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Violências na Cisjordânia: a “presença protetiva” da Bnei Avraham

Entrevista com Dvir Warshavski

Entre 80 e 100 ativistas religiosos que viajam semanalmente para aldeias palestinas da Cisjordânia para acompanhar os agricultores em suas terras, bloquear fisicamente o acesso de colonos e passar o Shabat em casas que lhes são abertas pelos anfitriões. A Bnei Avraham chama essas atividades de “presença protetiva”. Dvir Warshavski, um de seus fundadores, apresenta a iniciativa como uma resposta religiosa à idolatria política de nossa época. Desde de 7 de outubro, ele tem observado em primeira mão a permeabilidade crescente entre colonos e soldados, o desmantelamento das salvaguardas institucionais e a aceleração das expulsões. O que ele ainda quer acreditar é que as frágeis pontes construídas durante esse período farão diferença quando as condições políticas mudarem.

Ativistas da Bnei Avraham tentam ajudar os palestinos a permanecerem em suas terras enquanto colonos e soldados chegam © Bnei Avraham

A história da Bnei Avraham parece ter duas partes: um grupo original ativo em Hebron nos anos 2000, que se dissolveu, e um renascimento por volta de 2022. É assim que você conta essa história? E, se sim, o que aconteceu entre as duas gerações e o que tornou a retomada necessário justamente nesse momento?

Dvir Warshavski: O primeiro período durou cerca de cinco anos e terminou com a dissolução parcial do núcleo de ativistas. Esses ativistas redirecionaram seus esforços principalmente para duas organizações mais estruturadas que foram criadas durante esse período: Ta’ayush e Breaking the Silence. O renascimento do Bnei Avraham surgiu com a chegada do governo atual. Há de fato um abismo geracional entre os dois períodos. Somos uma geração que cresceu sob uma sucessão contínua de governos de direita, que passou a infância durante a Segunda Intifada, que perdeu amigos e familiares e que, de fato, nunca conheceu realmente o otimismo político. O sentimento predominante era de que o pior ainda estava por vir e que as descrições otimistas de redenção que falávamos na yeshivá eram um reflexo invertido da realidade. Fissuras se desenvolveram ao longo dos anos, e um ponto crítico foi atingido com a chegada do governo atual.

Você descreve as origens dessa nova geração de Bnei Avraham como derivadas de uma prática de estudo entre amigos, tarde da noite, da qual surgiu a sensação de que ações concretas deveriam ser feitas. Esse é um caminho não habitual para o ativismo político. O que essa origem no estudo proporcionou à Bnei Avraham que outros grupos ativistas não proporcionaram?

Dvir Warshavski: A Bnei Avraham é uma comunidade de ativistas. Mas, para nós, esse engajamento não é primordialmente político — é uma mitzvá, um dever religioso. Vemos nosso ativismo como uma reação à idolatria de nossa época: a sede de dominação, a vontade de poder, o fantasma da superioridade. A reparação moral que buscamos vem por meio do estudo e da reflexão religiosa.

Ativistas da Bnei Avraham e palestinos da Cisjordânia marchando juntos em direção às terras destes © Bnei Avraham

Na prática, como é uma semana de atividades da Bnei Avraham hoje em dia? Quem são os voluntários, de onde vêm e como se organiza a presença nas diferentes comunidades com as quais vocês trabalham?

Dvir Warshavski: Bnei Avraham conta com entre 80 e 100 militantes, em sua maioria religiosos — masortis e haredim. Nossos responsáveis estabeleceram relações de confiança com várias comunidades palestinas e, quando elas nos contactam para pedir ajuda, tentamos ajudá-las o máximo possível. Estamos presentes de maneira regular em uma dúzia de localidades, principalmente em torno de Belém e Hebron.

Uma semana típica inclui geralmente uma ou duas ações. Entre 20 e 30 de nossos militantes se juntam a agricultores palestinos e os acompanham até suas terras, frequentemente perigosas ou inacessíveis em razão da violência do exército, dos colonos de um outpost vizinho, e geralmente de ambos. Quando conseguimos alcançar as terras, os agricultores podem cultivá-las enquanto documentamos a violência dos colonos e do exército, que tentamos conter. Nos dias em que a violência nos coloca em perigo, somos obrigados a nos retirar, nós e os agricultores. Após a ação, sentamo-nos com os agricultores palestinos para descansar, bebemos chá e aproveitamos o fato de estarmos juntos. Também organizamos “Shabbats de presença protetora”. Passamos um Shabbat inteiro na casa de uma aldeia palestina que os habitantes colocam à nossa disposição, com uma plata (é uma chapa elétrica usada para manter a comida quente durante o Shabat), comida kasher, refeições, Divrei Torah (דברי תורה) e orações. Palestinos da região se juntam a nós ao longo do Shabbat e comem conosco e, se colonos invadem casas da aldeia, vamos bloqueá-los fisicamente. As últimas semanas foram particularmente intensas. Um número crescente de ativistas compreende a urgência da situação e se mobiliza para ajudar.

Somos uma geração que cresceu sob uma sucessão contínua de governos de direita, que passou a infância durante a Segunda Intifada, que perdeu amigos e membros da família e que jamais conheceu o otimismo político.

A “presença protetora” — acompanhar os palestinos em seus campos ou em suas terras para dissuadir os colonos da violência — baseia-se em uma hipótese: a de que a presença de judeus israelenses religiosos altera algo no comportamento dos colonos ou dos soldados. Essa hipótese se confirma na prática?

Dvir Warshavski: Nossa presença tem efeitos variados dependendo do local e em muitos lugares esses efeitos arrefeceram. Mas, na maioria dos casos, a situação dos palestinos continua muito pior sem nós – e em todas as comunidades onde nós intervimos, atualmente, os agricultores palestinos só conseguem acessar suas terras se estiverem acompanhados por ativistas.

Uma ativista da Bnei Avraham tenta convencer um soldado a permitir que os agricultores palestinos acessem suas terras © Bnei Avraham

Testemunhos relatam que, em certas aldeias, moradores que vão regularmente às suas terras acompanhados por ativistas israelenses observam uma redução na violência por parte dos soldados ou dos colonos. Você reconhece esse padrão em sua própria experiência? E, em caso afirmativo, como você percebe até que ponto isso realmente altera a situação de fundo?

Dvir Warshavski: De fato é um padrão recorrente, embora o vejamos erodir. Onde funciona, expõe as relações de poder que estruturam este território. No plano ético, nós sentimos a obrigação de utilizar nossos privilégios — precisamente porque os agricultores palestinos escolheram essa forma de ação e nos procuraram. Em geral, garantimos que cada decisão parta dos agricultores palestinos e que a agência permaneça com eles.

A Cisjordânia é dividida desde os Acordos de Oslo em três árreas com status muito diferentes: Área A, sob controle civil e de segurança palestino; Área B, sob controle civil palestino, mas com segurança israelense; e Área C, sob controle integral israelense civil e militar, que representa cerca de 60% do território. A Bnei Avraham atua em várias dessas áreas. Essa divisão altera o seu trabalho na prática? Postos avançados de colonos foram recentemente estabelecidos na Área B — algo que deveria ser legalmente impossível, mesmo sob a lei israelense. O que isso revela sobre a situação real dessas categorias atualmente?

Dvir Warshavski: Nós atuamos nos locais que sofrem da violência dos colonos e do exército. Dado que esses lugares não estão confinados a uma única zona, nossas atividades tampouco. Mas essa divisão entre as zonas têm um impacto. Na zona B, por exemplo, a polícia se recusa a vir, ainda menos que na zona C. Isto significa que nelas nós estamos ainda mais vulneráveis.

A mudança que ocorreu localmente é terrível. O aspecto mais marcante é a crescente porosidade das fronteiras entre as categorias de “soldado” e “colono”. Colonos fardados participam ativamente das expulsões de diversas comunidades na Cisjordânia.

Concernente ao estabelecimento dos postos-avançados na zona B, essa é uma etapa suplementar do movimento de colonização, visando sabotar as mudanças do acordo de paz israelo-palestino e fazer progredir a anexação da Cisjordânia. O slogan hoje recorrente nos meios dos colonos é que “nós não falamos inglês: A B C não nos diz absolutamente nada, tudo é nosso”. Essa recusa deliberada de reconhecer as categorias jurídicas é reveladora da intenção colonial declarada do movimento: anexação total do território palestino.

Você diz que desde 7 de outubro houve uma mudança drástica do que está acontecendo em campo: de uma parte a fusão cada vez mais evidente entre colonos e soldados e ao mesmo tempo uma aceleração da lógica de expulsão. E você também menciona que isso se reflete na atitude das próprias comunidades palestinas?

Um palestino de Murajat auxilia um ativista da Bnei Avraham que foi atacado por um colono © Bnei Avraham

Dvir Warshavski: A mudança que ocorreu é terrível. Seu aspecto mais marcante é a porosidade crescente entre as linhas que separam as categorias de “soldado” e “colono”. Colonos fardados participam ativamente das expulsões de diversas comunidades na Cisjordânia. E a linha que separava a violência institucional da violência dos colonos está se tornando cada vez mais artificial. Em Tarkumiya, por exemplo, soldados impediram palestinos de acessar suas terras na Zona B, seguindo diretrizes recebidas do assentamento vizinho. Observamos esse padrão na maioria das comunidades onde atuamos.

Comunidades inteiras estão sendo gradualmente cercadas, estradas estão sendo fechadas e postos avançados estão surgindo na Área B, normalmente sob jurisdição palestina. Você sente que está testemunhando algo novo ou a aceleração de uma lógica antiga? E, do ponto de vista do território, essa distinção realmente importa?

Dvir Warshavski: Trata-se de uma lógica antiga, mas que foi levada a uma escala inédita. Há, contudo, diferenças substanciais. No passado, o modelo de conquista e expulsão baseava-se em uma estratégia ao mesmo tempo territorial e demográfica: um máximo de colonos em um máximo de terra. Há vários anos, porém, essa lógica estagna. A nova estratégia consiste em estabelecer fazendas com enormes áreas de pastagem: um mínimo de colonos em um máximo de terras. Isso torna a expansão territorial muito mais rápida. Outra mudança importante: o colapso dos mecanismos institucionais de contenção. Antigamente, o sistema judiciário, a pressão internacional, a polícia e o exército mantinham dispositivos que permitiam limitar a violência e a expropriação. Hoje, esses mecanismos praticamente se volatilizaram, submetidos à agenda do governo atual. E, nesse vazio, os agricultores palestinos contam apenas com os ativistas no terreno para responder aos seus pedidos de ajuda.

Nós oferecemos, assim como os colonos, um modelo de conexão com a Terra Santa. Mas para nós essa conexão é ainda mais justa porque se baseia em nossa relação com os palestinos que vivem nesta terra e em nosso esforço desesperado para protegê-los.

Este governo e os colonos que o personificam no terreno também alegam seguir a tradição judaica. O que significa se deparar com pessoas que mobilizam as mesmas fontes para justificar exatamente o oposto do que vocês estão fazendo?

Dvir Warshavski: No nível intracomunitário, isso nos confronta com o fato de que nossa Torá pode ser tanto um elixir de vida quanto um elixir de morte. Escolher interpretar a Torá para a justiça e a vida é uma decisão ativa: nós a conduzimos constantemente contra as forças que não fizeram essa escolha. Nosso projeto perturba os colonos. Às vezes, isso os torna mais violentos e raivosos, porque percebem nossas ações como uma “traição interna”. Acontece, outras vezes, que soldados e colonos menos violentos nos escutem. Oferecemos, como os colonos, um modelo de conexão com a Terra Santa. Mas, para nós, essa conexão é mais justa, pois passa pela relação com os palestinos que vivem nesta terra e por nosso esforço desesperado de protegê-los. Não é surpreendente que haja vários ex-colonos que, após terem estado em postos avançados, mudaram de lado e se tornaram ativistas do Bnei Avraham.

Um ativista da Bnei Avraham auxilia a um agricultor palestino que foi trabalhar em suas terras e foi atacado por um colono © Bnei Avraham

Você disse que depois de 7 de outubro, as primeiras palavras que circularam ao seu redor foram de cunho religioso. Quais? Como você retomou seu trabalho de campo após 7 de outubro? Houve alguma interrupção? Se sim, o que a motivou a retomá-lo?

Dvir Warshavski: Uma semana após 7 de outubro, eu voltei à ativa. Nos dias que se seguiram ao massacre, minha preocupação inicial era com todas as pessoas que eu conhecia, judeus e palestinos. Um deles, um ativista palestino calejado da Cisjordânia, escreveu-me dizendo que seu bairro estava sob toque de recolher havia uma semana e pediu que levássemos pão e legumes. Fui até lá uma noite, junto com outros ativistas. Perto de sua casa, soldados nos interceptaram. Eles nos derrubaram no chão; por vários longos minutos, um soldado mascarado pressionou o cano de um rifle carregado contra minhas costas e me interrogou. Contei-lhes várias histórias e, finalmente, eles nos expulsaram da área. De fato, retomamos nossas atividades rápido o bastante. Mas também descobrimos — em nossa própria pele — que a realidade no terreno havia mudado.

Desde 7 de outubro, você tem dito que o trabalho “parece diferente, mais urgente”. Por quê e de que forma?

Dvir Warshavski: Os planos dos colonos já existiam antes da guerra, mas passaram a ser justificados pelo 7 de outubro. Uma retórica de vingança e conquista ganhou uma legitimidade sem precedentes — tanto em seu alcance como em sua institucionalização. Daí nossa sensação de urgência: enquanto antes atuávamos em comunidades sabendo que nossa presença aliviaria de alguma forma o fardo da ocupação, agora, não importa onde pisamos, estamos atuando em uma comunidade que pode ser expulsa a qualquer momento. Pode ser a casa de uma família beduína pobre em uma aldeia não reconhecida, ou de uma família cristã com cidadania americana; atualmente, ninguém está protegido e nenhum lugar é seguro.

“A Torá pode ser um elixir de vida ou um elixir de morte”

A Bnei Avraham tem como objetivo explícito “manter vivas pontes muito frágeis” e garantir que as comunidades palestinas se lembrem de que havia judeus religiosos que “as viam, que se importavam com elas”. Essa frase revela algo sobre o horizonte muito reduzido do que você acredita ser possível. O que você espera que essas “pontes” permitirão futuramente?

Dvir Warshavski:A longo prazo, será preciso pôr à prova os vínculos de solidariedade que resistiram aos ataques. É uma condição necessária (mesmo que ainda não suficiente) para que uma forma de coexistência palestino-judaica possa um dia emergir, quando as condições políticas permitirem.

Ativistas da Bnei Avraham ajudam um palestino a preparar sua terra para o inverno. © Bnei Avraham

Seu trabalho é pouco conhecido fora de Israel. O que a diáspora judaica não entende sobre o que está acontecendo na Cisjordânia, que você, estando no terreno, vê com clareza?

Dvir Warshavski: Não sei o que a mídia judaica está dizendo sobre a limpeza étnica na Cisjordânia. Mas é um crime contra os palestinos — e também contra os judeus, porque é uma das ameaças mais graves à segurança dos habitantes desta terra. É importante para mim testemunhar que, nos últimos dois anos, tenho viajado por toda a Cisjordânia e pude conversar com milhares de palestinos. Apesar de tudo o que aconteceu, apesar dos esforços ativos dos colonos para incitar o ódio contra os judeus, o desejo de parceria judaico-palestina está presente em todos os lugares. Aqueles que vivem nesta terra e a ela pertencem não têm o direito de desesperançar da parceria judaico-palestina. O número crescente de palestinos e judeus que se unem a iniciativas conjuntas neste período sombrio atesta isso.

Que forma de envolvimento da diáspora você consideraria útil, ou mesmo necessária? E que forma você consideraria, na melhor das hipóteses, inútil e, na pior, prejudicial?

Dvir Warshavski: Algumas maneiras úteis de se envolver incluem: vir à Cisjordânia e juntar-se a um dos grupos em atividade, ser testemunha do que está acontecendo, criar ressonância midiática, fornecer apoio financeiro para os esforços de presença protetora e conectar nossas ações com coalizões que podem nos ajudar em outras áreas. Muitos dos métodos existentes já não são tão eficazes quanto antes, então agora é a hora de sermos criativos.

Entrevista realizada por Julia Christ e Elie Petit

Tradução: Breno Benedykt e Marcia B. Sussermann

Foto de Dvir Warshavski

Dvir Warshavski

Dvir Warshavski é um dos fundadores e líderes do Smol HaEmuni (a Esquerda crente) e figura central do Bnei Avraham, grupo de ação religiosa que organiza uma presença protetora junto a comunidades palestinas na Cisjordânia. Titular de um mestrado em políticas públicas e de uma graduação em sociologia, ele também estuda e ensina textos judaicos em paralelo ao seu ativismo, especialmente no âmbito de uma tese sobre a ética em Rabi Yitzhak Arama na Universidade de Tel-Aviv. Ele cresceu em Yeruham, no Neguev, e vive hoje em Jerusalém.

Foto de Julia Christ

Julia Christ

Julia Christ é filósofa e pesquisadora no CNRS. Especialista em teoria crítica, trabalha sobre as transformações do universalismo e do liberalismo em diálogo com a história judaica europeia. Parte de suas pesquisas aborda o lugar dos judeus nas construções políticas modernas, o antissemitismo e a forma como o ponto de vista judaico desloca as categorias clássicas do pensamento político.

Foto de Elie Petit

Elie Petit

Elie Petit é jornalista e editor-chefe adjunto da Revista K. Colabora com diversos veículos de comunicação internacionais, incluindo The Washington Post, NBC e a BBC.