Uma viagem aos judeus
“Em 1924, o escritor judeu-alemão Alfred Döblin viajou à Polônia com um objetivo singular: conhecer os judeus. Filho de uma geração marcada pela assimilação do judaísmo alemão, ele buscava compreender um mundo que lhe era ao mesmo tempo próximo e estranho — o judaísmo tradicional do Leste europeu. Dessa experiência nasceu Viagem à Polônia (1925). Partindo dessa obra recentemente traduzida para o português por Luis S. Krausz, este revisita a jornada de Döblin pensando-a como um momento de confronto entre dois universos judaicos: o Ocidente secularizado e integrado às sociedades nacionais e o Oriente ainda profundamente enraizado na tradição religiosa e comunitária. Uma tensão que atravessa toda a modernidade judaica e que, um século depois, permanece aberta.”
A 2 de Novembro de 1923, no Scheunenviertel, bairro berlinense próximo ao Alexanderplatz, onde viviam, à época, milhares de judeus de origem leste-europeia que haviam fugido dos pogroms para o Ocidente, ocorreram os primeiros incidentes de antissemitismo violento do entre-guerras alemão. Perpetrado por membros de uma milicia proto-nazista, os chamados Landsknechte, este pogrom estendeu-se pordois días. Essa enorme onda de violência, ocorrida dez anos antes da ascensão dos nacional-socialistas ao poder, praticamente desapareceu da consciência histórica pública. No entanto, foram estes eventos que levaram o escritor judeu-alemão Alfred Döblin, um dos grandes nomes da vanguarda literaria de língua alemã dos anos 1920 e 1930, cuja obra mais conhecida é o romance Berlin Alexanderplatz, a emprender uma viagem à Polônia, cujo propósito ostensivo era “informar-se a respeito dos judeus”. A partir desta sua viagem, Döblin publicaría, em 1925, uma das suas obras mais interessantes: Reise in Polen ou, em português, Viagem à Polônia, livro que acaba de ser publicado em tradução para o português pela Editora Ayllon. As motivações de Alfred Döblin para fazer esta viagem, nos últimos meses de 1924, são explicadas de maneira sintética num trecho de sua autobiografia, intitulada Schicksalsreise: Bericht und Bekenntnis (Viagem do destino: relato e confissão), de 1949:
Na primeira metade da década de 20 ocorreram, em Berlim, eventos que se assemelhavam a pogroms, no leste da cidade, na Gollnowstraße e redondezas. Isto ocorreu no âmbito do movimento dos Landsknechte daqueles anos: o nazismo, assim, dava seu primeiro grito. Àquela época alguns representantes do sionismo berlinense convidaram um número de senhores de origem judaica para um encontro, no qual se falou sobre esses acontecimentos, o panorama mais amplo em que tiveram lugar, e sobre os objetivos do sionismo. Logo depois dessa discussão, um deles veio à minha casa, querendo despertar meu interesse por uma viagem à Palestina, o que era algo estranho para mim. O convite teve um outro efeito sobre mim. Embora eu não tenha aceito ir à Palestina, cheguei à conclusão de que deveria me orientar com relação aos judeus. E cheguei à conclusão de que, na verdade, eu não conhecia judeus. Eu não poderia chamar de judeus aqueles dentre os meus conhecidos que se consideravam judeus. Eles não tinham a crença judaica, nem a língua, talvez eles fossem os remanescentes de um povo em processo de desaparecimento, que de há muito havia se fundido com um novo ambiente. Então eu perguntei a mim mesmo e aos outros: onde há judeus? Responderam-me: na Polônia. E por isso eu viajei para a Polônia (DÖBLIN, 1949, p.164 apud GRABER, 1987, p.352).
O que Döblin, que era judeu e que foi perseguido como tal pelo nazismo, diz a respeito de seu desconhecimento com relação ao judaísmo valia para ele mesmo tanto quanto para uma parcela significativa da população judaica da Alemanha que, a partir das últimas décadas do século XIX, gradativamente dissolveu seus vínculos com as especificidades da tradição judaica, num processo de integração e de assimilação à sociedade alemã mais ampla.

Este processo teve início a partir do final do século XVIII, sob a influência do Iluminismo, e atingiria seu auge na passagem do século XIX para o século XX, justamente o período em que se deu a formação de Döblin. O conceito de Deutscher Bürger mosaischen Glaubens oucidadão alemão de fé mosaica foi determinante para a formação de uma identidade judaico-alemã moderna, da qual o próprio Döblin participava, em que a questão judaica passou a limitar-se unicamente ao aspecto das práticas religiosas, deixando de lado sua dimensão nacional.
Incorporando a nacionalidade germânica e buscando na cultura alemã novos valores, os judeus em vias de assimilação romperam, de maneira radical, com um conceito fundamental da filosofia religiosa e histórica do judaísmo: a ideia de Galut (exílio), sobre a qual se sustentam os conceitos bíblicos de nação judaica e de unidade do povo de Israel.
É em torno do conceito e da experiência da Galut que se estruturou toda a cultura judaica europeia, pelo menos a partir da Idade Média. As velhas comunidades judaicas que estavam encravadas em todos os quadrantes da Europa – da Dinamarca ao Sul da Itália, do Oeste da França até a Rússia – viam a si mesmas como fragmentos de uma nação desterritorializada, como remanescentes da destruição de Jerusalém pelos romanos, à espera de um acontecimento milagroso: o advento do Messias, destinado a reunir os judeus dispersos pelos quatro cantos do mundo, reconduzi-los à Terra Prometida e reconstruir Jerusalém e seu templo.
Esta consciência aguda de um prolongado exílio judaico atravessaria os séculos até o advento da modernidade e, com ela, o surgimento dos estados nacionais laicos da Europa Ocidental que, ao longo do século XIX, gradativamente concederam plenos direitos de cidadania aos judeus, levando-os a abandonar suas esperanças messiânicas em favor de uma plena integração nos sistemas político, econômico e cultural dos países em que viviam.
Um novo conceito de existência judaica, fundamentado numa visão de mundo secularizada, e nos conceitos de cidadania e sociedade civil derivados do Iluminismo, foi responsável pelo surgimento daqueles personagens aos quais Döblin se refere no texto citado acima, ao afirmar: “Eu não poderia chamar de judeus aqueles dentre os meus conhecidos que se consideravam judeus. Eles não tinham a crença judaica, nem a língua, talvez eles fossem os remanescentes de um povo em processo de desaparecimento, que de há muito havia se fundido com um novo ambiente.”
Döblin, aqui, está se referindo ao ambiente em que ele mesmo vivia mas também, de maneira indireta, à sua própria identidade, já que ele nasceu no seio de uma família que abandonara as tradições de seus antepassados, em cidadezinhas polonesas ocupadas pela Prússia desde o final do século XVIII, para lançar-se na grande aventura da modernidade, assim percorrendo uma trajetória geográfica e espiritual característica do judaísmo alemão das últimas décadas do século XIX.
Sua mãe nascera em Samter, na Polônia prussiana, de uma família que ainda falava ídiche; seus tios, porém, cedo migraram de Samter para Breslau, e de lá para Berlim. Em sua marcha em direção ao Ocidente, deixaram para traz o mundo agonizante das aldeias judaicas do Leste da Europa, com suas formas de vida governadas por uma tradição ininterrupta que remontava à Idade Média, e também as comunidades teocêntricas em que a vida gravitava em torno dos preceitos religiosos.
Aos 40 anos de idade, Max Döblin, o pai do autor, abandonou sua família. Para o escritor, ele foi “etnologicamente uma vítima da migração. Todos os seus valores foram reavaliados e desvalorizados. (…) Só em minha geração outra vez o pensamento, e também o pensamento feliz, a respeito da própria origem, e o antigo respeito foram, aos poucos e com muita dificuldade, retomados. Eu sobrevivi à grande migração.” (DÖBLIN, 1928, p. 32 apud GRABER, 1987, p. 355)

A cisão do judaísmo europeu dos séculos 19 e 20, entre Westjuden (judeus ocidentais) e Ostjuden (judeus orientais), foi um processo que criou dois pólos distintos: no Ocidente, judeus em busca de assimilação e de integração nos estados modernos; no Leste europeu a persistência da insularidade decorrente da condição de exílio e da persistência de uma tradição religiosa que pressupunha que os judeus eram e sempre seriam estrangeiros na Europa.
Döblin, evidentemente, pertencia ao primeiro destes dois grupos e diante dos acontecimentos que testemunhou decidiu que era preciso conhecer o segundo para saber como reagir eles. Em vez de deixar-se levar por ideias préconcebidas, fossem essas as oferecidas pela tradição religiosa, fossem as sugeridas pelos representantes do sionismo berlinense, Döblin decidiu, antes de mais nada, ver, com seus próprios olhos, aqueles que foram perseguidos e massacrados pelos Landsknechte, os precursores do nazismo.
Sua viagem à Polônia, assim, tem o sentido de uma investigação acerca de suas origens perdidas e de um questionamento íntimo. Seu ponto de vista, ao lançar-se neste empreendimento, era o de um homem ancorado nos paradigmas da modernidade, especialmente os da ciência e da razão, mas também o de um observador sensível e empático das realidades sociais e culturais judaicas do Leste europeu. Sua visão sobre a Polônia – e sobre os judeus da Polônia – pretende-se neutra e objetiva, mas seus contatos com o judaísmo tradicional e pietista, que ele encontra em pleno vigor no Leste, o deixam inseguro com relação aos valores da tradição tanto quanto com relação aos valores da “civilização” à qual ele pertencia – ou julgava pertencer.
Döblin não era afeito às viagens, e desprezava o turismo, atividade que ele via com ceticismo claramente anti-burguês: para ele o turista era alguém que “foge de seu quotidiano, para desfrutar do quotidiano de outros” (GRABER, 1987, p. 357); uma ocupação, portanto, sintomática de uma atitude hedonista e, no seu entender, superficial e tola ante a vida. Sua intenção era conhecer um mundo diferente, por meio do olhar do etnógrafo ou do antropólogo.
Mas, ao mesmo tempo, Döblin parece querer pôr à prova a existência de uma suposta “essência” judaica da qual, por sua herança, ele talvez pudesse ser portador. É por isto que ele participou, ao longo de sua viagem, de rituais religiosos e ouviu as palavras de grandes mestres cabalistas; tentou aproximar-se do sentido que orientava o estranho mundo que se abria a seus olhos em meio ao setor religioso que ainda sobrevivia às mudanças na Polônia, e buscou sempre fugir aos julgamentos para tentar compreender o mundo desconhecido que aos poucos foi se descortinando ante seus olhos.
Às vezes, ele imaginava conseguir pertencer a esse mundo, acabando por sucumbir, em alguns momentos de sua viagem, à força primitiva e ao encanto elemental que o impregnavam, num fascínio de certa maneira análogo ao que Franz Kafka experimentou ao assistir às apresentações de uma trupe de teatro ídiche que passava por Praga, e que faziam o judeu ocidental que ele indubitavelmente era parecer uma criatura desamparada e equivocada em seu processo de assimilação cultural.
A integridade dos judeus da Polôniaque, ainda que divididos em facções, se identificavam totalmente com o judaísmo e, salvo raras exceções, não buscavam uma assimilação à cultura majoritária,provocou admiração em Döblin. Ao mesmo tempo, ele se percebeu incapaz de pertencer verdadeiramente a este mundo: filho do progresso e da ciência, ele sentia não mais poder participar de um universo fundamentado em paradigmas que lhe eram fundamentalmente estranhos. Assim, depois de uma visita à biblioteca do Gaon de Vilna ele escreveu:
Não posso deixar de pensar, quando saio: que povo impressionante, o judeu. Eu não o conhecia, acreditava que aquilo que eu costumava ver na Alemanha, aquela gente sempre ocupada, eram os judeus: os comerciantes que se refogam no amor familiar e vão engordando aos poucos; os intelectuais ágeis; a incontável gente fina, infeliz e insegura. Agora vejo: esses são exemplares que foram arrancados de seu tronco, que degeneram, afastados do cerne do seu povo, que vive aqui e se conserva aqui. E que cerne é esse, capaz de produzir a riqueza transbordante do Baal-Schem, a chama escura do Gaon de Vilna! Que coisas aconteceram nessas paragens orientais, aparentemente tão pobres em cultura. Como aqui tudo gravita em torno do espiritual. Que importância imensa se atribui ao espírito, à religião! Não é uma pequena camada da sociedade que se vincula à religião, e sim a massa. Esse povo está, como quase nenhum outro, centrado em sua própria tradição religiosa e espiritual. Nesse sentido, os judeus tiveram menos dificuldades do que os outros povos, pois ficaram livres de disputas em torno de coisas como formas de organização do estado, revoluções, guerras, expansão de fronteiras, reis, parlamentos. Há dois mil anos, os romanos os livraram dessas preocupações. E a verdade é que eles nunca se lamentaram por isso. Nem se sentaram às margens dos rios da Babilônia para chorar. O que lhes importava era apenas o Templo. Eles precisavam do Estado só por causa do Templo. E só em Sion encontra-se o verdadeiro Templo. Dominados por essa ideia, como o Estado não voltou a existir, aos poucos começou uma transformação do povo como um todo. Silenciosamente, a renúncia a um país e a um estado insinuou-se em meio ao povo. E eles mesmos se transformaram num povo-templo. Um povo que carrega o templo dentro de si. Um caso inédito. Que só pôde surgir em meio a circunstâncias tão peculiares e tão duradouras. (DÖBLIN, 1987, p. 137).
O surgimento do judeu modernizado, tão inseguro das suas conquistas quanto de seu lugar no mundo contemporâneo, era atribuído por Döblin ao desaparecimento das formas de vida judaicas herdadas da Idade Média e ao longo de sua viagem ele se convenceu de que ameaças terríveis pairavam sobre o judaísmo tradicional. “A liquidação da Idade Média judaica na Europa do Leste começou na segunda metade do século passado. A modernidade se apresentou diante das aldeias judaicas por meio da indústria moderna e da economia capitalista. Começou, assim, uma crise crônica, que exigia mudanças radicais que, no entanto, só foram possíveis no país de forma parcial. A emigração alcançou cifras enormes.” (DÖBLIN, 1987, p.80).
Um passo decisivo na destruição do judaísmo tradicional Leste-europeu foi, conforme constatou Döblin, a 1a. Guerra Mundial: “Durante o século XX, a crise ininterrupta agravou-se ainda mais. Começou a guerra na Europa: 400.000 judeus, isto é, cerca de 80.000 famílias, foram desalojados, perdendo suas moradias, lojas, oficinas, terras de cultivo. Em seguida, entre 1918 e 1921, guerra civil, epidemias, pogroms no território russo, que vitimaram meio milhão de judeus.” (DÖBLIN, 1987, p.80).
Sua visita à Polônia – e aos judeus – de-se, portanto, sob o signo do pressentimento do desaparecimento iminente e historicamente inevitável do judaísmo leste-europeu: da mesma forma que, aculturando-se ao ambiente alemão, seus próprios ancestrais haviam deixado para trás o universo das aldeias judaicas, os acontecimentos políticos e econômicos na Polônia de seu tempo parecem-lhe sinalizar a destruição iminente de formas de vida incompatíveis com a modernidade.
Efetivamente, o judaísmo que Döblin encontrou na Polônia estava cindido em facções antagônicas, que representavam diferentes tipos de reações coletivas às mudanças sócio-políticas provocadas pelos novos tempos. Em grandes cidades como Varsóvia e Vilna, ele deparou-se com judeus que se vestiamm à moda ocidental e conversavam exclusivamente em polonês; com sionistas e hebraístas, com ídichistas de viés socialista, com comunistas ateus, e com diferentes facções religiosas – desde os seguidores do rabi místico de Gura Kalwarja até os que se mantêm fiéis à ortodoxia lituana, anti-pietista, e desde os reformistas que introduziram em suas sinagogas um culto religioso à moda alemã, no qual Döblin encontra semelhanças com os rituais católicos, até os pequenos rabis da província, que se mantinham apegados aos antigos ritos e costumes.
Sua admiração ante a persistência e ao apego dos judeus às suas origens e à sua identidade, portanto, tinha como contraponto a percepção clara de que a antiga unidade judaica já passara por um processo inexorável e irreversível de fragmentação e de dissolução: o que ele encontrou de autenticamente judaico na Polônia eram, a seu ver, resquícios de um povo e de uma cultura unitária prestes a sucumbir ante maneiras de pensar caracteristicamente modernas.
Assim, o que se confronta, neste encontro entre Oriente e Ocidente vivenciado por Döblin ao longo de sua viagem são duas visões de mundo radicalmente opostas: uma, baseada na ciência, na razão e nos sentidos; outra baseada em valores transcendentes que fundamentam a vida de comunidades ancoradas numa fé inabalável, propensa ao misticismo, que parece ameaçar o edifício da “civilização” europeia.
O olhar de Döblin, portanto, é também o olhar do membro de uma sociedade e de uma cultura que se vê como superior. Mas, ao mesmo tempo, é um olhar sensível, que não é cegado pela ideologia, e que se admira com a solidez inabalável de sua substância espiritual que está por trás de aspecto sofrido e humilde de uma população habituada à exclusão. Döblin encontra entre os judeus poloneses um orgulho abstrato e uma solidez que seriam inimagináveis entre os seus concidadãos, “alemães de fé israelita”, tanto quanto entre aqueles que imaginam encontrar, seja no sionismo, seja no socialismo, seja na assimilação, a resposta para os dilemas judaicos ante a modernidade.
Na Polônia, assim, Döblin entrou em contato, pela primeira vez, com o poder de uma religiosidade oriental ainda em estado puro, não filtrada pelo esteticismo e pelo caráter individualista da cultura ocidental, e ainda não contaminada com as virtudes prussianas cardeais – rigor, objetividade e sobriedade (GRABER, 1987, p.361) – que lhe foram inculcadas desde a infância. Um universo esquecido em seu ambiente nativo e os rastros de uma espiritualidade perdida no Ocidente são, em sua visão, a contrapartida da pobreza material, da feiúra, da falta de higiene dos judeus do Leste.
Seja como for, o que ele viu na Polônia o levou a questionar-se sobre seu próprio universo de origem, em que a espiritualidade foi substituída pela racionalidade, a intuição pelo pensamento científico, a preocupação com as coisas do espírito pelo materialismo.
Apesar da fragmentação da numerosa comunidade judaica polonesa observada por Döblin, fica claro que, entre eles, a concepção de nação judaica ainda permanece viva, mesmo nos setores judaicos mais progressistas, enquanto que, na Alemanha, assim como em outros países do Ocidente, este conceito fora colocado em xeque pelo processo, até então mais ou menos bem sucedido, de integração dos judeus nos Estados nacionais, e de redução do judaísmo a uma questão puramente confessional.
Mas, afinal, o distanciamento prevaleceu: Döblin via a si mesmo como um homem “civilizado”, enquanto identificava os judeus do Lestecom um mundo que lhe era irremediavelmente estranho. Depois de percorrer as ruas desertas do gueto de Varsóvia numa sexta-feira à noite, observando pelas janelas as famílias religiosas reunidas em torno das mesas do Shabat, ele se pergunta: “Será que eu poderia, será que alguém poderia retornar a este degrau?” (DÖBLIN, 1987: 258).
O mundo ocidental, afinal, parece a Döblin seu verdadeiro lar espiritual. Apesar de sua fascinação pelo mundo judaico do Leste europeu, o estranhamento prevaleceu.
A viagem à Polônia de Döblin e seus encontros com o judaísmo deixaram marcas profundas na maneira como ele passou a ver a si mesmo e a seus contemporâneos. A dialética entre a secularização fragmentadora e solidez dos antigos laços comunitários e religiosos, que pareciam ameaçar as conquistas dos judeus no cerne da civilização ocidental, é um dos processos representados no grande painel do judaísmo europeu no período entreguerras, traçado nesta Viagem à Polônia – um livro que trata de dilemas judaicos ante a modernidade que, um século depois de sua primeira edição, permanecem irresolvidos.
Uma tradução brasileira de Viagem à Polônia de Alfred Döblin acaba de ser publicada pela Editora Hedra. Mais informações pelo link