O judeu imaginário de Michel Feher
Os judeus morreram. Vivam os judeus.
Em "Redevenir juif", Michel Feher pretende refundar uma identidade judaica diaspórica contra o sionismo e contra aquilo que ele denomina um “pacto de branquitude”. Sophie Goldblum enxerga aí, ao contrário, uma operação mais inquietante: a substituição dos judeus reais — expostos ao antissemitismo, imersos na história, atravessados por pertencimentos diversos — pela figura abstrata, moral e sacrificial de um judeu imaginário. Ela indaga o que essa concepção exige dos judeus: não que sejam sujeitos de sua própria história, mas testemunhas úteis, intimadas a se dessolidarizar de Israel para merecer seu lugar entre os justos e os inocentes.
Convidado do programa matinal da France Culture em 27 de maio de 20261, Michel Feher — que, no entanto, dedica um livro inteiro à identidade judaica2 e, sobretudo, já que ao que parece é a única que vale, à dos judeus de esquerda — nunca ouvira falar de Barbara Butch. A artista queer está, porém, no centro do noticiário desde que sua assinatura na petição a favor da lei Yadan lhe rendeu uma convocação ao boicote, acompanhada de uma violenta campanha de ciberassédio3. Interrogado sobre o que essa descarga de ódio revela quanto ao lugar dos judeus na cidade, Feher trata de repisar a falta imperdoável de Barbara Butch, que acabara de descobrir: “Ela assinou a lei Yadan, e isso” — dirá ele por duas vezes — “isso não é mesmo pouca coisa”. Ele pede que se dirija antes o olhar aos verdadeiros perseguidos: “a UJFP, cujo domicílio do diretor de publicação foi objeto de busca e apreensão”, alegando que estes são acossados por um sistema estatal, ao passo que os artistas judeus, esses, enfrentam tão somente a vindita popular.
É fazer pouco caso do alcance e da força das organizações não estatais. Mas, sobretudo — e isto é mais grave —, é apresentar como equivalentes os motivos da busca no domicílio do diretor de publicação da UJFP e o banimento da DJ. Cumpre lembrar que, se a UJFP foi importunada, foi em razão de um comunicado intitulado “Basta com o concerto pró-israelense das nações! Resistir a um ocupante é legítimo!”, publicado no próprio dia dos massacres terroristas de 7 de outubro. Qualificar de “resistência legítima” o massacre de civis pode, legitimamente, levantar a questão da incitação à violência que tais palavras carregam. Isso não é mesmo pouca coisa?
O restante das declarações de Feher é igualmente instrutivo. Devemos voltar os olhos para a UJFP, mas também “para os estudantes pró-palestinos dos campi americanos”. O qualificativo judeu está aqui ausente. Ao citar a UJFP como exemplo, Feher buscava mostrar que, se os judeus são postos no banco dos réus por sua relação real ou fantasiada com Israel, são ainda mais perseguidos — já que pelo próprio Estado — quando defendem a Palestina. Esse deslizamento em direção aos estudantes não judeus de Columbia e de outras prestigiosas universidades americanas não é anódino. À questão do antissemitismo, Feher responde inevitavelmente antepondo outras formas de ódio. Há sempre mais de que se compadecer do que dos judeus, e a existência — bem real — de discriminações racistas na América trumpista serve de diversão. Mas para onde ele quer voltar o nosso olhar? Olhem para outro lugar: é ali que se encontram os judeus verdadeiros. Em Redevenir juif, no subcapítulo intitulado “O não judeu-judeu”, Feher retoma a célebre tirada de Edward Said, que afirmava ser “o último intelectual judeu”. Não havia nisso nada de gracejo. No lugar do dogma cristão da teologia da substituição, pela qual a Igreja substituía o antigo Israel (entendido no sentido de povo judeu), surdo à verdade de Cristo, Feher — e outros com ele — propõem um supersessionismo de um novo gênero. Desta vez são os palestinos, vítimas eternas e apátridas, que assumem o papel do verus Israel, do novo povo judeu. Os palestinos não se contentam em partilhar hoje as condições materiais que Feher quer ver como essenciais nos judeus de outrora; ei-los agora investidos de uma verdadeira missão: aquela que o povo judeu, cegado pelo sionismo, teria abandonado. E aqui o filósofo desliza, de modo surpreendente, para o teológico. Qual é a natureza dessa missão que ele atribui aos judeus?
É judeu aquele que está investido da missão de judaizar o mundo4, de semear “a insegurança identitária”5 pelo Ocidente afora. Os judeus são, portanto, um conceito, um adjuvante, antes de serem uma coletividade bem real, feita de carne e sangue, e só existem na medida em que são úteis ao advento de uma sociedade idealizada. Quer sejam os vestígios do povo de Cristo em santo Agostinho, a lembrar aos fiéis a Sua verdade, quer sejam os “párias conscientes” de Feher, a advertir o mundo contra a deriva fascista, jamais são um fim em si mesmos. O Ser judeu deve estar inteiramente voltado para os não judeus, existindo apenas para salvá-los. Já não é Cristo que é judeu; são os judeus que são crísticos. E ai do judeu se ele decair dessa missão: seu lugar está contado.
Por ocasião de um encontro entre Michel Feher e a antropóloga Catherine Hass (no último dia 3 de junho), tive a oportunidade de entrever o judeu com que sonha o nosso autor. À guisa de introdução, o apresentador explica, retomando a tese de Michel Feher, que a história do Estado de Israel está intrinsecamente ligada à do antissemitismo, pois os próprios pais fundadores do Estado judeu eram, eles mesmos, antissemitas. É Feher a ilustrar a afirmação: aqui, o uso da palavra “youpin” em Herzl; ali, o desprezo dos sionistas pelas massas judaicas da diáspora, incapazes de empunhar uma arma.
Feher reconhece, pois, que um judeu possa ter vieses antissemitas — e ainda bem. Ele, por sua vez, decerto não é antissemita. É verdade que o filósofo não despreza os judeus proletários, os desarmados. Ele os totemiza. Os “antissemitas” Herzl e seus pares, aprove-se ou não o remédio que preconizam, tinham por horizonte pôr a salvo os judeus perseguidos e submetidos a pogroms pelo mundo afora. Feher, por sua vez, prefere um bundista morto a um sionista vivo. E ri: “A mim, ser chamado de antissemita, isso me diverte”.
A qualificação de antissemitismo é um gracejo, do qual se pode zombar à maneira de um Mélenchon. Se a acusação houvesse partido dos próprios interessados e recaísse sobre um mal “real” — o sexismo, por exemplo —, esses homens de esquerda teriam batido no peito em expiação de seus vieses patriarcais. Mas o antissemitismo não existe: Feher o dirá quase com todas as letras ao final de sua intervenção. Talvez seja porque, para ele, os próprios judeus não existem. Se Finkielkraut falou do “judeu imaginário”, Michel Feher, este, imagina os judeus, modela-os à sua imagem e semelhança. “Ser o judeu detestado pelos antissemitas” — eis o programa. Não judeu para si, não judeu em si, mas judeu para e no olhar do antissemita. Deve-se ali estar bem apertado.
Gostaríamos de perguntar a Feher se tornar-se “o judeu que os antissemitas detestam” não lhe confere um ponto em comum cômico com Herzl e seus pares, quando estes sonhavam com um judeu emancipado das humilhações do exílio. Mas com o sionismo ele não quer reconhecer parentesco algum. “Israel é o país menos judeu do mundo, pois se funda na desjudaização dos judeus”6. Ser judeu, na definição unívoca e a-histórica de nosso autor, é estar em exílio. Tudo se resume e se reduz a isso, e a nada mais. E ei-los, Hillel e Rabi Akiva, o Ramban e o Ari, os discípulos dos Tossafot e os do Gaon de Vilna; enfim, todos esses judeus que viveram ou buscaram estabelecer-se na terra de seus ancestrais — ei-los, esses traidores do Ser judeu, desmascarados por Feher.
Quem surgirá, para lembrar ao filósofo que a diáspora é uma condição de vida acidental da existência judaica, uma ferida infligida por um colonialismo avant la lettre, para empregar uma linguagem à qual, sabe-se, ele é sensível7? A diáspora não é nem uma ontologia nem um telos, tampouco a negação da essência judaica, como afirmam certas vozes sionistas. Ela é um produto da história. Foi Albert Memmi quem, talvez melhor do que ninguém, soube lembrar que não há por que orgulhar-se de uma fraqueza política padecida.
“Esse progresso obtido pela e na opressão nada vale. Progresso de vencidos, progresso suspeito. A recusa do sangue derramado é também o medo do sangue: valor-refúgio. É um progresso a refazer, desta vez na liberdade. Humanismo, sim, mas humanismo do pós-libertação, e não esse humanismo falseado, de mão única, que me faz considerar todos os homens como santos, numa humanidade em que continuo sem ter o meu lugar.”8
Afirmar que, sob o pretexto de que os judeus estiveram historicamente na diáspora durante numerosos séculos, estariam condenados a não conhecer nenhuma outra forma de existência é ver neles apenas relíquias de um passado romantizado, é querê-los privados de agência, despojados do curso de seu próprio destino.
Será o sionismo, de fato, o maior perigo para os judeus? Em todo caso, é o maior objeto de interesse de Michel Feher. O leitor esperava, sem dúvida, encontrar numa obra intitulada Redevenir juif um roteiro para uma identidade judaica de diáspora. Surpreender-se-á ao deparar com uma análise — interessante, ainda que não inovadora — dos vieses racistas dos fundadores do Estado judeu. Quanto à outra parte do livro, dedica-se a analisar — de maneira igualmente interessante — a ampla presença de um antissemitismo declarado na galáxia MAGA. Não se pode senão acompanhar o autor em sua preocupação de assinalar que o apoio a Israel não é penhor de probidade na questão do antissemitismo. Mas é forçoso constatar que, para uma obra diasporista, Israel é estranhamente onipresente, e a identidade judaica, notavelmente desprovida de conteúdo.
Não é esse o único paradoxo. Em sua intervenção na France Culture, quando lhe perguntam se não se deveria, ainda assim, reconhecer um vínculo de correlação entre antissemitismo e antissionismo, à vista dos ataques contra os judeus da diáspora perpetrados em nome dos horrores cometidos em Gaza, Feher exclama: “Sim, mas de quem é a culpa!? A partir do momento em que os governos ocidentais e o governo israelense consideram que vocês [os judeus] têm uma lealdade a Israel […], mais uma vez, de quem é a culpa?”9.
Não dos antissemitas, ao que parece. Aqui, Feher parece reconhecer a Israel o direito de definir, para os judeus da diáspora, um papel de representante, revestindo-os de um uniforme que tem tudo de um alvo. Se Israel reivindica os judeus do mundo inteiro, o fato está consumado. Eis uma concessão ao sionismo capaz de surpreender.
Distinguir os judeus dos sionistas. Eis a obsessão, tida como salvadora, que levou a semear de afirmações no mínimo temerárias a noite em Montreuil a que assisti. Com efeito, nossos protagonistas citam Delphine Horvilleur, Raphaël Enthoven, Alain Finkielkraut e Eva Illouz num só fôlego, como se um colaborador do Franc-Tireur e uma intelectual que condena com veemência Netanyahu, Ben Gvir e Smotrich falassem a uma só voz. Não é hora para matizes, como Feher lembrara nas ondas da France Culture. Contudo, um distinguo é bem reconhecido nessa lista: ao menos Enthoven e Finkielkraut são, como lembra o apresentador do encontro entre Catherine Hass e Michel Feher, “administrativamente franco-franceses”10. Essa precisão vem eximir esses dois homens do pecado que se imputa a Eva Illouz: “Ela é israelense, cresceu lá, é importante dizê-lo, é um ethos”, assinala Catherine Hass. Passaremos por alto a questão do que define, segundo Hass, esse ethos11 — essencializando assim milhões de israelenses — e nos limitaremos a lembrar que a socióloga nasceu e passou parte da infância no Marrocos, antes de se instalar com a família em Sarcelles.
Delphine Horvilleur? Hass julga que ela “fala como um padre”12. Embora Horvilleur tenha denunciado as violências cometidas contra os palestinos — atraindo com isso as iras de muitos lados —, sua recusa em condenar o projeto sionista a coloca inexoravelmente no campo do inimigo: “Se ela acha que Israel é maravilhoso, que vá viver lá”13. Tal injunção parece dificilmente transponível a qualquer outro grupo que não os judeus, pois mal se imagina uma intelectual de esquerda proclamar: “Se ela gosta tanto da Argélia, que vá viver lá”.
Voltemos ao cerne do argumento apresentado. Todo o teor de Redevenir juif repousa no postulado de que existe aquilo que Feher denomina “um pacto de branquitude”: o establishment ofereceria aos judeus proteção e reconhecimento em troca da constituição de uma frente comum contra outras minorias, luta na qual Israel estaria na linha de frente. Mas, brada Feher, é preciso que isso cesse. Os judeus devem recusar publicamente esse pacto celerado. Ele conclama os judeus da diáspora a “sair da toca” e a afirmar bem alto seu desprendimento em relação ao sionismo. Feher está cansado desses frouxos que dizem querer a paz, mas não clamam pelo desmantelamento do Estado judeu.
Não posso deixar de me perguntar se os judeus que, como quereria o nosso filósofo, tivessem pincelado Not in My Name nos frontões de suas portas, expiando crimes que não cometeram, se esses judeus teriam saído com vida diante da torrente de ódio assassino que se abate sobre eles, de Toulouse a Sydney, passando por Londres. O caso Nadav Lapid demonstrou-o cruelmente: o antissemitismo pouco se importa com declarações, tampouco com a pureza dos corações.
Na verdade, o único pacto de branquitude é o que Feher nos propõe. É a nossa pata branca que devemos mostrar a seus “camaradas” das nações; são as nossas mãos que devemos lavar do sangue de nosso crime original. “O maior perigo para mim, enquanto judeu, é o sionismo, não o antissemitismo. Não somos a minoria mais atacada na França, não se deve exagerar” — responde-me ele quando lhe pergunto, nesse encontro de 3 de junho, se os judeus que aplicassem o seu programa se veriam poupados pela torrente antissemita que se observa desde 7 de outubro14. Feher tem razão num ponto: o antissemitismo não representa, para ele, um grande perigo — provavelmente ele jamais terá de sofrer-lhe as consequências. As sinagogas bem podem ser apedrejadas, os judeus identificáveis esfaqueados, as crianças judias assassinadas nas escolas: tudo isso não passa de dores da carne. O sionismo macula a sua postura de condenado da terra: é a sua alma que está em jogo.
- https://www.radiofrance.fr/franceculture/podcasts/l-invite-e-des-matins/le-sionisme-de-gauche-est-il-mort-a-gaza-7355309 ↩︎
- Michel Feher, Redevenir juif. La fin d’un pacte de blanchiment réciproque [Devir novamente judeu. O fim de um pacto de branqueamento recíproco], maio de 2026. ↩︎
- La DJ Barbara Butch visée par un appel au boycott”, in Le Monde, 21/05/2026. ↩︎
- Feher, M. (2026). Redevenir juif. La fin d’un pacte de blanchiment réciproque [Devir novamente judeu. O fim de um pacto de branqueamento recíproco]. La Découverte, p. 189. ↩︎
- Idem, p. 192. ↩︎
- https://www.radiofrance.fr/franceculture/podcasts/l-invite-e-des-matins/le-sionisme-de-gauche-est-il-mort-a-gaza-7355309 ↩︎
- É aliás ao Império Romano — o mesmo que esmagará as revoltas da Judeia e porá fim, por longo tempo, à soberania judaica sobre sua terra de origem — que se deve o próprio conceito de “colônia”. ↩︎
- Albert Memmi, La libération du Juif [A libertação do judeu]. ↩︎
- https://www.radiofrance.fr/franceculture/podcasts/l-invite-e-des-matins/le-sionisme-de-gauche-est-il-mort-a-gaza-7355309 ↩︎
- Discussão organizada em Montreuil, no Café Librairie de la Parole Errante, por Michèle Firk, sob o título “Redevenir juif par temps de Génocide ?” [Voltar a ser judeu em tempos de Genocídio?]. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Segundo os dados da inteligência territorial, entre setembro e outubro de 2023 o número de atos antissemitas registrados passou de 43 a 563, ou seja, um aumento de 1.209%. Desde 7 de outubro de 2023, a maioria dos atos antissemitas registrados na França visa diretamente as pessoas, e não os bens. Em 2023, 57,8% dos atos antissemitas eram atentados contra pessoas, proporção que ultrapassou 65% em 2024 e 67% em 2025. Vide a reportagem sobre os números do antissemitismo. ↩︎