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K. Os Judeus, o Mundo, o Século XXI
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Eleições israelenses: que cenários para o dia seguinte?

No dia 27 de outubro, os israelenses votam pela primeira vez desde o 7 de outubro, depois de mais quatro anos de um governo que é acusado de atacar a Suprema Corte e após quase vinte anos de domínio praticamente contínuo de Benjamin Netanyahu sobre a cena política. Grande parte do eleitorado espera um novo Mahapakh, comparável à “reviravolta” de 1977. David Chemla analisa o estado de espírito dos eleitores, as listas em disputa e a estratégia dos dois blocos, e depois examina os possíveis cenários do dia seguinte: como nenhum campo parece capaz de obter sozinho a maioria, a questão do apoio dos partidos árabes pode se tornar decisiva para um desfecho.

No dia 27 de outubro acontecerá as eleições mais importantes que Israel conheceu em décadas. Embora seja difícil prever seu resultado, grande parte da população espera que elas provoquem um novo Mahapakh (reviravolta), a exemplo das de 1977, quando o Likud, sob a direção de Menachem Begin, chegou pela primeira vez ao poder.

Um poder em fim de linha

Por que há consenso em dizer que essas eleições são cruciais?

Primeiro, são as primeiras eleições após o trauma do 7 de outubro, do qual nem toda a população se recuperou ainda. É preciso medir a importância desse acontecimento, porque ele vai condicionar o voto de grande parte do eleitorado no dia 27 de outubro1.

Até o 7 de outubro, os israelenses haviam enfrentado guerras e atentados confiando em seu exército e em suas instituições. Naquele dia, foi a população dos kibutzim e das cidades do sul do país que foram atacadas e que, devido à fraca presença da Tsahal na frente, tiveram de se defender sozinhas; sofreram estupros e massacres. Pela primeira vez em sua história, os israelenses se viram na situação de seus avós indefesos durante a Shoá, apesar de todo o poderio de seu exército. Foi a sociedade civil2 que, já no dia seguinte, substituiu o Estado, socorrendo as populações deslocadas do sul e do norte do país e alimentando os soldados enviados à frente.

Todos os responsáveis militares do exército e dos demais serviços de segurança que estavam em funções no 7 de outubro renunciaram ou foram destituídos. Mas o escalão político, a fortiori o que está à frente do Estado, continua no lugar e aspira hoje a ser reconduzido.

Desde então, o governo sempre se recusou a instituir uma comissão estatal de inquérito para identificar os responsáveis cujas escolhas políticas e militares levaram ao massacre, num único dia, de cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis, e à captura de 251 reféns, embora a maioria da população o exija3. Todos os responsáveis militares do exército e dos demais serviços de segurança que estavam em funções no 7 de outubro renunciaram ou foram destituídos. Mas o escalão político, a fortiori o que está à frente do Estado, continua no lugar e aspira hoje a ser reconduzido. A exigência da população de um inquérito se reforçou depois das recentes revelações de que informações sobre a preparação do ataque do Hamas haviam sido transmitidas aos dirigentes israelenses, nas semanas que antecederam o 7 de outubro, por responsáveis dos Emirados e do Egito4 e até por Sufian Abu Zaida, ex-ministro da Autoridade Palestina que servia de mediador entre os israelenses e os dirigentes do Hamas em Gaza5.

A praça dos Reféns, em Tel Aviv, em março de 2024. (Chenspec / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

A segunda razão está ligada ao desgaste do poder. Netanyahu superou Ben-Gurion em longevidade à frente do país6. Desde sua volta ao poder, em 2009, ele domina a cena política nacional. Apelidado de “o mágico”, sempre soube costurar alianças, sobretudo com os partidos religiosos e ortodoxos, para garantir coalizões estáveis. Afastado em 2021 pela coalizão Bennett-Lapid, soube mobilizar os partidos da oposição para atrapalhar o funcionamento dessa coalizão até derrubá-la ao cabo de um ano.

Depois de seus indiciamentos por corrupção e da abertura de seu julgamento, ele sempre se apresentou como vítima da mídia e dos juízes e desviou contra eles a raiva de seus eleitores.

Mas o tempo passou também para ele, e hoje seu discurso tem cada vez mais dificuldade de convencer, mesmo uma parte dos eleitores do Likud7. O outro sinal desse descrédito é a recusa de personalidades populares que ele havia convidado8 a se candidatar na lista do Likud nas próximas eleições.

13 de novembro de 2022: o presidente Isaac Herzog encarrega Benjamin Netanyahu de formar o governo. (Kobi Gideon / GPO, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

A terceira razão é que, para a maior parte da oposição, essas eleições determinará se Israel continuará a evoluir para uma sociedade cada vez mais autocrática, governada por dirigentes extremistas e messiânicos, ou se continuará sendo uma democracia liberal aberta para o mundo.

Há quatro anos, este governo vem atacando sistematicamente os fundamentos sobre os quais a democracia israelense repousa. Ao lançar seu projeto de reforma judicial logo que assumiu o cargo de ministro da Justiça, Yariv Levin procurou pôr em xeque o equilíbrio dos poderes, limitando os da Suprema Corte. Só a mobilização da sociedade civil, a partir de janeiro de 2023, permitiu frear, ou mesmo bloquear, essa reforma9.

Além disso, assiste-se a uma perda de confiança da população em suas instituições, como a polícia10, cada vez mais vista como sendo a milícia de Itamar Ben Gvir, o ministro da Segurança Nacional, enquanto a violência aumenta na sociedade11. Mais de 3.000 pessoas12 que participavam do movimento de protesto foram presas durante as manifestações. De modo mais amplo, o governo provocou e alimentou, nos últimos quatro anos, uma fratura na população, opondo os laicos “kaplanistas esquerdistas”13 ao resto da população e desenvolvendo teorias conspiratórias14.

Manifestação contra a reforma judicial, Tel Aviv, 25 de março de 2023. (Oren Rozen / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

A quarta razão é que a maioria da população exige uma repartição mais justa do esforço e que essas eleições são um meio de pôr fim ao peso dos partidos religiosos. Os eleitores da oposição, assim como grande parte dos eleitores dos partidos de direita, convergem ao pedir o fim da isenção do serviço militar para os estudantes ortodoxos. Apesar da falta de efetivos do exército, engajado em várias frentes, e das centenas de dias de mobilização cumpridos pelos reservistas nos últimos três anos, os partidos ortodoxos mantiveram suas exigências de isenção em troca de seu apoio a Netanyahu. Não tendo conseguido encontrar um acordo aceitável para os partidos de direita, conseguiram aprovar no fim da legislatura uma lei para não penalizar os refratários (lei depois anulada pela Suprema Corte).

É significativo notar a ausência, entre todos esses temas, do conflito e das soluções para tentar resolvê-lo.

Os eleitores laicos, cada vez mais exasperados com a influência dos religiosos, reivindicam sobretudo transporte público no shabat e um reequilíbrio dos recursos públicos, que beneficiam prioritariamente os colonos e os ortodoxos.

É significativo notar a ausência, entre todos esses temas, do conflito israelo-palestino e das soluções para tentar resolvê-lo. Com exceção do partido dos Democratas, de Yair Golan, que defende a necessidade de Israel se separar dos territórios dos palestinos, sem definir exatamente a solução, os outros partidos sionistas da oposição dizem se opor à criação de um Estado palestino15. Desde o 7 de outubro, o apoio da população judaica à solução de dois Estados caiu fortemente e o apoio à anexação da Cisjordânia aumentou, sem que, no entanto, se forme uma maioria a favor de uma dessas duas opções16. A maioria dos judeus continua manifestando indiferença em relação à situação dos palestinos por causa dos massacres do 7 de outubro e se sente antes de tudo afetada pela situação vivida pelos reféns. Além disso, muitos deles têm medo de ver outros ataques lançados a partir das cidades palestinas da Cisjordânia situadas perto dos centros urbanos israelenses. Bezalel Smotrich17 e Itamar Ben Gvir18 aproveitaram esse contexto para desenvolver e financiar19 a colonização20 e para deixar impunes os abusos cotidianos dos colonos extremistas contra os palestinos e seus bens.

Centenas de milhares de ultraortodoxos protestam contra o alistamento militar perto da ponte das Cordas, em Jerusalém, em 30 de outubro de 2025. (Zeevbr / Wikimedia Commons, CC0, domínio público)

Para os partidos sionistas da oposição, o governo não soube transformar os sucessos militares em avanços diplomáticos; eles privilegiariam acordos regionais. Mas as eleições não serão decididas por esse tema.

As listas em disputa e suas estratégias

Trinta e oito listas registraram candidatura na Comissão Eleitoral Central, presidida pelo juiz Noam Sohlberg. Após a intervenção da Suprema Corte, todas foram validadas. Segundo todas as pesquisas das últimas semanas, 13 devem superar a cláusula de barreira21, com incertezas quanto a duas delas, que estão no limite. No entanto, essas projeções divergem, às vezes em uma ou duas cadeiras, e essas diferenças podem alterar o resultado final, dado o empate entre os dois blocos.

A incerteza diz respeito sobretudo à participação dos eleitores tradicionais do Likud. Os que, segundo as pesquisas, pretendem se abster para “punir” Netanyahu ou votar numa lista mais centrista voltarão ao rebanho no último minuto?

Três razões podem explicar a dificuldade do trabalho dos institutos de pesquisa:

– A presença de 550 mil novos eleitores de 18 a 22 anos, muito motivados segundo o Instituto Israelense para a Democracia (IDI)22, mas cujas intenções são pouco conhecidas, ainda que os jovens, sobretudo os soldados, votem tradicionalmente mais à direita do que a média.

– O número de expatriados23, em alta há quatro anos, muitos dos quais anunciaram a intenção de participar da votação voltando ao país24, apesar do preço das passagens25.

– A dificuldade de estimar a taxa de participação: quanto mais alta ela for, mais votos cada lista precisará para superar a cláusula de barreira, o que poderia levar ao fracasso das listas às quais as pesquisas preveem um resultado em torno de 4 cadeiras. Além disso, se os eleitores árabes se mobilizarem mais do que de costume, os partidos que os representam poderiam obter 14 cadeiras, ou até mais26. Não se sabe medir bem, porém, o impacto sobre essa mobilização da retirada da candidatura de Sami Abu Shehadeh, sob pressão da Suprema Corte27. A incerteza diz respeito sobretudo à participação dos eleitores tradicionais do Likud. Se aqueles que, segundo as pesquisas, pretendem se abster para “punir” Netanyahu ou votar numa lista mais centrista, voltarão ao rebanho no último minuto?

As “quatro tribos” diante das urnas

As listas se distribuem segundo as “quatro tribos” da sociedade israelense descritas pelo ex-presidente Reuven Rivlin.

Os ortodoxos:

Não se esperam grandes surpresas quanto ao resultado do voto dessa população. As duas listas ortodoxas atualmente presentes no Knesset, Yahadut HaTorah (“Judaísmo da Torá”) e Shas, deveriam obter cada uma entre 7 e 8 cadeiras. A novidade é a criação de uma terceira lista que aspira a representá-los, HaTzibur HaHaredi (“O Público Haredi”), que quebra tabus do mundo ultraortodoxo (trabalho dos homens, serviço nacional para os estudantes de yeshivá) e tem mulheres em sua lista. Ela não superaria a cláusula de barreira, salvo surpresa no voto das mulheres no segredo da cabine de votação.

Os sionistas religiosos:

Representados atualmente por 14 deputados numa lista comum28, eles concorrem este ano em quatro listas separadas:

Otzma Yehudit (“Força Judaica”), dirigida por Itamar Ben Gvir, que se mantém em torno de 7 a 8 deputados segundo as pesquisas.

HaTzionut HaDatit (“O Sionismo Religioso”), dirigido por Bezalel Smotrich, que teve de incluir em sua lista, sob pressão de Netanyahu, Moshe Feiglin, um ex-deputado ultranacionalista de extrema direita, apesar de detestá-lo29, para que sua lista pudesse superar a cláusula de barreira. Juntos, poderiam obter entre 5 e 7 cadeiras.

Amcha Israel, nova lista criada por Ofer Winter, ex-general de brigada que defende o serviço militar obrigatório para os ultraortodoxos e a emigração voluntária dos habitantes da Faixa de Gaza. Segundo as pesquisas, essa lista dificilmente superaria a cláusula de barreira. Netanyahu ataca seu dirigente por causa do risco de perda de votos que ele faz pesar sobre o bloco de direita30, embora Winter lhe tenha jurado lealdade.

Noam LeIsrael, dirigido por Avi Maoz, não superaria a cláusula de barreira, segundo todas as pesquisas.

As “listas árabes”:

Os árabes israelenses, que constituem 21,5% da população do país, são representados hoje por 10 deputados no Knesset, oriundos de duas listas: Ra’am, dirigida por Mansour Abbas, e Hadash-Ta’al, dirigida por Ayman Odeh e Ahmad Tibi.

As pesquisas indicam uma mobilização dos eleitores árabes mais forte do que de costume e atribuiriam aos partidos que os representam de 12 a 14 deputados

Duas listas vão representá-los nas eleições:

– HaReshima HaMeshutefet (“A Lista Unificada”), que reúne Balad, um partido nacionalista, Ta’al, também partido nacionalista que defende a igualdade entre judeus e árabes, e Hadash, o partido comunista.

– Ra’am, um partido islamista. Yoav Segalovitz, ex-deputado do Yesh Atid, ex-oficial de alta patente da polícia e vice-ministro da Segurança Interna do governo Bennett-Lapid, ocupa nela o segundo lugar. Essa aliança inédita rompe pela primeira vez a fronteira política entre as duas comunidades. Embora judeu sionista e ex-policial, ele é popular entre os árabes israelenses por ter feito recuar a criminalidade em suas localidades: 116 assassinatos em 2022, mais do que o dobro nos anos seguintes, sob Itamar Ben Gvir.31 Já se contam este ano 171 mortos nessa população.32

O presidente Reuven Rivlin recebe os representantes do Ra’am durante as consultas para a formação do governo, 5 de abril de 2021. (Mark Neyman / GPO, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

As pesquisas atuais indicam uma mobilização dos eleitores árabes mais forte do que de costume e atribuiriam aos partidos que os representam de 12 a 14 deputados33, o que lhes daria um papel determinante na formação de um governo dirigido pela atual oposição, se esta aceitasse seu apoio.

Os judeus laicos:

Eles são representados hoje por 78 deputados oriundos de cinco partidos não religiosos: o Likud, com 36 deputados34, e quatro partidos da oposição35. 44% dos judeus israelenses se dizem laicos36, mas esses partidos atraem também eleitores tradicionalistas, ou mesmo religiosos.

É nessa população que houve mais mudanças desde 2022.

Segundo todas as pesquisas, o Likud perdeu mais de 10 deputados em relação às eleições de 2022. As projeções lhe atribuem hoje entre 19 e 21 cadeiras. Por isso Netanyahu se empenhou em promover a fusão das pequenas listas, para não perder votos dentro de seu bloco. Sem conseguir atrair novas personalidades, atribuiu a pessoas próximas ou a ex-ministros os lugares que havia reservado para si na lista.

Com o Yesh Atid em queda, Yair Lapid alinhou-se atrás do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, que encabeça a lista comum dos dois, Beyachad (“Juntos”). Creditada com 25 deputados em sua criação, essa lista viu suas projeções de cadeiras caírem para cerca de uma dúzia.

O Yisrael Beiteinu, dirigido por Avigdor Lieberman, beneficiou-se da transferência de votos de eleitores do Likud e deveria obter entre 8 e 9 cadeiras. Esse partido representa tradicionalmente os judeus originários da ex-URSS, uma população bastante laica.

A lista do Yashar (“Direto”), criada por Gadi Eisenkot, a qual provavelmente vai absorver parte dos eleitores do Likud, assim como a do HaMahane HaMamlachti (“O Campo Nacional”), dirigido por Benny Gantz (que acabou decidindo, à luz das pesquisas, não se candidatar), deve atingir entre 20 e 23 cadeiras e ultrapassar assim as do Likud.

Gadi Eisenkot, cabeça da lista Yashar. (Yahav Trudler / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

O partido dos Democratas37 deve obter entre 9 e 11 cadeiras38.

É preciso notar o fracasso das tentativas de criar uma terceira via feitas por dois ex-ministros e veteranos do Likud contrários à escolha de Netanyahu de apoiar a isenção do serviço militar dos ortodoxos39. Outra lista que aspira representar essa terceira via continua na disputa e, segundo as pesquisas, ficaria no limite da cláusula de barreira ou a superaria por pouco. É a dos “Reservistas”, criada por Yoaz Hendel, que foi ministro das Comunicações do governo Bennett-Lapid e, antes, assessor de comunicação de Netanyahu. Hendel aliou-se a Yaron Zelekha, um economista que aspira a se tornar ministro das Finanças. Situados antes à direita, eles pedem o alistamento dos ortodoxos no exército.

Dois blocos, duas estratégias

As noções de direita e esquerda em Israel são diferentes das que existem na França ou no Brasil. Não são as questões econômicas e sociais que determinam a posição de cada um em um dos campos, mas a posição deles em relação ao conflito. A propaganda da direita sempre consistiu em qualificar todos os opositores de sua política, sobretudo os militantes do movimento de protesto, de “esquerdistas” pró-palestinos e de traidores, a fim de desqualificá-los. Como a sociedade israelense se deslocou ainda mais para a direita desde o 7 de outubro, toda a estratégia do Likud se concentra em dois eixos:

– Evitar assumir responsabilidade no que levou ao massacre do 7 de outubro40 e desviar a raiva do público para as pessoas que estavam encarregadas da segurança no Shin Bet e no exército41.

– Como as pesquisas não lhe permitem esperar a maioria apenas com os partidos de direita e os religiosos, Netanyahu concentra seus ataques na oposição, insistindo no fato de que ela será obrigada a se aliar ao partido árabe Ra’am se quiser chegar ao poder.

Essa estratégia parece ter permitido ao Likud melhorar seus resultados nas pesquisas. Netanyahu continua conseguindo impor, no debate público, os temas que colocam seus adversários em dificuldade, evitando os que o incomodam. Recusa os canais menos alinhados e só fala no Canal 14, ou em canais americanos como a Fox News ou em declarações oficiais sem perguntas.

260 mil voluntários se inscreveram para trabalhar como mesários e escrutinadores, um aumento de 150% em relação às eleições anteriores.

O objetivo comum aos partidos da oposição é aumentar a taxa de participação dos votantes. Em 2022, quando ela era de 70,6% no país, as diferenças eram notáveis conforme as regiões e as populações: 60% nas cidades liberais como Tel Aviv, 64% nas cidades de direita como Ashdod, 75% nas colônias da Cisjordânia e 82% nas cidades ortodoxas. Portanto, quanto mais os eleitores liberais forem votar, mais votos serão necessários para superar a cláusula de barreira, o que poderia impedir duas pequenas listas de direita de alcançá-la.

A dificuldade da oposição é que ela é composta de quatro partidos sionistas, três dos quais têm líderes que aspiram ao cargo de primeiro-ministro42 (ao passo que, do outro lado, Netanyahu é o único candidato), e de duas listas árabes. Os cinco líderes43 dos partidos sionistas reuniram-se em 26 de setembro e publicaram uma declaração de princípios44 afirmando “sua união e sua determinação em trazer mudanças positivas e esperança ao Estado de Israel”. Uma questão, porém, os divide: a eventual participação do Ra’am numa futura coalizão, que só os Democratas apoiam, embora dois terços dos eleitores judeus da oposição sejam favoráveis a ela45.

A oposição tem consciência dos riscos que pesam sobre o bom andamento das eleições, a ponto de alguns cogitarem recorrer a observadores estrangeiros46. 72% dos eleitores judeus e 58,5% dos eleitores árabes temem interferências que comprometam a integridade das eleições47. Para se preparar para esse dia, 260 mil voluntários se inscreveram para trabalhar como mesários e escrutinadores, um aumento de 150% em relação às eleições anteriores. A hipótese, às vezes aventada, de um adiamento da votação em razão de uma retomada dos combates parece pouco provável, dado o cansaço da opinião pública diante da guerra.

No dia seguinte à votação: três cenários

Esses cenários partem da hipótese, a mais provável, de que nenhum dos dois blocos conseguirá obter sozinho a maioria. No entanto, mais de 10% dos eleitores ainda hesitam entre os dois blocos, e muitos deles farão sua escolha no último minuto48. Além disso, constatou-se nas eleições anteriores que muitos eleitores acabam optando pelo voto útil, escolhendo um dos grandes partidos para fortalecê-lo, o que poderia eliminar as pequenas listas e enfraquecer outras.

Mesmo que o Likud consiga um resultado melhor, terá dificuldade em persuadir a lista dos “Reservistas” a se juntar a ele numa coalizão de direita com os ortodoxos, por causa da divergência sobre a isenção militar dos estudantes de yeshivá.

Tel Aviv, sábado, 26 de setembro de 2026, na casa de Yair Lapid, líder da oposição. Da esquerda para a direita: Yair Lapid, Gadi Eisenkot (Yashar), Yair Golan (Os Democratas), Naftali Bennett (lista Beyachad) e Avigdor Lieberman (Yisrael Beiteinu).

Se os partidos “sionistas” da oposição não chegarem a um acordo para formar uma coalizão com o partido Ra’am, terão de escolher entre três alternativas:

– Organização de novas eleições dentro de alguns meses, o que implicaria a manutenção, até lá, do atual governo, com Netanyahu como primeiro-ministro.

– Formação de um governo de união nacional dos partidos “sionistas”, que iria do Likud, sem os partidos extremistas Otzma Yehudit e HaTzionut HaDatit e sem os ortodoxos, até o Yashar, que não se comprometeu a não governar com o Likud.

– Formação de um governo minoritário com o apoio externo dos partidos árabes. Esse cenário já ocorreu no passado com o segundo governo Rabin, de 1992 a 1995, que pôde assim fazer o Knesset aprovar os Acordos de Oslo.

Dada a expectativa de mudança da maioria de seus eleitores, parece-me difícil imaginar que a oposição escolha um dos dois primeiros cenários. Os quatro dirigentes dos partidos sionistas da oposição afirmam opor-se à participação, no próximo governo, dos dirigentes que estavam no poder no 7 de outubro. Penso que a oposição optaria antes por um governo minoritário, com apoio externo das listas árabes. Depois, após ter governado o país por alguns meses e começado a melhorar a situação interna e externa, ela poderia organizar novas eleições capazes de lhe dar uma maioria clara.

Enquanto não for nomeada uma comissão estatal de inquérito sobre os massacres do 7 de outubro, será impossível para a população fazer seu luto.

1977, um precedente?

Em conclusão, para retomar a comparação com a situação das eleições de 1977, notam-se semelhanças com a de hoje:

– As eleições de 1977 foram as primeiras realizadas a frio depois da guerra do Yom Kipur, que foi, como é hoje o 7 de outubro, um grande trauma para a população. As anteriores haviam ocorrido em dezembro de 1973, quando a guerra acabara de terminar e os soldados ainda estavam mobilizados.

– As de 1977 vieram encerrar cerca de trinta anos de poder do Partido Trabalhista, assim como as de hoje ocorrem depois de cerca de vinte anos de domínio quase contínuo de Netanyahu. Nos dois casos, constata-se certo desgaste do poder.

– Multiplicação dos “escândalos”: em 1977, escândalos envolvendo dirigentes trabalhistas e a conta bancária de Leah Rabin49 nos Estados Unidos pesaram na votação. Hoje, vários ministros e deputados são alvo de processos, sem contar o julgamento de Netanyahu, em curso desde 2020, por corrupção, fraude e quebra de confiança. Esses casos são muito mais graves do que os que haviam atingido os trabalhistas em 1977.

Golda Meir em 1974, ano de sua renúncia. (IPPA / Coleção Dan Hadani, Biblioteca Nacional de Israel, CC BY 4.0)

Mas, diferentemente de 1977, o governo atual continua se recusando a assumir suas responsabilidades, ao contrário do que fez Golda Meir ao renunciar depois da publicação do relatório intermediário da comissão Agranat50, criada para analisar as falhas da guerra do Yom Kipur. Enquanto não for nomeada uma comissão estatal de inquérito sobre os massacres do 7 de outubro, será impossível para a população fazer seu luto. Ela não apagará nenhum trauma, mas permitirá identificar todas as responsabilidades, para que uma tragédia como essa não se repita.

  1. Para 68% dos judeus israelenses, os acontecimentos do 7 de outubro são um fator determinante para o seu voto, segundo uma pesquisa do Instituto Israelense para a Democracia (IDI). A atenção dada ao massacre do Hamas ultrapassa as clivagens políticas, ainda que seja mais pronunciada à esquerda: ela é central para 76,5% dos eleitores de esquerda, contra 74% dos centristas e 66% dos eleitores de direita. Ela transcende também as diferenças de observância religiosa, com exceção dos judeus ultraortodoxos, dos quais apenas 26% declaram que se trata de uma questão-chave, contra 81% dos judeus laicos e 56% dos sionistas religiosos. Ela só é central ou bastante central para 32% dos eleitores árabes. (en.idi.org.il) ↩︎
  2. Sobretudo a associação Ahim LaNeshek (“Irmãos de Armas”), composta de ex-militares e reservistas, que havia sido muito ativa no movimento de protesto e que se mobilizou já em 8 de outubro. ↩︎
  3. 100% dos eleitores judeus de esquerda, 84% dos de centro e 36% dos de direita (pesquisa IDI, dezembro de 2025, en.idi.org.il). ↩︎
  4. Segundo uma investigação de Shlomi Eldar publicada no Haaretz e depois confirmada pelo New York Times, o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed (MBZ), havia advertido Netanyahu sobre o ataque do Hamas cerca de dez dias antes do 7 de outubro. Segundo The Atlantic, o chefe da inteligência egípcia, Abbas Kamel, foi secretamente a Israel em 26 de setembro de 2023 para avisar os israelenses de que o Hamas preparava um ataque de grande envergadura. Depois, segundo o Yedioth Ahronoth e o Wall Street Journal, ele teria telefonado a Netanyahu alguns dias antes do 7 de outubro para alertá-lo sobre sinais que indicavam um ataque iminente. Desde a publicação dessas revelações, o gabinete de Netanyahu as qualificou de “mentiras absolutas”. Netanyahu teria exortado MBZ a desmenti-las, o que ele não fez (fr.timesofisrael.com). ↩︎
  5. allisraelnews.com ↩︎
  6. 19 anos no total para Netanyahu e quase 14 anos para Ben-Gurion. ↩︎
  7. Isso se vê na queda do Likud nas pesquisas. ↩︎
  8. Recusa de Moshe Kahlon, ex-ministro das Comunicações e depois dos Assuntos Sociais em seus governos anteriores, e de Yossi Cohen, ex-diretor do Mossad. ↩︎
  9. Das 573 leis aprovadas durante a atual legislatura, 24 são classificadas como leis que questionam as relações entre os poderes. A Suprema Corte anulou algumas delas, como a que visava suprimir seu direito de anular uma decisão do governo que, embora legal, fosse considerada “irrazoável”, e a que havia congelado a possibilidade de prender refratários (lei que dizia respeito aos ortodoxos). Congelou outras até o exame das petições em curso contra elas e adiou para o próximo ano, ou seja, para depois das eleições, a aplicação de outras leis, como a modificação da comissão de nomeação dos juízes. (zman.co.il) ↩︎
  10. 63% dos judeus e 80% dos árabes têm pouca ou nenhuma confiança na polícia, segundo uma pesquisa do Instituto Israelense para a Democracia (en.idi.org.il). ↩︎
  11. Ela está particularmente em alta no setor árabe. ↩︎
  12. Entrevista de Gaby Lasky, ex-deputada do Meretz e candidata do partido dos Democratas. Advogada, ela atuou para libertar muitos dos manifestantes presos. ↩︎
  13. Nome dado aos manifestantes que se reuniam na rua Kaplan, em Tel Aviv, para participar do movimento de protesto contra a reforma judicial e, depois, pelo fim da guerra. ↩︎
  14. Acusações de traição, ou mesmo de cumplicidade, contra responsáveis dos serviços de segurança ou personalidades como Yair Golan, que teriam sabido do ataque do Hamas antes do 7 de outubro. ↩︎
  15. Gadi Eisenkot afirma apoiar os assentamentos na Cisjordânia apenas quando correspondem aos interesses nacionais e respeitam a lei. Para ele, “não é o momento de falar de um Estado palestino”, mas, a longo prazo, ele considera uma entidade palestina estável sob responsabilidade de segurança israelense (timesofisrael.com). ↩︎
  16. O apoio à solução de dois Estados passou de 47% em 2018 para 21% em 2026, enquanto o apoio à anexação passou, no mesmo período, de 17% para 30%. Hoje, 24% apoiam uma separação com manutenção do controle de segurança por Israel, e os 25% restantes apoiam o status quo. (Ver as pesquisas e os relatórios realizados por Tamrur-Politography, o grupo de pesquisa sobre o conflito israelo-palestino dirigido por Shaul Arieli, politography.org.il.) ↩︎
  17. Ministro das Finanças e ministro no Ministério da Defesa encarregado das decisões administrativas em matéria de colonização na Cisjordânia, e dirigente do partido Sionismo Religioso. ↩︎
  18. Ministro da Segurança Nacional e dirigente do partido Otzma Yehudit. ↩︎
  19. Ministro da Segurança Nacional e dirigente do partido Otzma Yehudit. ↩︎
  20. 265 colônias ilegais (outposts), a maioria delas fazendas, foram criadas desde 2023 (peacenow.org.il), sem, no entanto, modificar o equilíbrio demográfico entre israelenses e palestinos na Cisjordânia (lapaixmaintenant.org). ↩︎
  21. Para reduzir o número de pequenas listas, o Knesset fixou um mínimo de votos para que elas sejam representadas. Desde 2015, essa cláusula de barreira é de 3,25% dos votos válidos. ↩︎
  22. en.idi.org.il ↩︎
  23. 278 mil desde 2023, segundo a Universidade de Tel Aviv, entre os quais quase 1.400 médicos (para estes, um aumento de 94% em 2023-2025 em relação a 2013-2015). ↩︎
  24. Com exceção dos diplomatas e das pessoas em missão no exterior, os israelenses devem votar em Israel. Estima-se em quase um milhão o número de israelenses, crianças incluídas, que vivem no exterior, dos quais mais de 270 mil teriam emigrado nos últimos anos. (fr.timesofisrael.com) ↩︎
  25. Fly & Vote, uma iniciativa da AID Coalition, uma ONG americana apresentada como apartidária. Foi criada para ajudar os expatriados, do ponto de vista logístico, a encontrar voos e organizou ela mesma alguns voos fretados a partir dos Estados Unidos, sem financiar as passagens. ↩︎
  26. A taxa de participação deles nas eleições foi de 53,2% em 2022, inferior à média nacional, que foi de 70,6%. De 2003 até hoje, ela variou entre 44,6%, o ponto mais baixo, em 2021, e 64,8%, o mais alto, em 2020 (quando os quatro partidos haviam formado uma lista comum), enquanto a taxa nacional variou entre 63,5%, em 2006, e 72,3%, em 2015. ↩︎
  27. A Suprema Corte pediu a Sami Abu Shehadeh, dirigente do Balad, um dos três partidos da Lista Unificada, que retirasse sua candidatura para não ter de invalidá-la por causa de um artigo que ele havia escrito no dia seguinte ao 7 de outubro e que podia ser visto como um apoio ao ataque do Hamas; foi o que ele fez. As outras decisões de invalidação das duas listas árabes e do deputado Ofer Cassif, do partido Hadash, foram anuladas pela Suprema Corte. ↩︎
  28. Composta de três facções: “O Sionismo Religioso”, com 7 deputados, “A Força Judaica”, com 6 deputados, e “Noam”, com um deputado. ↩︎
  29. Smotrich dizia a respeito dele que “não estava nem em seu estado normal nem em seu juízo perfeito” (jpost.com). ↩︎
  30. HaTzionut HaDatit e Amcha Israel estão numa situação delicada. Poderiam ter o mesmo destino do Meretz em 2022, que ficou abaixo da cláusula de barreira por cerca de 4 mil votos e, portanto, não conseguiu entrar no Knesset. ↩︎
  31. abrahaminitiatives.org ↩︎
  32. A questão da criminalidade no setor árabe é o primeiro fator de decisão do voto dos árabes israelenses (31,5%), à frente das questões econômicas (19%) ou da segurança e do conflito (15%) (en.idi.org.il). ↩︎
  33. Entre 7 e 9 para HaReshima HaMeshutefet e entre 5 e 6 para o Ra’am. ↩︎
  34. Dos quais 4 de uma lista liderada por Gideon Saar, ministro das Relações Exteriores e ex-rival de Netanyahu na direção do Likud, que voltou ao partido. ↩︎
  35. Yesh Atid, dirigido por Yair Lapid, com 24 deputados; HaMahane HaMamlachti, com Benny Gantz e 8 deputados, depois da saída dos 4 deputados que seguiram Gideon Saar; Yisrael Beiteinu, com Avigdor Lieberman e 6 deputados; e os Democratas, dirigidos por Yair Golan, com 4 deputados. ↩︎
  36. fr.timesofisrael.com ↩︎
  37. Nascidos da fusão do Partido Trabalhista com o Meretz, os Democratas quase dobraram o número de filiados. Incluíram entre os 15 primeiros nomes de sua lista 8 novos candidatos, dos quais 5 dirigentes do movimento de protesto, e impuseram uma alternância estrita entre homens e mulheres. ↩︎
  38. fr.timesofisrael.com ↩︎
  39. Gilad Erdan, ex-ministro da Segurança Interna, das Comunicações e da Cooperação Regional, depois embaixador de Israel na ONU de 2020 a 2024, e Yuli Edelstein, que ocupou os cargos de ministro da Saúde, presidente do Knesset e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa. ↩︎
  40. 65% da população acha que Netanyahu tem grande responsabilidade e 22%, pequena responsabilidade (mako.co.il). Numa entrevista transmitida em 8 de outubro pelo canal, o general Avi Gil, secretário militar de Netanyahu em funções no 7 de outubro, afirmou que o gabinete do primeiro-ministro havia falsificado documentos ligados ao pogrom cometido pelo Hamas e que o primeiro-ministro havia escolhido, repetidas vezes, preservar seu governo em vez de aceitar um acordo que teria permitido libertar mais cedo os reféns, alguns dos quais morreram depois nos cárceres do Hamas (fr.timesofisrael.com). ↩︎
  41. Netanyahu se exime de sua própria responsabilidade atacando pessoalmente Ronen Bar, chefe do Shin Bet em funções no 7 de outubro, a quem qualifica de “criminoso” por ter sabido do perigo e não tê-lo avisado. Ronen Bar contesta essa versão e ameaça processar Netanyahu por difamação. ↩︎
  42. Naftali Bennett, Gadi Eisenkot e Avigdor Lieberman. Yair Golan é o único a propor que Gadi Eisenkot, o mais bem colocado nas pesquisas, seja o candidato da oposição. ↩︎
  43. Naftali Bennett, Gadi Eisenkot, Yair Golan, Yair Lapid e Avigdor Lieberman. ↩︎
  44. fr.timesofisrael.com ↩︎
  45. en.idi.org.il ↩︎
  46. haaretz.com ↩︎
  47. en.idi.org.il ↩︎
  48. mako.co.il ↩︎
  49. Comissão instituída sob a direção do juiz Shimon Agranat, presidente da Suprema Corte, para analisar os erros da guerra do Yom Kipur e as responsabilidades pessoais dos dirigentes políticos e militares então em funções. ↩︎
  50. Em 15 de março de 1977, Dan Margalit, correspondente do Haaretz em Washington, revela que Yitzhak e Leah Rabin têm uma conta bancária em dólares nos Estados Unidos, aberta quando Yitzhak Rabin era embaixador em Washington (1968-1973), quando a lei proibia os israelenses de ter conta no exterior. Yitzhak Rabin renuncia a encabeçar a lista trabalhista e cede o lugar a Shimon Peres; Leah Rabin é condenada a uma multa de 250 mil libras israelenses. ↩︎