“No momento em que houve um caminho político para derrotar o Hamas e libertar os reféns, a guerra se tornou injusta”
Entrevista com Michael Walzer
O renomado filósofo norte-americano Michael Walzer, que defendeu sem restrições o direito de Israel à retaliação aos ataques do Hamas de 07 de outubro de 2023 (ver entrevista de outubro de 2023 à revista K), agora examina em retrospecto como a guerra se desenrolou em Gaza. Ele analisa como, na sua visão, ela se tornou injusta e ameaça o futuro mesmo de Israel. Nessa entrevista concedida ao Haaretz (realizada em janeiro, antes das operações “Leão rugindo” e “Fúria épica”), o especialista em ética de guerra - cujo maior orgulho, ele diz, é ter quatro netos judeus - clama por um exame de consciência israelense.
Na primavera de 1967, o jovem filósofo Michael Walzer viajou através dos Estados Unidos manifestando-se veementemente contrário à guerra do Vietnã, sempre que alguém se dispusesse a escutá-lo. Então eclodiu a guerra dos seis dias – e o professor de Harvard defendeu o contra-ataque israelense com a mesma veemência.
Da guerra do Vietnã à teoria das guerras justas
“Algumas pessoas pensaram que era incoerente”, ele recorda, “e eu queria explicar que há guerras justas e injustas. Mas descobri que há pouca literatura disponível a respeito. Os últimos a terem lidado com a questão foram filósofos cristãos medievais e suas teorias eram ensinadas apenas em universidades católicas”.
Walzer começou a trabalhar em uma teoria secular que examine quando as guerras são justificáveis ou não. Essa decisão mudou sua vida e o tornou um dos mais influentes pensadores políticos dos últimos 50 anos, e uma autoridade mundial em ética de guerra.
“Eu trabalhei no tema [da guerra] por 10 anos”, ele diz ao Haaretz em uma maratona de três horas de conversa durante uma visita a Israel. Ele leu, recorda, incontáveis textos de filosofia católica e história militar e, para aprofundar sua compreensão, entrevistou diversos soldados. “Eu abordei o campo mesmo nunca tendo servido o exército”, ele explica em tom um tanto apologético. “Eu era muito jovem para a Coreia e velho demais para o Vietnã”.
Seu livro “Guerras justas e injustas” foi publicado em 1977. “Eu era um jovem esquerdista”, ele diz, “e para a minha surpresa, em poucos meses de publicado o livro foi acrescentado à lista de leituras obrigatórias da academia do exército estadunidense em West Point. Desde então eles me convidaram para lá várias vezes”.
Não era evidente que um livro acadêmico de filosofia fosse angariar tamanha influência.
“[O filósofo Ludwig] Wittgenstein disse certa vez que a filosofia não faz com que coisa alguma aconteça, e ele tinha razão. Mas o meu argumento sobre guerras justas se tornou parte de regras internacionais, e também influenciou como os soldados pensam. Há oficiais no exército estadunidense que me contaram terem levado consigo o meu livro para o Iraque”.
Jus ad Bellum: a legitimidade de se ir à guerra
Você pode explicar, resumidamente, o que torna uma guerra justa?
“O ponto mais importante é a autodefesa. Esse é o princípio básico que justifica ir à guerra. A isso pode-se acrescentar a intervenção para conter um massacre. Por exemplo, quando os vietnamitas invadiram o Camboja para conter o Khmer Vermelho, aquilo foi justificado. Uma distinção importante é aquela entre guerras preventivas e guerras preemptivas. As primeiras são quando se inicia uma guerra porque se acredita que um ataque deve ocorrer, essas são, portanto, mais especulativas. As segundas são quando um ataque está prestes a ocorrer, sem dúvidas, e aí ataca-se primeiro. Foi o que aconteceu em 1967.”
Segundo seus princípios, a guerra contra o Hamas foi justa?
“É preciso recordar que a guerra foi também contra o eixo iraniano de resistência. Para a maioria dos israelenses, o foco da guerra era Gaza, mas era uma guerra de múltiplos fronts, que incluiu um ataque ao Irã. E isso era justificado porque o Irã era parte de um ataque conjunto a Israel. Israel teve sorte de que o ataque não foi coordenado, talvez porque o Hamas temesse o vazamento de informações. Se tivesse vindo simultaneamente de três direções, com armas providas pelo Irã, teria sido muito perigoso para Israel. E é importante que nos lembremos disso.”
Como alguém que estuda guerra e moralidade, posso dizer que no momento em que houve um caminho político para derrotar o Hamas e libertar os reféns, a guerra tornou-se injusta.
Sem qualquer surpresa, Walzer afirma categoricamente que a guerra iniciada por Israel depois dos ataques de 07 de outubro foi inteiramente justa. “Qualquer país do mundo teria ido à guerra depois de um ataque como aquele”, ele diz. Mas à medida que o tempo passou, questões começaram a surgir. “Há uma importante distinção ética entre a justificativa para se ir à guerra – chamada em latim jus ad bellum – e a justificativa moral acerca de como uma guerra é conduzida – jus in bello. Ir à guerra foi justo; posteriormente, as coisas ficaram complicadas”.
Jus in bello: a condução da guerra posta à prova
Walzer mede cuidadosamente as palavras. “Presumo que as forças de defesa de Israel lutaram de maneira justa no início da guerra”, ele diz. “Mas não é fácil combater uma milícia que se esconde entre a sua população e utiliza escudos humanos. As regras estabelecidas [internacionalmente] determinam que, uma vez identificado um alvo militar, a parte atacante deve ponderar acerca da importância desse alvo e do número de civis que podem ser prejudicados, e então determinar se a significância desse alvo justifica a mortandade daquele número”.
Existe um índice aceitável?
“Não, porque essa razão depende da determinação da importância do alvo. Portanto, é bastante problemático. Ainda assim, exércitos tendem a criar regras acerca de índices justificáveis de letalidade. Em operações anteriores em Gaza, havia esse índice, e segundo a cobertura jornalística, oficiais de alto-escalão israelenses afirmaram que, na guerra atual, esse índice foi alterado para compreender mais mortes de civis. É difícil para mim dizer qualquer coisa de precisa acerca desse assunto, vivendo em Nova York, mas parece que nos bombardeios nos estágios finais da guerra nenhuma avaliação estava sendo feita.”
“O que as pessoas viram na televisão norte-americana, por exemplo, foram edifícios de seis a sete pavimentos colapsando completamente após um bombardeio. Então, um porta-voz das forças de defesa de Israel (IDF) aparecia e afirmava que havia um posto de observação do Hamas no telhado. Qualquer um que tenha visto isso pensou: isso não justifica a destruição de 40 apartamentos. Os ataques, assim, pareciam desproporcionais, como se almejassem tornar Gaza inabitável.”
Concomitantemente ao seu questionamento da conduta israelense, Walzer frisa que o uso de civis pelo Hamas em Gaza é sem precedentes. Ele explica que uma das questões centrais na ética de guerra concerne ao grau de risco que os soldados devem aceitar para minimizar danos civis.
“Quando se conversa com soldados, eles frequentemente falam sobre assumir um certo grau de risco para reduzir mortes de civis. Mas em Gaza houve um duplo uso da população civil, algo nunca antes visto. Primeiro o Hamas integrou seus homens à essa população de civis – dentro de hospitais, escolas e apartamentos residenciais. Mas, além disso, havia ainda uma cidade subterrânea. Eu sei que chamamo-los túneis, mas era, na verdade, uma cidade.”
“Há três andares, alguns com ventilação que requer bombeamento e eletricidade, e tudo isso protegido pela cidade acima. Eu nunca encontrei nada assim em toda história militar. Esse é um novo tipo de guerra e é difícil para mim determinar quais são as regras e quais os riscos que soldados deveriam aceitar”.
O Hamas essencialmente planejou um ataque ao qual Israel não podia responder sem matar civis, destruir casas e desalojar pessoas.
“Em um tal caso, aqueles que carregam as maiores responsabilidades são, muitas vezes, não os generais ou assessores jurídicos que autorizam ataques, mas as pessoas [soldados] diretamente em solo”.
“Em exércitos diferentes, em momentos diferentes, muitos soldados tentaram lutar segundo princípios morais, e o mais importante são os oficiais em solo”, diz Walzer. “Algumas unidades lutam bem e outras, barbaramente, e muita coisa depende dos oficiais subalternos. Não somente da sua moralidade, aliás, mas também da sua cabeça-fria. No Vietnã, por exemplo, quando ocorriam massacres indiscriminados, isso frequentemente era resultado do pânico de jovens oficiais. Eu conversei com um oficial israelense cuja unidade, em uma operação anterior em Gaza, era responsável por procurar entradas de túneis. Ele me contou que essas entradas são comumente guardadas por algum tipo de armadilha ou emboscada, e ele me disse: se o comandante [da operação] for sensato e mantiver a calma, ele consegue retirar seus homens das armadilhas sem recorrer à ajuda de artilharia ou da força aérea, que via-de-regra causam mais mortes de civis”.
Mas a maior armadilha nessa guerra não foi para as unidades em campo, mas para toda a IDF e para Israel como um todo. “O Hamas essencialmente planejou um ataque ao qual Israel não podia responder sem matar civis, destruir casas e desalojar pessoas”, diz Walzer. “Esse é um traço comum de guerras assimétricas – aquelas entre um exército de alta tecnologia e uma organização [paramilitar] de baixa. A organização se esconde entre civis e o exército acaba matando muitos deles. Houve uma série de guerras assimétricas, começando pela guerra da França na Algéria. Todas elas foram desastres [humanitários]”.
A armadilha da guerra assimétrica
“O exército causa a maioria das mortes e perde a guerra, a não ser que destrua a população, como a Rússia fez na Chechênia e o Sri-Lanka contra os Tamil”, ele continua. “Mas só se pode fazer isso se ninguém se importar. Os franceses, os estadunidenses, os israelenses – eles não podem agir assim, porque o mundo está de olho. O Hamas foi particularmente eficaz em infiltrar-se na população civil e as suas mortes e destruição faziam parte do seu plano. Israel não teve escolha senão seguir armadilha adentro – mas quando se entra numa armadilha, deve-se avaliar cuidadosamente como sair dela. Pode-se alterar a armadilha através de política e diplomacia, como foi recomendado por agentes das próprias IDF e da administração estadunidense, ou pode-se abrir caminho para fora à força, que foi a escolha do governo israelense.”
É assim que você entende as escolhas da liderança israelense?
“O trauma de sete de outubro criou uma resposta retórica enlouquecida, clamando por vingança e morticínio indiscriminados. Figuras de proa da política israelense deram declarações acerca de não haver civis inocentes, sobre como todos deveriam ser eliminados. O choque e o trauma do ataque criaram uma retórica que será usada contra Israel em toda e qualquer discussão futura sobre a condução da guerra e acerca de se houve ou não genocídio.”
Essas reações também refletiram no campo de batalha, diz Walzer. “Elas levaram a problemas morais que deveriam ter sido tratados e não foram. Nas redes sociais apareceram vídeos horríveis de soldados comemorando os crimes de guerra que cometeram. Sem dúvidas trata-se de uma minoria, mas isso ilustra uma quebra de disciplina no exército. Ao mesmo tempo, a violência de colonos aumentou ao ponto de” – ele hesita – “pogroms, com a polícia e o exército assistindo de longe. Houve também relatos credíveis de abuso de detentos. A recusa em dar acesso à Cruz Vermelha foi reprovável, mesmo que tenha partido do desejo de pressionar o Hamas a permitir visitas aos reféns.”
O mais grave problema ético, ele argumenta, foi o cerco imposto a Gaza. Aqui, também, ele sustenta uma posição ponderada, porém firme.
“Foi um cerco parcial, com pausas, mas ainda assim foi uma parte significativa da ofensiva militar israelense, e pode ser o aspecto mais crítico na discussão acerca da justificação da guerra – qual responsabilidade tem Israel pela situação médica e nutricional dos residentes de Gaza. Depois dos ataques de sete de outubro, muitos israelenses, e muitos judeus ao redor do mundo, acreditavam que essa responsabilidade não existia, dadas as celebrações do ataque em Gaza. Mas isso foi um erro.”
Os líderes do Hamas queriam matar judeus, mas também queriam que judeus matassem palestinos. O morticínio generalizado em Gaza fazia parte da sua estratégia. Portanto, o cerco foi um erro político.
Por que foi um erro pensar assim? Afinal, cabe ao Hamas a responsabilidade pelos cidadãos de Gaza.
“Pense na estrutura de um cerco: cerca-se uma cidade e se bloqueiam os recursos, então se espera. Os cidadãos tornam-se famélicos, pressionam suas lideranças e, historicamente, isso levou líderes a aceitar negociar e até render-se. Essa narrativa, porém, parte do pressuposto de uma ligação moral ou política entre as lideranças e seus cidadãos. Essa relação não existe entre o Hamas e os cidadãos de Gaza, e os decisores em Israel sabiam disso.”
“Essa é uma das razões principais pelas quais o Hamas tem sido tão amplamente condenado. Suas lideranças queriam matar judeus, mas também queriam que os judeus matassem palestinos. O morticínio generalizado em Gaza fazia parte da sua estratégia. Portanto, o cerco
foi um erro político, e mais seriamente, foi moralmente condenável. Não pode ser descrito como tendo valor militar.”
O cerco: um erro político, uma falha moral
Porém se os líderes de Gaza não se importam com seus cidadãos, por que deveria Israel?
“Por estranho que possa parecer, em uma guerra assimétrica o bem-estar da população civil é responsabilidade do exército de alta tecnologia. Em primeiro lugar porque mortes de civis são um trunfo para o lado adversário. Ainda que o Hamas roubasse combustível e mantimentos em benefício próprio, ganhou mais com a destruição criada pelo cerco. Um alto-comandante estadunidense no Afeganistão uma vez disse: quanto mais civis matamos, mais propensos estamos a perder a guerra.”
“Essa é uma consideração estratégica. Mas outra consideração é que quem quer que cause destruição, deve cuidar das vítimas indefesas e inocentes do outro lado. E Israel não o fez. Israel pretendia que não houvesse alívio do sofrimento até que viesse uma “vitória total” – uma vitória que não era possível e na qual ninguém, inclusive dentro das IDF, acreditava realmente.”
Walzer, que nasceu no Bronx em Nova York, tem há muito sido considerado um amigo inequívoco de Israel. Em sete de outubro ele reagiu com choque e furor, convencido de que uma resposta militar severa era justificada e essencial. Ele o disse ao Haaretz em novembro de 2023.
“Desde o início da guerra eu enfatizei a responsabilidade do Hamas – não apenas pelo ataque de sete de outubro”, ele diz agora. “Houve pessoas nos Estados Unidos que condenaram o ataque e então escreveram sobre a guerra como se o Hamas não fizesse parte dela e somente as forças de defesa de Israel estivessem em campo.”
O esforço pela vitória quando não havia jeito de vencer sem destruir Gaza foi um empenho criminoso. Guerras são por vezes necessárias, mas elas devem ter um fim e um objetivo.
Houve algum momento em particular no qual a sua visão da guerra mudou?
“Quando Joe Biden e seus assessores disseram ao primeiro-ministro Netanyahu: você já causou dano suficiente, agora pode continuar o esforço contra o Hamas diplomaticamente. Como alguém que estuda guerra e moralidade, posso dizer que no momento em que houve um caminho político para derrotar o Hamas e libertar os reféns, a guerra tornou-se injusta.”
“O esforço pela vitória quando não havia jeito de vencer sem destruir Gaza foi um empenho criminoso. Guerras são por vezes necessárias, mas elas devem ter um fim e um objetivo. O seu governo se recusou a se comprometer com qualquer fim ou objetivo exceto a conquista da faixa e a expulsão de todos ou a maioria dos seus cidadãos.”
“Eu falo agora como um estadunidense que votou em Joe Biden e o admira. Em oito de outubro, com clareza mental e moral, Biden ficou ao lado de Israel e dos judeus como nenhum político estadunidense antes esteve. Ele enviou porta-aviões e formou uma coalizão para proteger Israel de mísseis. E ele tinha um plano para terminar a guerra – pelo menos um ano antes de Donald Trump copiar o mesmo plano. Claro que o plano de Biden não era perfeito, e nem o de Trump. Ambos envolvem riscos.”
Walzer chegou a Israel a convite do Instituto Van Leer de Jerusalém e da Academia de Ciências e Humanidades de Israel, que organizaram conferências em comemoração ao seu nonagésimo aniversário. O saguão do Instituto Van Leer estava quase completamente lotado. Na audiência podia-se ver o anterior presidente da suprema corte, Aharon Barak, o anterior ministro, Dan Meridor, e a nata da filosofia israelense. Até mesmo uma pequena delegação de advogados do Ministério das Relações Exteriores compareceu para melhor compreender a situação do ponto de vista de um grande expert. É de algum modo reconfortante saber que ainda há quem se importe, mesmo que os advogados tenham observado que vieram por iniciativa própria.
A historiadora e escritora Fania Oz-Salzberger descreveu Walzer em um discurso comovente como “a última figura de referência remanescente no campo liberal local”. “Não há mais figuras assim em Israel”, a professora observa, “após as mortes do anterior primeiro-ministro Yitzhak Rabin e de ícones da esquerda como Yossi Sarid e Shulamit Aloni (no nosso campo não há restrições de gênero à figuração tutelar, tomara que não)”, e os escritores A. B. Yehoshua e Amós Oz. Nas suas observações, a professora Yael Sternhell apontou que a esquerda vem se tornando uma espécie ameaçada em Israel – ainda que não naquele saguão naquela noite. Por um curto momento no Instituto Van Leer, era possível imaginar que a ética de guerra ainda fosse um assunto importante em Israel. Além de Walzer, Kant e Aristóteles, os palestrantes também citaram reportagens de jornalistas do Haaretz, de Sheren Falah Saab e de Nir Hasson.
Na recepção anterior à conferência de Walzer, uma longa fila se formou na modesta mesa de aperitivos. Ninguém empurrava. Mesmo a esposa do convidado de honra, Judith Borodovko Walzer, aguardava pacientemente. Sobre um prato de bolachas de sal e pasta de tomate seco, filósofos grisalhos lamentavam-se comigo as recordações de dias melhores. Um deles recontou como uma vez disse a Walzer, arrependido, que não havia sido aceito em Princeton para o doutorado. Ao que Walzer respondeu: “para quê você precisa de Princeton? Eles são muito refinados, muito comportados. Vá para Harvard!” (ele próprio ensinou em Harvard por 14 anos antes de mudar-se para o Instituto de Estudos Avançados de Princeton, de onde é hoje professor emérito).
Quem quer que cause destruição deve cuidar das vítimas indefesas e inocentes do outro lado. E Israel não o fez. Israel pretendia que não houvesse alívio do sofrimento até que viesse uma “vitória total” – uma vitória que não era possível e na qual ninguém, incluindo dentro das IDF, acreditava realmente.
“Eu admiro a sociedade civil israelense que foi às ruas e pediu a libertação dos reféns e o fim da guerra”, disse Walzer sob os aplausos da platéia. “Eu quero pensar que se eu estivesse aqui, me juntaria. Eu admiro aqueles que vão aos territórios [ocupados] para proteger palestinos de agressores.”
“Mas a guerra”, ele diz, “foi uma produção conjunta”, e os cidadãos “precisam reconhecer sua parcela de responsabilidade pelas destruição e morticínio em Gaza. Claro, também há espaço para reconhecer a coragem dos soldados diante das vicissitudes da guerra. Há lugar para orgulho, mas também para culpa a respeito das injustiças cometidas em nossos nomes. Haverá uma resposta internacional que será provavelmente unilateral e injusta. Portanto é essencial para o futuro de Israel que vocês conduzam seus próprios exames de consciência”, ele conclui, com ar suplicante. “Por favor, façam-no corretamente”.
A entrevista com Walzer ocorreu alguns dias depois da conferência, no lobby espaçoso do hotel no qual ele estava hospedado em Tel-Aviv. Através das amplas janelas, a praia estava animada, mesmo no início de dezembro. “Eu trabalhei nesse discurso durante um mês”, ele disse. “Eu o escrevi e reescrevi de novo e de novo. Eu sequer podia dormir à noite. O que posso dizer, de Nova York, daquilo que está acontecendo aqui?”.
O paradoxo da libertação: quando o secularismo dá origem ao fundamentalismo
Algumas vezes – para citar um conhecido ditado israelense – o que se vê daqui não é o que se enxerga de lá. Walzer escreveu 27 livros e mais de 300 artigos. Um dos seus livros se tornou especialmente relevante nesses dias, “O Paradoxo da Libertação” (2015, sem tradução). Um dos fenômenos políticos mais proeminentes em décadas recentes é aquele de povos oprimidos que, uma vez que se tornam independentes por atos de modernização e democratização, após um período de prosperidade – mais ou menos curto – abandonam a democracia e o secularismo e enveredam por vias religiosas e anti-democráticas. No seu livro, Walzer tenta compreender as razões desse processo.
Sua explicação é que, apesar dos movimentos de libertação terem lutado contra ocupantes europeus, seus líderes provinham de educações ocidentais – figuras seculares que buscavam estabelecer regimes democráticos. Ao mesmo tempo, as pessoas que procuravam libertar eram populações tradicionais e flagrantemente não-europeizadas. Com o tempo, a recém-independente população votaria democraticamente em partidos religiosos,
marginalizando aqueles que fundaram o Estado e retratando-os como elites traidoras e desconectadas do espírito do povo.
No livro, Walzer foca na guinada de libertação secular a fundamentalismo religioso – um processo que aconteceu em Israel, na Índia e na Algéria. “O argumento do livro é que os libertadores estavam comprometidos com duas lutas – contra os poderes coloniais e contra o tradicionalismo de suas próprias sociedades”, ele explica. “[Jawaharlal] Nehru lutava contra o império britânico e o sistema de castas. O FLN (Frente de Libertação Nacional) marxista na Algéria lutava contra os franceses e contra o islã. E o sionismo buscava tanto a independência nacional quanto a rejeição à idéia da diáspora, ou seja, efetivamente, por uma rejeição do judaísmo como havia sido por 2 mil anos”.
A reação religiosa contra a libertação nacional secular teria acontecido de qualquer maneira, mas Netanyahu desempenhou um papel fundamental no seu sucesso político.
Esse é o paradoxo da libertação, segundo Walzer: a libertação não é somente o jugo do conquistador colonial, mas também de antigas concepções de si – e as duas coisas não coexistem. Embora a libertação nacional seja alcançada, a libertação secular não apenas falha, como leva a um fundamentalismo ainda mais extremo do que aquele anterior à independência, precisamente por causa do acosso violento aos fundamentos tradicionais e religiosos do povo.
Como as lideranças sionistas temporãs deveriam ter agido?
“Aparentemente não havia alternativa senão rejeitar aspectos importantes da vida na diáspora, mas a rejeição foi muito extrema. Por mais de 2 mil anos, a existência na diáspora de alguma forma preservou a vida nacional [judaica] sem território ou soberania. Isso é um feito que deveria ter sido respeitado e incorporado ao movimento sionista. Bialik, por exemplo, criou uma série de histórias de midrash. Em retrospecto, deveria ter havido reconhecimento do valor da cultura diaspórica. Teria ajudado com a imigração Mizrahi, que era mais tradicionalista. Mas admito que isso não teria sido simples de se fazer”.
Uma crítica ao seu livro é que a teoria que apresenta não é universal, e que em países cristãos essa independência adquirida não levou a inversão alguma. Você acha que há algo no judaísmo que favoreça a direção do extremismo?
“Na França após a revolução houve uma reação católica. O mesmo aconteceu na Alemanha – houve o iluminismo e então o extremismo. Mas pode ser que o protestantismo seja mais aberto a governos liberais que o catolicismo, o islã e o judaísmo. Aqueles que reclamam para si uma conexão direta com o divino são os mais perigosos, enquanto o protestantismo, através da história, teve tendência a fracionar-se em diversos grupos pequenos. Aliás, também o judaísmo o fez, tendo se tornado uma religião com diversas correntes – os haredi, reformistas e conservadores. Essa fragmentação trabalhou a favor do judaísmo”.
Aparentemente, na década que se seguiu à publicação do “O paradoxo da Libertação”, a situação não melhorou nos países analisados.
“Correto. Na Algéria, o FLN, em oposição ao fanatismo islâmico, instaurou um regime militar autoritário, contrariamente ao que as lideranças no movimento nacional de libertação buscavam. Na Índia, o poder do nacionalismo hindu fortaleceu-se sempre mais. E em Israel, há cada vez mais um regime mais à direita e mais religioso, em parte porque Netanyahu trouxe os extremistas para dentro do seu gabinete.”
Há graus de mácula. Um bom líder tentará minimizar a corrupção e as mentiras com as quais irá se envolver para se eleger. Uma vez eu almocei na casa de Golda Meir, quando ela era primeira-ministra. Ela tinha ambições políticas, mas não econômicas.
Talvez Netanyahu não seja responsável pelo processo que, de acordo com o seu livro, teria acontecido de qualquer maneira, assim como em outros países.
“Eu acredito que para o estado de Israel, Netanyahu é um péssimo líder. Primeiro por causa da sua incitação contra Rabin e a oposição favorável ao fim da ocupação e à coexistência com os palestinos. Ele sabotou sistematicamente todos os esforços nessa direção. Ele aprovou e financiou os assentamentos e formou coalizões com figuras muito extremistas, tanto nacionalistas, quanto religiosas. A reação religiosa contra a libertação nacional secular teria acontecido de qualquer maneira, mas Netanyahu desempenhou um papel fundamental no seu sucesso político.”
O que você acha do julgamento de Netanyahu? Em um outro artigo seu, “O problema das mãos sujas” (1973, sem tradução), o senhor argumenta que não se pode liderar sem se sujar.
“Se você lidera pessoas, tem de sujar as mãos. Mesmo um líder que queira melhorar as condições dos pobres ou criar um melhor sistema de saúde pública não vencerá eleições sem bradar em comícios todo tipo de bobagens que, ele sabe, não será capaz de cumprir. É assim que a democracia funciona, e devemos entender que não existem lideranças políticas de mãos limpas. Ninguém pode se dar ao luxo de ser purista na política democrática. Lideranças são, necessariamente, falhas, mas ainda assim, queremos que os líderes o sejam o menos possível.”
Como é um líder falho, mas apenas um pouco?
“Há graus de mácula. Um bom líder tentará minimizar a corrupção e as mentiras com as quais irá se envolver para se eleger. George Washington, por exemplo, foi um bom líder. Havia republicanos que não desejavam que as massas governassem e propuseram dar grandes poderes à presidência. Washington recusou e, depois de dois mandatos, voltou para a sua fazenda. Um bom político não usa seus mandatos para acumular riqueza pessoal.”
“Uma vez eu almocei na casa de Golda Meir quando ela era primeira-ministra. Era um apartamento pequeno, muito simples, como aquele em que eu havia crescido no Bronx quando não tínhamos dinheiro algum. Ela me serviu o almoço em uma cozinha estreita. Ela buscava o poder, e não a riqueza. [Menachem] Begin era assim também.”
A separação entre os poderes político e econômico está no centro do importante livro de Walzer “Esferas da Justiça” (1983), que propõe uma teoria da igualdade social.
Igualdade complexa e a corrupção do poder
“Houve, durante um certo tempo, a noção de que a igualdade deveria ser absoluta – que todos deveriam ganhar o mesmo, de que não deveria haver heranças, de que não deveria haver ricos ou pobres na sociedade”, ele explica. “Todavia, parecia-me que para tanto se teria de empregar uma repressão excessivamente forte. Portanto, propus uma teoria da igualdade complexa”.
O que quer dizer igualdade complexa?
“É a ideia de que está tudo bem em haver desigualdade na sociedade, contanto que ela seja restrita a certas esferas específicas. Não se pede, por exemplo, que todos os escritores recebam as mesmas críticas e vendam o mesmo número de exemplares. O mesmo acontece na esfera do poder – sempre haverá alguém que ganha eleições e alguém que não. A desigualdade é inevitável, mas queremos restringi-la, de tal maneira que a desigualdade em uma esfera da vida não afete as demais.”
Se você olhar a história como um todo, eu acho que os Estados Unidos, mesmo hoje, é um dos melhores lugares para um judeu viver.
“Nós não queremos, por exemplo, que alguém que vence eleições – o que quer dizer que é alguém forte na esfera do poder – possa também mandar seus filhos para escolas melhores que as demais pessoas, o que quer dizer que também será uma pessoa forte em educação. O mesmo vale para a riqueza. Está tudo bem se alguém ganha mais dinheiro que os outros, mas o dinheiro deveria servir apenas para comprar aquilo que o dinheiro deve poder comprar – por exemplo, férias caras ou jóias. Isso não deveria possibilitar desigualdade em outras esferas, como no sistema de saúde, na educação ou no poder. Um sistema assim limitaria a desigualdade.”
Isso soa muito razoável, mas muito distante da nossa situação atual. Há alguma sociedade aproximando-se da concretização dessa idéia?
“Eu estive recentemente em um painel com um social-democrata sueco. Ele disse que eles estão perto de algo parecido com isso.”
Essa é a quadragésima sexta visita de Walzer a Israel, ele diz, com orgulho indisfarçado. A primeira foi em 1957.
“Eu tinha 21 anos. Judith e eu havíamos acabado de nos casar”, ele recorda. “Eu estava estudando em Cambridge e nós dirigimos pela Europa até o Pireu. Lá nós embarcamos em um navio para Israel. Nós éramos os únicos passageiros pagantes, porque era um navio de refugiados. Levava para Israel refugiados judeus que fugiram do Egito após a campanha do Sinai, e refugiados judeus fugidos da Polônia, uma vez que, naquele ano, o regime local havia tornado o sistema educacional católico. Os egípcios eram burgueses, tradicionais, e os poloneses, comunistas ateus.”
“Nós fizemos amizade com um senhor polonês e com o seu filho. Quando ele viu os judeus egípcios rezando, ele disse para o seu filho: eu achava que os judeus eram pessoas que não rezavam. Quando vimos o monte Carmelo, um dos poloneses começou a cantar Hatikva. Naquele momento eu me tornei sionista.”
Apesar do seu sionismo e de visitas frequentes a Israel, Walzer permaneceu nos Estados Unidos. Ele se vê como um judeu secular, mas vai à sinagoga todo shabbat. “Eu preciso da companhia de outros judeus”, ele explica. “Eles riem das minhas piadas e partilham das minhas ansiedades.”
Olhando em retrospectiva a vida, do que você se orgulha mais? – “De ter netos judeus. Todos os quatro!”
Parece que judeus americanos, hoje, têm bons motivos para ter ansiedade.
“Se você olhar a história como um todo, eu acho que os Estados Unidos, mesmo hoje, é um dos melhores lugares para um judeu viver. Judeus tiveram sucesso nos EUA em nível extraordinário. O mundo acadêmico estadunidense nos anos 1960 era judaico, a indústria do entretenimento era judaica, a música popular era judaica. Isso está mudando agora, sobretudo por causa da imigração.”
Você não vê um aumento do antissemitismo?
“Sempre houve antissemitismo. Na minha infância, meus pais se mudaram de Nova York para uma pequena cidade na Pensilvânia, e os clubes de golfe e de campo, lá, não admitiam negros nem judeus. Contudo, pessoalmente nunca experimentei antissemitismo. No ensino médio havia 75 jovens na sala de aula, somente cinco judeus, e eu fui escolhido presidente do conselho estudantil. E no mundo acadêmico dos anos 1960 era até uma vantagem ser judeu. É verdade que nós chamamos atenção. Em 1980, em Jerusalém, eu conheci um jornalista
francês. Ele me contou que a posição mais importante no jornalismo francês, à época, era ser correspondente em Jerusalém. Há algo louco em tudo isso.”
Na última eleição nova-iorquina, Walzer votou em Zohran Mamdani. “Ele é um bom social-democrata e um antissionista com o qual pessoas como eu vão ter de debater”, ele diz. “A campanha da direita judaica contra ele foi histérica. Falavam de pogroms nas ruas de Nova York caso ele vencesse. E qual foi a primeira coisa que ele fez? Nomear uma mulher judia chefe de polícia”.
Após a maratona de entrevista com Walzer, seu genro me convidou para me juntar à família à mesa. Sobre um prato de húmus de hotel superfaturado, Walzer me disse que está escrevendo agora as suas memórias.
Olhando em retrospectiva a vida, do que você se orgulha mais?
“De ter netos judeus. Todos os quatro!”
Que futuro o senhor vê para eles?
“A situação política dos EUA não parece boa, mas devemos sempre ter em mente que as coisas podem mudar. Eu penso sempre sobre algumas das mudanças políticas que eu vi na minha vida, como a queda do nazismo e aquela da União Soviética. Na política devemos sempre estar prontos para sermos surpreendidos. Eu talvez não viva para ver a mudança, mas ela virá.”
Essa entrevista com Michael Walzer saiu no Haaretz em janeiro de 2026, antes da guerra contra o Irã.
Tradutor : André Vaillant