Os judeus tornaram-se neojudeanos?
A distinção entre judeus e israelenses se embaralha, ao passo que a que separa antissionismo e antissemitismo se torna cada vez mais difícil de manter nos fatos. Esse embaralhamento é politicamente perigoso: expõe os judeus a serem tidos por estrangeiros em seus próprios países e como responsáveis pelos atos de Israel. A partir dessa constatação, Gérard Bensussan reabre uma questão antiga: como pensar uma existência judaica repartida entre cidadania nacional, vida diaspórica e vínculo com Israel? Teriam os judeus se tornado “neojudeanos”?
Dois fenômenos concomitantes, novos e impressionantes, parecem marcar a situação atual dos judeus, na França, na Europa, no Ocidente — fenômenos insuficientemente notados, ou massivos demais para serem realmente percebidos. Um duplo apagamento, decerto relativo e atribuível a uma multiplicidade de fatores que aqui não considero, está a produzir-se diante de nossos olhos. Pode-se deplorá-lo, pois comporta numerosos riscos. Pode-se a ele resignar-se. Alguns, quem sabe, secretamente se regozijarão! Em todo caso, uma constatação se impõe quanto ao “Estado dos judeus” hoje.
A diferença entre judeus e israelenses, embora se imponha incontestavelmente, parece esmaecer aos olhos de uma opinião geral pouco preocupada com o rigor argumentativo ou com verdades gerais, mas atenta, a seu modo, aos abalos do tempo, que pressente com perspicácia. A impressão, parcial mas tenaz, que muita gente tem é a de que, no fundo, os judeus não passariam de israelenses no exílio, e os israelenses, por sua vez, de judeus territorializados. Como o próprio nome indica, essa impressão bem pode ser difusa, massiva, um tanto vaga e volátil. Ela insiste, contudo, ela se propaga, fazendo pouco caso das distinções que a desmentem, dos fatos, da história, da emancipação, da política, do sionismo…
A impressão parcial mas tenaz que muita gente tem é a de que, no fundo, os judeus não passariam de israelenses no exílio, e os israelenses, de judeus territorializados.
O embaçamento dessa diferença é paralelo, em suas sinuosidades, se assim posso dizer, à indiferenciação crescente entre o antissionismo e o antissemitismo, em suas práticas concretas indiscerníveis e em seus discursos convergentes. A necessidade de sua distinção deve, por certo, ser mantida, mas ela se afirma cada vez mais enquanto questão de princípio, e não como algo efetivo — tornou-se abstrata. Às vezes, sua evocação um tanto forçada, sob aparências de integridade política ou moral, não passa de uma contorção interesseira, ideologicamente sobredeterminada. Judeus e israelenses, antissemitas e antissionistas, todos no mesmo saco? Contestar-se-á o amálgama por sua grosseria, mobilizar-se-ão mil exceções, e com razão. A espessura do traço não impede a atenção àquilo que ele desenha; ao contrário, como no caso do dedo e da lua do célebre provérbio.
A dupla constatação que registro, só posso avançá-la a título de intuição, sem a possibilidade de demonstrar estritamente a existência daquilo que ela constata. E sem desconhecer os perigos políticos que a acompanham: se os judeus são, em maior ou menor grau, israelenses, é porque são, imemorialmente, estrangeiros nos países onde residem — e então se dará quitação aos antissemitas; se são corresponsáveis pelas ações dos diferentes governos israelenses, tem-se razão em atacá-los para melhor apoiar a causa palestina — e se dará quitação aos antissionistas. Em todos os casos, a afirmação da igualdade cívica dos judeus e de seus concidadãos, as distâncias que tomam em relação a Israel, seus combates políticos nos países de sua nacionalidade poderiam ver-se fragilizados, e sua situação, comprometida. Mas não é isso o que, desde já, prevalece? Não se deve enxergar, desde já, na dupla constatação de apagamento relativo que estabeleço, a revelação de uma verdade crua que perturba e transtorna as conveniências e o bom tom de uma relação supostamente pacífica entre “comunidades”? Cumpre reconhecer, com o coração pesado, que o ataque aos espaços comunitários judaicos — sinagogas, centros, locais de culto —, ou a brutalização dos que usam quipá e outros sinais exteriores, ou ainda a vandalização dos símbolos comemorativos da Shoah, ocupam um lugar de um modo de protesto tido como legítimo por muitos daqueles que pretendem, assim, indignar-se com os sofrimentos infligidos aos palestinos.
Se os judeus são, em maior ou menor grau, israelenses, é porque são, imemorialmente, estrangeiros nos países onde residem — e então se dará quitação aos antissemitas; se são corresponsáveis pelas ações dos diferentes governos israelenses, tem-se razão em atacá-los para melhor apoiar a causa palestina — e se dará quitação aos antissionistas.
Um interessante entrecruzamento dá testemunho do duplo movimento que aponto. A esquerda antissionista, de modo geral, em seu combate contra Israel, reencontra “sem o saber e de pleno grado” os clichês mais surrados do antissemitismo de tradição. A direita antissemita, sobretudo trumpista e MAGA, uma vez desembriagada de seu entusiasmo evangélico-político pelo Estado de Israel, adota espontaneamente as palavras de ordem do antissionismo militante.
O apagamento que tento descrever destaca-se, no entanto, sobre um fundo que não se apaga, longe disso — e que constitui talvez o invariante trans-histórico mais consistente da existência judaica. A diarquia centro/dispersão, Estado/exílio, Israel/países “hospedeiros”, terra prometida/terra de acolhimento forma, desde sempre, a trama mais cerrada das vidas judaicas, afetiva e efetiva. Sua extensão elástica iria talvez até a oposição tradicional Jerusalém/Atenas, em sua refração interna, judaica. Esse duplo foco, essa polaridade em tensão ou em elipse da terra e do exílio, do centro e do mundo, do ponto e da linha, dizia Hegel, forma uma figura da habitação do tempo mundano que nem o sionismo puro e duro, nacional(ista), nem o diasporismo exaltado ou exclusivista lograrão abolir de modo duradouro.
Durante a controvérsia de 1897, em Viena, no texto de sua resposta ao Grão-Rabino Güdemann — hostil a todo projeto de constituição de um Estado judeu “armado de canhões e baionetas”, na Palestina ou alhures —, Theodor Herzl avançava um ponto surpreendente. Os judeus, explicava ele, têm todos uma pátria, Vaterland, da qual são cidadãos, quando isso lhes é permitido, e onde vivem mais ou menos em paz e numa segurança variável. O sionismo, segundo esse texto de Herzl, não pretende retirar-lhes esse Vaterland, nem atribuir-lhes um outro — mas dar-lhes, por acréscimo, uma mãe-pátria, Mutterland, o país dos ancestrais, de sua história ou de seu romance nacional. O sionismo — esse sionismo —, acrescenta, não retira nem substitui, pois as existências judaicas desdobram-se nessa “Binnenpolarität” de que falava Rosenzweig, nessa dinâmica inalienável e interiorizada do país “judeu” e do país das “destinações exteriores” do povo de Israel.
Esse duplo foco, essa polaridade em tensão ou em elipse da terra e do exílio, do centro e do mundo, do ponto e da linha, dizia Hegel, forma uma figura da habitação do tempo mundano que nem o sionismo puro e duro, nacional(ista), nem o diasporismo exaltado ou exclusivista lograrão abolir de modo duradouro.
Há quase dois mil anos, Fílon — natural de Alexandria, de língua grega, autor de um comentário das Escrituras e primeiro promotor do sonho obstinado de uma reconciliação entre a razão e a revelação — distinguia entre Jerusalém, a mikropolis dos judeus, a antiga cidade dos ancestrais, e a makropolis, Alexandria, onde viviam sua própria cosmopolítica, sua macropolítica universal e razoável. Entre esses dois nomes de metrópoles, tão irredutíveis ou indecidíveis um quanto o outro, entre o vasto mundo e a pequena cidade, o destino e a missão judaicos buscam cumprir-se, não sem obstáculos imprevistos nem contornos inevitáveis.
Como Fílon, muitos “judeanos” podiam ser cidadãos, ou súditos, do — ou no — Império Romano, como os habitantes da Gália Cisalpina ou da Ilíria, e manter-se num vínculo indefectível com o Templo, com o Rei, com a Cidade santa — com a mãe-pátria —, sem renunciar à sua vocação de errância planetária ou de grandioso exílio, mas sempre entre os dois.
No confronto contemporâneo das grandes geoteologias imperiais e rivais, não teriam os judeus se tornado, ou voltado a ser, neojudeanos, às voltas com uma cidadania nacional — por vezes contestada — e com uma fidelidade a uma mãe-pátria que não lhes poupa provação alguma?