Hayyim Nahman Bialik: Discurso de inauguração da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Em 1º de abril de 1925, o grande poeta Bialik pronunciava o discurso de inauguração da Universidade Hebraica de Jerusalém. Esse discurso, traduzido pela primeira vez em francês pela revista a K. – e desta para o português –, nos reconduz ao mundo de um yichouv ainda frágil e do sionismo em sua fase pré-estatal. Uma época em que o projeto sionista oscilava entre a afirmação de uma solução política para os judeus, em ruptura com a Europa, e a de uma realização cultural que continuava a se inscrever na trajetória dos judeus na Europa. A Universidade, como várias outras instituições na Palestina mandatária, precede o Estado e o concebe como um centro intelectual do povo judeu por vir.
Apresentação
A ideia de abrir uma instituição universitária judaica na Palestina foi discutida pela primeira vez no primeiro congresso sionista, em 1897. Em seguida, um grupo de jovens sionistas inspirados por Hayyim Weizmann, então professor na Universidade de Genebra, decidiu fazer da criação de uma universidade um objetivo primordial do movimento sionista. O grupo, que incluía Martin Buber e Berthold Feiwel (um poeta judeu austríaco, fundador da editora Jüdischer Verlag), evocou a questão no Congresso de 1901. Ao final desse congresso, Theodor Herzl submeteu um pedido oficial ao sultão otomano para obter autorização para criar uma universidade em Jerusalém. O projeto era criar uma instituição universitária respeitada no plano internacional, que serviria como principal estabelecimento de ensino, oferecendo ao povo judeu os recursos culturais, espirituais e intelectuais derivados de seu patrimônio e favorecendo a formação de novas gerações de cientistas, filósofos, estadistas, professores, agrônomos e empreendedores comerciais para as necessidades crescentes de uma nova nação. Uma instituição que também permitiria aos judeus estudar e trazer sua própria contribuição à pesquisa em todo o mundo.
Em 1918, a Organização Sionista Mundial recebeu dos britânicos a autorização para lançar a pedra fundante da universidade. Em 24 de julho de 1918, doze pedras de fundação foram seladas por Hayyim Weizmann no monte Scopus, ao nordeste de Jerusalém. Esse local havia sido adquirido antes da guerra pelo escritor e jornalista Isaac Goldberg. A vista dominava, de um lado, a cidade velha e Belém, e, de outro, a paisagem do deserto da Judeia. Em 1921, o prêmio Nobel Albert Einstein, entusiasmado com a criação da universidade, acompanhou Weizmann aos Estados Unidos para mobilizar o judaísmo americano em favor do empreendimento. O processo foi, no entanto, atravancado em 1922 pela proposta do coronel Ronald Storrs, governador militar britânico de Jerusalém (1920-1926), de criar uma “universidade palestina” que deveria ter um departamento hebraico e um departamento árabe. Em um contexto marcado pela intensificação dos conflitos entre judeus e árabes, temendo que o caráter judaico da universidade fosse afetado, o presidente do executivo sionista, Menahem Ussishkin, rejeitou essa ideia e apressou a fundação de uma universidade exclusivamente hebraica.
Num primeiro momento, a universidade desenvolveu-se graças à atuação de Yehudah Magnes, que se estabeleceu em Jerusalém em 1923 e se dedicou ao projeto. Hayyim Weizmann ocupava-se, por sua vez, do projeto científico, apoiado por comitês ingleses e americanos. Três pequenos institutos de pesquisa foram abertos nessa etapa: estudos judaicos, química e microbiologia. No mesmo ano, Albert Einstein dirigiu-se ao monte Scopus para proferir uma conferência sobre a teoria da relatividade, a primeira conferência científica realizada na jovem Universidade Hebraica: pronunciou as primeiras frases em hebraico, que deveria ser a língua de ensino. A partir de então, a universidade desenvolver-se-ia em duas direções: por um lado, tornar-se o centro da tradição hebraica, moldada em sua língua de origem e à luz das ciências humanas gerais; por outro, tornar-se um polo de pesquisa em ciências naturais e médicas que contribuiria também para o desenvolvimento de uma agricultura nacional.
A abertura oficial ocorreu em 1º de abril de 1925. No relatório publicado no mesmo ano, pode-se ler:
A cerimônia começou com o coral que cantava o capítulo 19 do livro dos Salmos, “Os céus proclamam a glória de Deus”, numa melodia de Haydn, e “A Torá sairá de Sião”1, acompanhado pela orquestra. Em seguida, o rabino Kook abriu seu discurso lendo uma oração composta especialmente para honrar esse dia. O doutor Weizmann precedeu seu discurso saudando os nobres convidados que tiveram a gentileza de atender ao convite e de vir assistir à cerimônia de abertura da Universidade Hebraica de Jerusalém, e ele próprio traduziu suas palavras para o inglês. O caloroso discurso de Sua Excelência, Sir Herbert Samuel, o Alto-Comissário da Terra de Israel, foi traduzido para o hebraico e para o árabe. Em seguida, Lord Balfour pronunciou o discurso de abertura. Ele concluiu seu discurso histórico declarando: “pela mais alta fé no futuro da Universidade Hebraica em Jerusalém, declaro agora sua abertura”. O poeta hebraico, senhor H. N. Bialik, falou em nome do Yishouv (povoamento) hebraico da Terra de Israel, e em seguida o doutor Hertz, o grão-rabino das comunidades britânicas, recitou uma breve oração. Quando terminou, o coral cantou o capítulo 103 do livro dos Salmos — Aleluia — na melodia de Levandowsky, assim como HaTikvah2.
Hayyim Nahman Bialik, já reconhecido naquele momento como o “poeta nacional” e como um dos principais representantes da corrente da Tehiyah (a “Renascença”)3, havia se instalado definitivamente em Tel Aviv um ano antes. Desde sua chegada, suas atividades culturais e públicas haviam sido numerosas, tanto para o desenvolvimento da literatura hebraica contemporânea quanto para a redescoberta da literatura hebraica medieval. Durante a cerimônia de inauguração da universidade, ele falou em nome do Comitê Nacional dos Judeus da Terra de Israel [הועד הלאומי ליהודי ארץ ישראל], um corpo político fundado em 1920, que representava o ramo executivo da Assembleia dos Eleitos [אסיפת הנבחרים]. A palavra de Bialik foi, portanto, ao mesmo tempo poética e política.
O discurso de Bialik compõe-se de duas partes. Na primeira parte, ele se dirige a um público geral, representando o povo de Israel e seus dirigentes. Na segunda parte, mais curta, dirige-se especificamente ao “sublime representante do grande povo inglês, Lord Balfour”. Cada parte narra a história do povo de Israel a partir de uma perspectiva diferente, e, a partir de cada uma delas, Bialik extrai o sentido do acontecimento, isto é, da abertura de uma universidade judaica nesse tempo e nesse lugar. A primeira parte parece ter como objetivo principal conciliar a ciência moderna, que será praticada na universidade, com as antigas tradições intelectuais judaicas. Ao mesmo tempo em que reconhece a decadência destas últimas, Bialik procura convencer seus ouvintes da necessidade de preservar seus vestígios e de servir-se deles para a concepção das práticas científicas modernas. A segunda parte inscreve a abertura da universidade no projeto sionista após a declaração de Balfour (1917). Bialik compara Balfour a Ciro, o rei persa que decretou o retorno dos judeus a Jerusalém após o exílio babilônico. Ele apresenta o sionismo como a versão atual do acontecimento de que falam os livros bíblicos de Esdras e Neemias — o retorno a Sião, שיבת ציון. A universidade, no discurso de Bialik, passa então a ocupar o lugar do Templo messiânico, de onde se supõe que sairão os princípios morais que guiarão toda a humanidade.
Num registro que é ao mesmo tempo modernista e rabínico, Bialik articula noções e figuras pertencentes a diferentes domínios discursivos. As palavras se entrelaçam na trama da história — o teológico com o poético, o talmúdico com o histórico e o político… Se nenhuma assume a dianteira, há, contudo, uma que dita o sentido do relato — aquela que descreve um povo “pequeno e pobre” desde suas origens, que é hoje “um povo proletário, isto é, um povo que produz com os meios dos outros e para os outros, … [que] aparece então aos outros — por vezes também a si mesmo — sob a imagem do parasita cultural, que nada tem de próprio”. Essa condição do povo judeu é um “erro muito doloroso”, pois se trata de um povo que sempre esteve, como diz Bialik, “do lado da verdade”, “que submeteu seu corpo e sua alma ao reino do espírito, e em vista da eternidade”.
Segundo Bialik, que reflete uma opinião corrente entre os autores judeus da época4, os anos do exílio aprofundaram o investimento dos judeus no reino do espírito e aperfeiçoaram “uma espécie de sexto sentido para tudo o que diz respeito às necessidades do espírito, um sentido fino e muito sutil, o primeiro entre seus órgãos a ser atingido; um sentido comum a quase todos os grandes personagens da nação”. Mas isso foi feito ao preço de renúncia do mundo temporal. Bialik reconhece que “nossas velhas fortalezas espirituais” pertencem agora ao passado: “Apesar de sua força e potência interiores, apesar da quantidade de energia despendida pela nação para sua construção e sua manutenção, elas não souberam resistir ao dia da cólera e, desde então, não tiveram renascimento”. O povo judeu continua a contribuir para a cultura humana, diz ele, mas suas criações “são quase sempre engolidas pela dos outros, não é visível e nunca é registrada em seu crédito”.
A promessa que a universidade carrega, “uma instituição extremamente jovem… [que] é quase apenas um nome”, é enorme. Ao final de suas palavras, Bialik faz alusão a Jesus, um “filho de um carpinteiro hebreu, que levou o anúncio da redenção ao mundo idólatra e abriu o caminho para a era messiânica.” Ele reconhece que essa era não está cumprida, que o anúncio não foi bem difundido nem compreendido, pois ídolos ainda existem, novos ídolos que não são melhores do que os antigos. A Jerusalém celeste anunciada por Jesus ainda não encontrou seu justo ancoramento no mundo daqui de baixo. A causa dessa deficiência, se seguimos Bialik, está ligada à ruptura que a nação israelita foi forçada a assumir entre “a vida temporal” e a “vida do espírito”. O sionismo, do qual a universidade é concebida como o ramo intelectual ou espiritual, é suposto remediar essa ruptura. A universidade velará para que o retorno dos judeus a Sião tenha também uma dimensão espiritual, que represente igualmente a Jerusalém “do alto”. À semelhança da “Casa de Yhwh” da profecia de Isaías (2:2), a universidade levará ao mundo “os princípios morais que sustentam as casas de nossa Torá… [e que] se tornarão a herança de toda a humanidade”.
Para concluir, e uma vez que se trata de um texto no qual Bialik expõe sua visão da universidade e, mais amplamente, do Estado judeu, parece-nos importante assinalar aquilo que ele não vê, ou não quer ver. No discurso de Bialik, não há lugar para os habitantes árabes da terra nem para o seu trabalho. Ele adere a uma ideia que se tornará central na ideologia sionista, segundo a qual, antes da chegada dos jovens pioneiros judeus, a terra de Israel estava destruída e “desolada”, uma terra que necessitava ser curada “da lepra de suas rochas e da podridão de seus pântanos”. Nesses trechos, Bialik parece tomar partido por uma tradição literária principalmente centrada no heroísmo e no ativismo dos pioneiros, quase completamente silenciosa quanto à presença das populações árabes. Tampouco faz alusão a outra tendência da literatura hebraica de seu tempo, centrada nos temas do amor pela terra e pelas paisagens, repleta de admiração, por vezes idealizada, por seus habitantes “indígenas” árabes.
Apresentação e tradução de Davide Mano e Ron Naiweld

O discurso de Hayim Nahman Bialik: “Para a ocasião da inauguração da Universidade Hebraica de Jerusalém” — 1º de abril de 1925.
A sacralidade desta hora augusta nos proíbe de a profanar e de a desviar em palavras excessivas de exaltação. É preciso, portanto, dizer, em voz alta e com toda simplicidade, a todo o público aqui presente, que a casa que acaba de ser aberta sobre o monte Scopus por nosso exímio visitante, Lord Balfour, é uma instituição extremamente jovem; ela quase não é mais que um nome. Por ora, ela é apenas um receptáculo que poderia preencher-se, e cujo futuro permanece ainda dobrado em si mesmo e depende de sua sorte. E, contudo, estou certo de que os milhares de Israel que aqui se reúnem, e com eles as miríades de Israel através do mundo — o coração tremendo de alegria de todos lhes dirá que a festa que hoje celebramos aqui não é invenção de quem quer que seja; ela é um grande dia sagrado para nosso Senhor e nosso Povo. Estou certo de que os olhos das miríades dos milhares de Israel que agora dirigem seu olhar para esta montanha desde todas as diásporas da Golah iluminam-se por clarões de esperança e de consolação, e seu coração e sua carne cantam o agradecimento ao Deus vivo, a bênção [daquele] “que nos manteve em vida e nos fez subsistir até este dia”5.
Todo o mundo o sabe e o sente: Israel acaba de acender sobre o monte Scopus a primeira vela para [marcar] a inauguração da vida de seu espírito. Hoje a notícia alcançará todas as diásporas de Israel: a primeira estaca para a construção da Jerusalém do alto foi fincada e não se moverá mais. Digam o que disserem, esta nação estranha, chamada Israel, confrontada como está, todos os dias, todas as horas, há dois mil anos, aos acontecimentos que visam arrancá-la do mundo e desenraizá-la do ar e dos fundamentos de sua vida — esta nação, digo, submeteu seu corpo e sua alma ao reino do espírito, e isso para a eternidade. Aqui, no reino do espírito, ela se reconhece como um cidadão renovado e investido. Na terra deste mundo, ela fixou seus pés com toda sua força e não se deslocará. Nenhuma das quarenta e nove medidas de impureza que se encontram na penosa Golah a desestabilizou, e nenhuma das quarenta e nove medidas de sofrimento da pobreza debilitante modificou sua qualidade fundamental. Como ela foi forçada a renunciar à vida temporal pela vida eterna [בוותרה מתוך אונס על חיי שעה לשם חיי עולם.], ela aprendeu, durante seus anos de pobreza e de miséria, a submeter as necessidades de seu corpo às necessidades de sua alma, e a inclinar as exigências da matéria às reivindicações do espírito. Nos limites desse reino, a nação israelita criou seus principais recursos e suas instituições nacionais, que a fizeram subsistir na pobreza durante dois mil anos de errância e preservaram sua liberdade interior através do trabalho exterior; foram elas que a mantiveram viva e a fizeram subsistir até esta festa, a celebração da abertura da Universidade sobre o monte Scopus.
Todas as formas da escola nacional — o heder, a yeshivah, o beit-midrash — eram nossas fortalezas extremamente resistentes durante a longa e difícil guerra que conduzimos por nossa existência e por nosso direito de existir no mundo enquanto povo distinto e singular entre os povos. Nos dias tempestuosos e furiosos, refugiávamo-nos entre os muros dessas fortalezas, onde políamos a única arma que permanecia em nossa posse, o cérebro judeu, para que ele não se corroesse. Não se pode impedir de recordar, neste momento, a palavra de um de nossos sábios; não conheço nenhuma que seja mais amarga e triste. O mesmo sábio que, ao chegar ao versículo “E, contudo, mesmo então, quando se encontrarem relegados à terra de seus inimigos, eu não os terei nem desprezado nem rejeitado etc.”6, dizia com amargura: “nem desprezados nem rejeitados — mas o que resta a Israel no exílio que não seja desprezo nem rejeição? Todos os bons dons que lhes foram dados lhes foram depois retirados. Uma única coisa lhes restava — era o livro da Torah. Sem ele, Israel seria semelhante a todas as nações do mundo”7.
O conceito da “Torah” elevou-se aos olhos do povo a uma altura insondável. Na imaginação do povo, a Torah tornou-se quase uma segunda realidade, uma realidade abstrata e superior, que se coloca ao lado, ou mesmo no lugar, da realidade tangível [מציאות ממשית.]. A Torah fixou-se no centro das aspirações e dos desejos ocultos e revelados da nação exilada. A expressão “Israel e a Torah são um” era mais do que uma expressão. O membro de um povo estrangeiro teria dificuldade em compreendê-lo, pois o conteúdo e o sentido nacional do próprio conceito de Torah são uma realidade intraduzível. A Torah, nesse sentido, não é nem uma religião, nem simplesmente uma crença, nem uma moral, nem os mandamentos ou a sabedoria, nem tudo isso reunido, mas um conceito preeminente, muitas vezes superior a tudo isso; um conceito misterioso, que extrai sua força quase do abismo e da altitude do intelecto cósmico8. A Torah é o instrumento do criador do mundo; por ela ele criou o mundo e para ela o mundo foi criado. A Torah precedeu o mundo; ela é a ideia suprema e a alma viva do mundo. Sem ela, não há existência nem direito de existir9. “O estudo da Torah é mais importante do que a construção do Templo”10, “a Torah é mais importante do que o sacerdócio e a realeza”, “não há homem livre senão aquele que se ocupa da Torah”, “a Torah faz crescer e eleva o homem acima de todas as obras”11, “mesmo um idólatra que se ocupa da Torah é como um grande sacerdote”12, e “o bastardo que é discípulo dos sábios precede o grande sacerdote do povo da terra”13.
Essas opiniões e essas visões formaram a nação israelita durante quase setenta gerações; à sua luz ela construiu seus lares precários na diáspora; por causa delas seus membros foram mortos; graças a elas subsistiram. A escola hebraica popular construiu-se por volta da época da destruição [do Segundo Templo] e manteve-se até nossos dias. Essa educação incessante forneceu a Israel uma espécie de sexto sentido para tudo o que toca às necessidades do espírito, um sentido fino e muito sutil, o primeiro entre seus órgãos a ser atingido; um sentido comum a quase todos os grandes personagens da nação. Não há nenhum judeu no mundo que não fique horrorizado diante de um decreto cruel proibindo Israel de se ocupar da Torah. Mesmo o pobre e o despossuído de Israel entregou sua alma ao estudo de seus filhos, despendendo nisso por vezes mais da metade de suas rendas. Antes que o homem judeu reze para suprir suas necessidades materiais, ele pede a seu Deus, dia após dia, “dá-nos de teu saber, compreensão e inteligência”14. E nossas mães castas, ao pronunciar o Nome15 no momento de acender as velas do shabbat, qual era sua primeira prece nesse momento sagrado? “Que seja tua vontade iluminar os olhos de meu filho pela Torah”. E estou certo de que, se Deus tivesse respondido a uma dessas mães sonhadoras, como aconteceu uma vez ao rei Salomão, e lhe tivesse perguntado, na língua das Escrituras, “pede-me o que queres”16, ela lhe teria dado a mesma resposta que Salomão: “Não peço riqueza, nem honra, mas que seja tua vontade, soberano do mundo, permitir a meu filho compreender a Torah e a sabedoria, e saber distinguir o bem e o mal”17.
Senhores, todos vocês sabem o que aconteceu às nossas velhas fortalezas espirituais no exílio durante este último tempo, e este não é o lugar nem a hora de falar disso. Apesar de sua força e de suas potências interiores, apesar da quantidade de energia despendida pela nação para sua construção e sua manutenção, elas não souberam resistir no dia da cólera e, desde então, não tiveram renascimento. No domínio da história, elas todas desmoronaram e foram abaladas até as fundações, e nosso povo ficou exposto sobre suas ruínas, de mãos vazias. Esta é a maldição do exílio e sua tristeza: que a bênção não domina, pois ela não consegue dominar as nossas obras! Assim, colhíamos sempre uma parte ínfima daquilo que havíamos semeado. Os ventos passageiros atingem primeiro as obras de Israel; em um instante, arrancam os frutos do trabalho manual e espiritual de gerações inteiras, sem lhes deixar nem raiz nem ramo.
A partir das provações e dos sofrimentos penosos e amargos, da decepção e das esperanças despedaçadas, das chuvas violentas que caíram sobre nós sem cessar, chegamos muito lentamente a reconhecer que, sem lar real e sem um domínio privado nacional que será inteiramente nosso, nossa vida não é uma vida, nem na matéria, nem no espírito18. Sem a terra de Israel, uma terra propriamente dita, nunca haverá e em lugar algum qualquer perspectiva e qualquer esperança para o renascimento de Israel.
Durante esse período, nossa própria concepção da existência material e nacional evoluiu enormemente. Não pensamos mais que a matéria e o espírito sejam assim divididos e separados, do mesmo modo que não pensamos mais que a figura do judeu e a figura do homem sejam separadas19. Agora, não julgamos mais segundo a opinião da casa de Shamai, de que os céus foram criados antes da terra, nem segundo a casa de Hillel, de que a terra foi criada primeiro, mas segundo os sábios: ambos não são senão um e foram criados na mesma palavra; a realidade e a existência de um dependem da do outro20. Na consciência nacional, o conceito de cultura, no sentido mais geral e humano, tomou o lugar do conceito teológico da Torá. Compreendemos que o povo que quer existir sem vergonha deve criar a cultura e não apenas utilizá-la; deve criá-la verdadeiramente, com suas próprias mãos, ferramentas e matérias, imprimindo nela seu selo.
Quem poderia negar que nosso povo também criou cultura nos países pelos quais estava disperso? Eu me surpreenderia se houvesse, no mundo, algum lugar de criação cultural onde os judeus estivessem totalmente ausentes. No entanto, como a criação do judeu na Golah é quase sempre absorvida pela criação dos outros, ela permanece invisível e jamais é registrada em seu favor. Nossa conta cultural no mundo encontra-se, portanto, inteiramente devedora: um débito sem crédito21. O povo judeu na Golah encontra-se, desse ponto de vista, numa situação de erro profundamente dolorosa: embora esteja do lado da verdade e seja, segundo todos os indícios, no que diz respeito à cultura, um povo do proletariado, isto é, um povo que produz com os meios dos outros e para os outros, ele aparece para estes – e por vezes também para si – sob a imagem do parasita cultural, que nada possui de propriamente seu. Um povo que preza por sua honra jamais poderá aceitar uma situação como essa; um povo assim um dia se levantará e dirá a si mesmo: “Isto é demais para mim. Uma porção bem pequena, mas sólida e inteiramente minha, me é preferível a nove porções estrangeiras, das quais jamais tenho certeza se me correspondem ou não. Prefiro um pedaço de pão seco em minha casa e sobre minha mesa a um novilho cevado na casa e à mesa dos outros. Prefiro uma única e pequena universidade, mas inteiramente destinada a mim e sob minha autoridade, construída integralmente por minhas mãos, dos alicerces ao telhado, a milhares de templos do saber, cujos frutos eu como, mas nos quais minha participação em sua edificação não é reconhecida. Que minhas refeições sejam modestas e amargas como uma azeitona, contanto que eu possa, ao menos uma vez, saborear a doçura e a plenitude do fruto de minhas próprias mãos.”
Impelidos por esse sentimento, fugimos para esta terra. Não viemos para cá em busca de riqueza, poder ou glória. Esta terra, pequena e pobre, poderá ela algum dia nos oferecer tudo isso? Tudo o que almejamos é encontrar nela um lugar que seja nosso, qualquer que seja, para o trabalho de nossas mãos e para nossa obra espiritual. Nós ainda não realizamos aqui grandes feitos; nós ainda não conseguimos lavar a poeira de nossos pés dos inúmeros caminhos percorridos em nossos dias de errância e ainda não conseguimos trocar nossas roupas remendadas. Sem dúvida, muitos anos ainda irão de passar, anos de fadiga e sofrimento, antes que consigamos curar esta terra desolada da lepra de suas rochas e da podridão de seus pântanos. Por enquanto, existe apenas um começo de edificação, mas já nesse primeiro momento sentiu-se a necessidade de erguer uma casa e um teto para a obra espiritual da nação. Tal é a natureza mais antiga dessa nação: ela não consegue viver três dias seguidos sem Torá.
Já neste primeiro momento, temos necessidades culturais que não devem ser reprimidas e sem as quais nos é impossível viver. Além disso, somos também tomados por preocupações duras e profundas, que nos inquietam quanto ao destino cultural de nosso povo nos países de sua dispersão.
Já neste primeiro momento, temos necessidades culturais que não devem ser reprimidas e sem as quais nos é impossível viver. Além disso, somos também tomados por preocupações duras e profundas, que nos inquietam quanto ao destino cultural de nosso povo nos países de sua dispersão. Povos recém-constituídos imaginam22, em sua estupidez, poder matar pela sede espiritual, por meio do numerus clausus, uma nação antiga que traz atrás de si quatro mil anos de Torá. É preciso, portanto, agir depressa e acender aqui, na terra de nossos pais e pátria de nosso espírito, a primeira chama da Torá, da ciência e de toda outra obra espiritual de Israel, antes que a última chama se apague nos países estrangeiros. E é precisamente essa a tarefa que começamos a realizar na casa que hoje abre suas portas no Monte Scopus.
Senhores, há uma antiga lenda judaica segundo a qual, nos dias da redenção, as sinagogas e as casas de estudo da Golah serão arrancadas, com suas próprias fundações, para serem reestabelecidas na terra de Israel. É certo que as palavras dessa lenda jamais poderão cumprir-se plenamente. Esta casa de estudo da Torá e da sabedoria, que acaba de ser fundada no Monte Scopus, será muito diferente, tanto em sua construção material quanto em seu conteúdo e em sua forma, das antigas casas de estudo. Mas, senhores, entre as ruínas dessas casas sagradas ainda há muitas pedras intactas, pedras lavradas, que podem servir de rochas de fundação e de pedras angulares para nosso novo edifício. Que os construtores não rejeitem essas pedras. Neste momento sagrado, eu gostaria de formular uma breve prece: que meu desejo se cumpra e que essas pedras jamais sejam esquecidas! Que meu desejo se cumpra: que sejamos capazes de elevar a sabedoria e a ciência que sairão desta casa à mesma altura moral à qual nosso povo elevou sua Torá. Não seríamos dignos desta celebração se tivéssemos a intenção de copiar servilmente as obras de outros povos. Sabemos que a verdadeira sabedoria é aquela que aprende com cada ser humano23. As janelas e as portas desta casa permanecerão, portanto, abertas aos quatro ventos do céu, para que nela possa entrar tudo o que há de bom e de sublime nas produções do espírito criador da humanidade, em todos os tempos e em todos os países. Entretanto, não somos principiantes no reino do espírito e, ao mesmo tempo em que aprendemos com os outros, também temos algo a ensinar. E estou certo de que chegará o dia em que os princípios morais que sustentam as casas de nossa Torá, como aqueles enunciados na breve e admirável baraita conhecida como o “Capítulo sobre a aquisição da Torá”, se tornarão patrimônio de toda a humanidade.
Senhores, milhares de nossos jovens filhos, ouvindo a voz de seus corações, afluem de todos os cantos do mundo para esta terra, a fim de libertá-la de sua desolação e de sua ruína; estão prontos para oferecer toda a força de seu espírito e de seu coração, para derramar todo o vigor de sua juventude no seio desta terra ressequida, para sua ressurreição. Escavam rochas, drenam pântanos, pavimentam estradas em meio ao canto e à alegria. Esses jovens conseguiram elevar o trabalho simples e rude, o trabalho do corpo, ao grau da mais alta santidade, ao grau da religião. Também entre os muros desta casa, que agora abre suas portas no Monte Scopus, devemos acender esse fogo sagrado. Que uns construam, com o fogo da santidade, a Jerusalém de baixo, e que outros construam a Jerusalém do alto; e que, pela contribuição de ambos, se erga e se funde a casa de nossa vida: “Pois Tu, HaShem, a destruíste pelo fogo, e pelo fogo hás de reconstruí-la.”24
E, para concluir, ainda algumas palavras para o sublime representante do grande povo inglês, Lord Balfour.
“Quem desprezará o dia desses pequenos começos?”25 Sobretudo, é preciso cuidar para não desprezar os pequenos começos em nossa pequena terra, esta terra que recebeu uma virtude singular: a de transformar, ao fim do tempo, o pequeno em grande. Há cerca de quatro mil anos, reuniram-se nesta terra, vindos de Ur da Caldeia, de Aram, do Egito e do deserto da Arábia, numerosos grupos de pastores errantes, dispersos em várias tribos. Deles nasceu, após muitas vicissitudes que poderiam parecer de pouca importância, um povo pequeno e pobre, mesmo para os padrões de sua época: o povo de Israel. Curtos e maus foram os dias desse povo em sua terra. “É um povo que tem sua morada à parte e que não faz parte das nações.”26 No entanto, ele suscitou entre eles homens — na maioria, humildes homens da terra, pastores de rebanhos e gado, camponeses e cultivadores de sicômoros, como tantos de seus irmãos — para trazer em seus corações a tempestade do espírito divino, e em suas bocas os seus trovões e relâmpagos. Esses homens, ao falarem do coletivo e do indivíduo27, e ao fazerem seus discursos incidir sobre os assuntos cotidianos e os problemas supostamente pequenos de seu tempo, ousaram dirigir-se à eternidade, ao céu e à terra; foram eles, enfim, que deram ao mundo a pedra de fundação de sua cultura religiosa e moral. Através de centenas de gerações e acima das cabeças dos povos que subiram e desceram do palco da história, sua voz chegou até nós, até os dias de hoje, e é uma voz poderosa, sábia, cheia de força divina, mais ainda do que em seus primórdios, como se ela se fortalecesse e ganhasse sempre mais potência com o passar do tempo.
Após a declaração de Ciro, algumas dezenas de milhares de exilados babilônicos retornaram a esta terra pobre e árida; formaram uma comunidade pequena e pobre, ainda menor e mais pobre que a primeira. Cerca de seis séculos se passaram, e desta pequena terra surgiu novamente um homem pertencente ao povo de Israel, filho de um carpinteiro hebreu, que levou ao mundo idólatra o anúncio da redenção e abriu o caminho para a era messiânica. Aproximadamente dois mil anos se passaram desde aquele dia, e todos somos hoje testemunhas do fato de que os ídolos ainda não desapareceram completamente desta terra. Sobre antigos ídolos surgiram novos ídolos, que não são melhores que os anteriores.
E eis que chegou a Declaração Balfour. Israel reúne-se novamente em sua terra pela terceira vez. Por que, então, o milagre não se repetiria desta vez? A Providência quis associar o destino de Israel ao destino de todos os povos cultivados do mundo, o que talvez tenha levado estes últimos a ampliar e desenvolver sua responsabilidade pela preservação das conquistas dessa cultura e a preocupar-se com sua posteridade mais do que com a dos outros povos.
Há muitos e muitos anos, essa ideia já havia sido expressa por um de nossos sábios: “O homem deve sempre considerar a si mesmo, assim como o mundo inteiro, como estando em equilíbrio entre a culpa e a absolvição. Assim, se cometer uma transgressão, infeliz dele, pois terá inclinado a si mesmo e ao mundo inteiro para o lado da culpa”28. Quem sabe, talvez aquilo que povos grandes e poderosos não souberam fazer com o alarde de sua riqueza seja realizado pelas mãos de um povo pobre e desprovido, em sua pequena terra. Quem sabe, talvez a Torá do reconhecimento dessa responsabilidade para com o destino de toda a humanidade saia de suas casas de estudo para se espalhar entre todos os povos? Não é por acaso que a mão de Deus colocou esse povo entre os abismos da morte e as angústias atrozes durante quatro mil anos, e o trouxe de volta à sua casa pela terceira vez.
O Livro das Crônicas, o último dos livros sagrados, não é o último da história de Israel: às suas duas pequenas partes virá acrescentar-se, no futuro, uma terceira parte, talvez uma parte maior e mais importante que as anteriores. E, se o início desse mesmo livro diz “Adam, Shet, Enosh” e seu fim é a declaração de Ciro, que trouxe, após seis séculos, o anúncio da redenção aos antigos idólatras, sem dúvida o início da terceira parte será a Declaração Balfour, e seu fim conterá um novo anúncio: o anúncio da redenção de toda a espécie humana29.
Hayyim Nahman Bialik
Tanto a apresentação como a tradução para o francês são de Davide Mano e Ron Naiweld.
Tradução do francês: Breno Benedykt.
- Isaías, 2:3.
↩︎ - Gostaríamos de agradecer a Guila Cooper, da biblioteca da Alliance Israélite Universelle, por sua ajuda na consulta do livro.
↩︎ - O termo Tehiyah (em hebraico, “Renascença”) designa a corrente de renovação da língua e da literatura hebraicas que se desenvolve do final do século XIX até as duas primeiras décadas do século XX, particularmente na Palestina. Entre seus principais representantes, contam-se os poetas Hayyim Nahman Bialik (1873-1934) e Shaul Tchernikovsky (1875-1943), os romancistas Michah Yosef Berdichevsky (1865-1921), Uri Nissan Gnessin (1881-1913) e Yosef Hayyim Brenner (1881-1921), assim como os ensaístas Yosef Klausner (1874-1958) e Yaakov Fichman (1881-1958). Sobre a centralidade de Bialik no seio dessa corrente, ver Ariane Bendavid, Haïm Nahman Bialik. La prière égarée, Bruxelas, Aden, 2008.
↩︎ - Pensamos, em particular, em Sigmund Freud, que diz coisas semelhantes em O homem Moisés e a religião monoteísta (1939).
↩︎ - שהחיינו וקיימנו והגיענו לזמן הזה.
↩︎ - Levítico, 26:44. O fim do versículo: “… eu não os terei nem desprezado nem rejeitado para exterminá-los, desfazer minha aliança com eles, porque eu sou Yhwh seu Deus”.
↩︎ - Este comentário rabínico é extraído de uma coletânea exegética sobre o Levítico, o Sifra ou Torat Kohanim, composta por volta da metade do terceiro século de nossa era.
↩︎ - ההשגה הקסמית.
↩︎ - Bialik faz aqui alusão às ideias que se encontram um pouco por toda parte na literatura rabínica clássica. Ver, particularmente, o primeiro capítulo do Gênesis Rabbah.
↩︎ - TB Megilah 16b.
↩︎ - Do capítulo Kinyan Torah (capítulo sobre a aquisição da Torah), tradicionalmente anexado ao Pirkei Avot (Ética dos Pais).
↩︎ - TB Avodah Zarah 3ª.
↩︎ - Mishnah Horayot 3, 8.
↩︎ - Da quarta bênção da Oração das Dezoito Bênçãos, recitada três vezes ao dia.
↩︎ - Ha-shem, השם.
↩︎ - 1 Rois, 3:1.
↩︎ - Basé sur 1 Rois, 3:9 et 3:13.
↩︎ - ארץ פשוטה כמשמעה.
↩︎ - אין אנו גורסים כלל חלוקה ופרוד זה בין חומר לרוח, כמו שאין אנו גורסים אותו בין יהודי לאדם.
↩︎ - Voir Genèse Rabbah 1.
↩︎ - דביט בלי קרדיט
↩︎ - עממים בני תמול שלשום
↩︎ - Referência – Pirkei Avot 4:1 [N. T.]
↩︎ - Citação do Naḥem (נחם), a oração acrescentada à Amidá de Tishá BeAv.
↩︎ - Zacarias 4,10. Profecia pronunciada após a construção do Segundo Templo de Jerusalém, em referência às suas dimensões modestas em comparação com o Primeiro Templo.
↩︎ - Números 23:9.
↩︎ - בדברם על גוי ואדם
↩︎ - Cf. Talmud Babilônico, Qidushin 40b
↩︎ - Enosh (o terceiro nome do primeiro versículo do Livro das Crônicas citado acima por Bialik) significa “humano” em hebraico; daí a conclusão.
↩︎