que a existência presente do Estado de Israel continua sendo um axioma, mas afirmam que ela tem menos importância que a existência futura do Estado palestino. Contrariamente à terceira tese, a criação de um Estado palestino torna-se, para essas nações, o axioma principal da política externa ocidental.
Entre as nações que adotam, aberta ou discretamente, essa nova doutrina, encontram-se várias nações da Europa, ao passo que os Estados Unidos permanecem fiéis à sua política anterior. O Ocidente se divide, portanto, não apenas sobre Israel, mas sim sobre o nome judeu, já que o primeiro ponto da nova doutrina ultrapassa amplamente a questão dos dois Estados.
Em todo caso, os Estados Unidos parecem desinteressar-se do Ocidente tal como fora definido nos anos 1950. O slogan Make America Great Again significa que os Estados Unidos determinam sua dominação na escala do mundo inteiro, e não mais apenas na escala do Ocidente. Eles têm vocação a comportar-se como um império Maga, tendo como vassalos os membros da antiga confederação ocidental e como parceiros dois outros impérios, também eles cercados de vassalos. A isso se soma, notadamente na boca do vice-presidente Vance, uma guerra cultural a ser travada contra os valores ditos ocidentais. Essa guerra está em curso em solo estadunidense, mas foi estendida desde o início à Europa. Esta, com efeito, é acusada de ter fabricado esses valores e de tê-los imposto aos Estados Unidos, valendo-se de seu prestígio. Além disso, tem o desplante de querer preservá-los.
De fato, a Europa ambiciona tornar-se, diante do império Maga, uma espécie de Ocidente residual. Os valores ocidentais continuarão a reinar ali; desde já, começam a definir uma política externa autônoma. O observador letrado pensa no Império Bizantino, que se apresentou como continuador do Império Romano, quando não passava de seu coto. Se se aceitar a comparação, ela não promete sucesso, pois o coto bizantino estava fadado a definhar lentamente.
Israel passa por ter traído sua própria razão de ser. Essa traição de si revela uma propensão ao crime da qual nenhum judeu pode se julgar inocente. O que se passa em Gaza dá razão àqueles que se lamentavam: “Os judeus devem mesmo ter feito alguma coisa para desencadearem tanto ódio”. Em suma, o esquema da dívida perdeu toda eficácia na Europa.
Seja qual for o futuro, por mais que o Ocidente residual se gabe de manter os valores definidores do Ocidente de 1950, sua política externa se afasta deles num ponto decisivo: já não é verdade que a destruição dos judeus constitua ali um marco de importância maior; já não é verdade que a existência do Estado de Israel prevaleça em importância sobre a existência futura de um Estado palestino; a existência desse Estado tem o estatuto de axioma. Mais ainda, o rebaixamento de Israel à condição de Estado pária e o rebaixamento dos judeus à condição de povo genocida são pronunciados em nome dos valores ocidentais. Outrora percebido como o arauto desses valores no seio de um Oriente secretamente tido por bárbaro e cruel, Israel passa por ter traído sua própria razão de ser. Essa traição de si revela uma propensão ao crime da qual nenhum judeu pode se julgar inocente. O que se passa em Gaza dá razão àqueles que se lamentavam: “Os judeus devem mesmo ter feito alguma coisa para desencadearem tanto ódio”. Em suma, o esquema da dívida perdeu toda eficácia na Europa.
O império Maga adota posições exatamente contrárias às do Ocidente residual, que ele considera uma liga de vassalos prontos a ceder-lhe tudo. Mas tampouco invoca a dívida, invenção europeia. Julga, ao contrário, que os Estados Unidos não têm nenhuma razão para levá-la em conta. Apoia Israel e combate o antissemitismo, seja em solo estadunidense, seja no Ocidente residual. Mas a dívida não intervém nem nesse apoio nem nesse combate. É preciso, antes, voltar-se para a corrente evangélica, que foi e continua sendo importante no dispositivo Maga. Conhece-se o seu discurso: é preciso que os judeus assistam, nos lugares da pregação de Jesus, ao retorno de Cristo, que selará sua derrota última e sua conversão.
A honestidade obriga a acrescentar que o progressismo anti-Maga, nos Estados Unidos, chega, por vias opostas, a conclusões análogas: recusa em privilegiar a destruição dos judeus da Europa entre os massacres que pontuam a história mundial; apoio a Israel, mas com a condição de que esse Estado judeu respeite as regras ditadas pelos estadunidenses brancos, anglo-saxões e protestantes. Em 2022, Steven Spielberg fez-se, em seu filme Os Fabelmans, o arauto desse programa. Pode-se resumi-lo assim: longe de os Estados Unidos deverem continuar a assumir em relação aos judeus uma dívida que não é a deles, mas sim a da Europa continental, os judeus é que devem reconhecer sua própria dívida: a que contraíram para com os Estados Unidos e o estadunidense loiro, atlético, generoso.
Produziu-se, portanto, uma ruptura no seio do Ocidente herdado de 1950. Ela tem uma dimensão material, mas tem também uma dimensão ideológica: a extinção da dívida que a humanidade, segundo os ocidentais de então, havia contraído para com os judeus enquanto judeus. É verdade que um movimento de apagamento havia iniciado sua progressão muito tempo antes. Daí, na opinião francesa em particular, o nihil obstat de que acabou por se beneficiar, no período de 2018-2024, o duplo renascimento do antissemitismo e da judeofobia. Mas o ritmo era lento. Poderia ter prosseguido sem sobressaltos. Foi acelerado pelos acontecimentos da guerra israelo-palestina. Pode-se admitir que uma virada se situe no decorrer do ano de 2025.
Quando se considera o Ocidente residual, a conclusão se impõe: (…) nenhuma forma de resposta teria sido julgada admissível pela gente de bem. À mais limitada das retaliações militares, a acusação de genocídio teria, de todo modo, sido formulada.
Reciprocamente, os acontecimentos militares viram seu eco se amplificar porque o esquema da dívida já havia definhado. Pois, afinal, a guerra israelo-palestina nunca havia cessado definitivamente. Tinha conhecido períodos em que sua intensidade diminuíra, mas também períodos de alta intensidade. Basta pensar em Sabra e Chatila. Ora, esse acontecimento foi, na prática, esquecido pela opinião mundial. Porque o esquema da dívida ainda tinha força suficiente para que a Autoridade Palestina reorientasse seu programa: em 1989, Yasser Arafat qualifica de “caduca” a exigência de que o Estado israelense deixe de existir. O termo lhe fora sugerido por François Mitterrand, ao que parece. Este último o teria avisado de que, por definição, as folhagens caducas voltam a brotar quando a estação o permite?
Não excluo que, no século XXI, as coisas se passem de modo totalmente diferente do século XX. A menos que o Hamas ou outras organizações semelhantes multipliquem em excesso, nos próximos anos, operações inspiradas no 7 de outubro de 2023, a ruptura está consumada entre o Ocidente residual e o Estado de Israel: o primeiro se persuade de que o segundo só pode continuar a existir violando todos os valores que a humanidade deve respeitar. O segundo constata que sua existência, supostamente destinada a proteger os judeus do mundo inteiro, ao contrário os põe em perigo. Mas tem razões para supor que seu desaparecimento ou seu enfraquecimento acarretariam perigos mais graves. Convencido de que a dívida se extinguiu nos espíritos que outrora a haviam reconhecido, nada mais tem a esperar da opinião mundial. Que importa a “credibilidade”, comparada ao apoio dos Estados Unidos, à neutralidade objetiva da Rússia e à indiferença da China.
Se minha intuição se confirmar, não é apenas o futuro do Estado de Israel que está em jogo. Seu isolamento cresce, suas contradições internas se acentuam; responsabiliza-se por isso o seu governo e a sua política belicosa. Não creio em nada disso: qualquer governo israelense, inclusive o mais à esquerda, teria sido posto no banco dos réus, por pouco que agisse contra o Hamas. Quando se considera o Ocidente residual, a conclusão se impõe: excetuando a aceitação passiva dos massacres do 7 de outubro, excetuando a dor muda de uma nação e exéquias furtivas, excetuando o resgate a peso de ouro dos reféns, nenhuma forma de resposta teria sido julgada admissível pela gente de bem. À mais limitada das retaliações militares, a acusação de genocídio teria, de todo modo, sido formulada.
Agora que foi lançada, ela corre o risco de permanecer indelével, como o fora, durante séculos, a acusação de deicídio entre os cristãos. Se assim for, ela permitirá lançar na conta de perdas e danos toda lembrança da destruição dos judeus da Europa: o movimento já havia começado, ele se tornará definitivo. Em consequência, o antiantissemitismo terá ido, e talvez já tenha ido, parar no brechó das ideologias obsoletas. Terá sido substituído por uma judeofobia espontânea que, se necessário, se voltará para o antissemitismo para enriquecer seu vocabulário e seus comportamentos.
Em outras palavras, a página foi virada desde os acontecimentos de Gaza e assim permanecerá quando eles tiverem sido esquecidos. O próprio futuro do nome judeu está agora ameaçado, para além da questão israelense. Está ameaçado por aqueles que associam à luta social, à Palestina hoje e amanhã, todas as variantes da judeofobia; e não o está menos por aqueles que, em nome do Segundo Advento de Cristo, defendem a existência de um povo israelense, enquanto odeiam o povo judeu no fundo do coração. A julgar pelos precedentes, a solução de dois Estados logo se reduzirá à pergunta: qual destruirá o outro? A menos que os dois desapareçam. Tão louvados por alguns sonhadores, o desaparecimento de Israel e a forma diaspórica não salvarão o nome judeu. Por pouco que a opinião mundial se deixe levar pelas correntes dominantes, nenhum Estado judeu, nenhuma diáspora judaica escapará às perseguições.