Rumo a um novo exílio?
A Europa pós-Shoah foi reconstruida sobre uma dupla esperança: a retomada do processo de modernização e a eliminação do antissemitismo. Nesta intervenção, proferida por Jean-Claude Milner para o seminário da École des hautes études en sciences sociales (EHESS) “Os judeus e a Europa”, em 9 de dezembro de 2025, ele justifica suas dúvidas com relação a essa crença, num momento em que a modernidade europeia parece cada vez mais questionada e em que o velho ódio aos judeus ressurge sob novas facetas.
Propus estabelecer uma distinção entre antissemitismo e judeofobia. Por um breve período, acreditei reencontrar uma distinção equivalente no último livro de Bruno Karsenti. Ele separa, com efeito, o antissemitismo do antijudaísmo. Não contesto a validade de sua abordagem, longe disso. Eu teria, inclusive, ficado satisfeito se nossas posições convergissem. Mas creio que nossas propostas não se sobrepõem.
Segundo entendo, uma diferença de natureza separa antissemitismo e judeofobia. O antissemitismo reivindica o entendimento e o raciocínio; formula argumentos sociopolíticos, falaciosos ou mesmo substancialmente mentirosos, mas muitas vezes suscetíveis de formulações persuasivas. Como afirma Hannah Arendt na abertura de Origens do Totalitarismo, o antissemitismo leva em conta a vitória ideológica das Luzes e, mais especificamente, da Aufklärung de língua alemã. De modo mais geral, ele se adapta às exigências da modernidade do momento. Assim ocorre na Alemanha, onde nasce, e assim ocorre na França, onde se desenvolve.
Se o antissemitismo reivindica o entendimento, a judeofobia pertence ao domínio da paixão; na lista clássica das paixões da alma, a língua alemã destacava o ódio, der Hass, de onde o substantivo Judenhass. O ódio não precisa de argumentos — ou, quando os formula, eles apenas o repetem sob forma discursiva. Remeto aqui a David Hume (Tratado da Natureza Humana): o ódio não nasce da injustiça ou do crime que se imputa a outrem; ao contrário, a imputação de injustiça ou de crime nasce do próprio ódio. Assim, a acusação de deicídio ou a de genocídio não fundamentam o ódio; aberto ou latente, o ódio precede a acusação.
Hannah Arendt e muitos outros autores sustentam que o antissemitismo afastou o antigo Judenhass. A paixão judeofóbica teria, portanto, persistido apenas nas franjas atrasadas das populações. De modo mais sutil, Jean-Paul Sartre descreve, em A Infância de um Chefe, a maneira como um jovem burguês parisiense, instruído e bem-educado, fabrica para si uma paixão judeofóbica que na verdade não sente, a fim de consolidar sua nascente reputação de antissemita obstinado. Em sentido inverso, pode-se facilmente imaginar que a paixão judeofóbica se alimente das racionalizações e dos sofismas dos antissemitas. Mas quando chegam as consequências ideológicas do pós-guerra e a descoberta dos campos de extermínio: a judeofobia torna-se então, ao menos no Ocidente, uma paixão vergonhosa, cuja manifestação é proibida; o antissemitismo, por sua vez, constata que seus argumentos carecem de força diante da evidência de certos acontecimentos. Ele precisa tornar-se discreto. Se a Alemanha Ocidental logra sua reconstrução utilizando sem escrúpulos engenheiros formados pelo nazismo, e se os Estados Unidos fazem o mesmo na pesquisa espacial, ambos recobrem o fato com um espesso véu.
Durante a segunda metade do século XX, no Ocidente e em suas dependências, a doutrina canônica resumia-se, portanto, assim:
- a judeofobia, pertencente ao mundo antigo, já não tem senão uma existência residual nas sociedades modernas;
- o antissemitismo, que desde o fim do século XIX havia relegado a judeofobia ao esquecimento, fora ele próprio reduzido ao silêncio pela experiência da Segunda Guerra Mundial;
- esses dois encerramentos eram definitivos.
Há muito tempo considero que a tese canônica é falsa. Em seus três pontos, sua falsidade se torna hoje evidente. Por três razões.
Primeiramente, a paixão judeofóbica jamais havia desaparecido completamente nas sociedades modernas. Ela pôde renunciar a certos temas ancestrais, como o deicídio. Para poder expressar-se abertamente, revestiu-se com frequência dos ornamentos do raciocínio fundamentado e da ciência. Mein Kampf oferece um exemplo disso. Pouco importa que ali os raciocínios sejam enviesados e que as referências científicas pertençam ao charlatanismo: eles atestam que o autor precisa prestar homenagem à razão moderna, assim como a hipocrisia presta homenagem à virtude. Quando, ao contrário, uma judeofobia se impunha preservando as aparências em suas publicações, descobriu-se por vezes que sua paixão se manifestava livremente no segredo dos escritos íntimos. Não é indiferente que tantos arquivos pessoais o comprovem. Basta pensar no diário de Gottlob Frege, nos cadernos de Martin Heidegger, no Glossarium de Carl Schmitt, ou nas anotações de Alain, publicadas recentemente.
Em segundo lugar, há lugares onde a judeofobia constitui, há décadas, um elemento constitutivo do vínculo social. Entre eles, o mundo árabe e, mais especificamente, os países outrora cristãos e romanizados onde a conquista árabe de certo modo encontrou a judeofobia cristã. Nada, com efeito, predispunha o islã a rejeitar os judeus de modo mais áspero do que rejeitava os cristãos, os budistas e todos os não muçulmanos. O cristianismo, ao contrário, não podia deixar de se colocar a questão da judeofobia. A vida e a morte de Jesus o constrangiam a isso. Durante muito tempo, a escolha da judeofobia pareceu evidente. Hoje já não é assim entre todos os cristãos. Ainda o era, tanto no Oriente quanto na Europa, no momento da expansão árabe. Os historiadores de ofício sustentam que a presença maciça da judeofobia nas populações cristãs chamadas a converter-se, de bom grado ou à força, não exerceu nenhuma influência sobre o islã após a conquista; não me convence essa unanimidade.
Nada, com efeito, predispunha o islã a rejeitar os judeus de modo mais áspero do que rejeitava os cristãos, os budistas e todos os não muçulmanos. O cristianismo, ao contrário, não podia deixar de se colocar a questão da judeofobia.
Seja como for, a existência da judeofobia no mundo árabe atual não deixa dúvidas. Após ter permanecido por muito tempo indiferente às ideologias dessa região, o Ocidente lhes concede cada vez mais importância, porque disso depende sua própria paz e sua própria prosperidade. Se parecer que este ou aquele conflito no interior das populações árabes venha a ameaçar os grandes equilíbrios no Ocidente, este se preocupará em eliminar ou controlar o agente perturbador. Durante muito tempo, o islamismo era apontado como o culpado; há alguns anos, ao contrário, é a presença judaica no Oriente que passou a ser posta em causa. Desta presença viria o principal obstáculo à paz. O destino da Faixa de Gaza e a figura de B. Netanyahu fizeram pender a balança: aos olhos da opinião pública mundial, Israel passou a ser visto como um Estado pária, e todo judeu, israelense ou não, passou a ser considerado cúmplice de seus crimes. A condenação já havia sido pronunciada há muito tempo; basta lembrar a Conferência Mundial contra o Racismo de Durban, o fórum de ONGs que se realizou paralelamente e o slogan “One bullet, one Jew” ali entoado. Na ocasião, os países ocidentais haviam protestado. A guerra de Gaza e a política de B. Netanyahu acelerou o curso do tempo: doravante, o protesto de 2001 já não está mais na ordem do dia nos países que o haviam formulado.
Longe de se indignarem com a judeofobia oriental, muitos ocidentais a compartilham. Os espíritos simplistas apontam o número crescente de muçulmanos no interior de suas populações. Admitamos que existe um islã ocidental; este não tem razão alguma para não se mostrar solidário com o islã oriental. Admitamos como uma possibilidade que essa solidariedade inclua a paixão judeofóbica; isso nada teria de surpreendente. Convém, contudo, evitar atribuir o avanço da judeofobia ocidental unicamente à existência de um islã europeu. Pois trata-se de algo muito diferente: não assistimos ao retorno do antissemitismo, mas ao renascimento, sobre novas bases, de uma judeofobia especificamente ocidental. Suas causas são internas ao Ocidente e fundamentalmente independentes de qualquer referência ao islã.
Aqui, chego ao meu terceiro ponto: o Ocidente quis ser a expressão material de uma ideia, outrora chamada progresso e que prefiro chamar de modernidade. Modernidade social, ou democracia; modernidade política, ou Estado secular; modernidade do pensamento: ciência e técnica. Ora, a modernidade em si mesma tornou-se suspeita, e isso sob todos os seus aspectos: a democracia formal das formas institucionais; a separação entre o fato estatal e o fato religioso; a autoridade considerada excessiva da ciência; os malefícios da técnica contra a natureza. A acusação acrescenta, a cada dia, um novo motivo contra o qual se queixa.
Desde o Iluminismo e a Aufklärung, toda forma de integração era concebida como um consentimento à modernidade. Pode-se dizer, reciprocamente, que a valorização da integração generalizada foi uma invenção da própria modernidade. No interior deste vasto movimento, os judeus ocuparam seu lugar. Não sem um paradoxo: o judaísmo é uma das religiões mais antigas do mundo ainda hoje praticadas; as exigências de seus ritos se opõem diametralmente à flexibilidade dos costumes tão exaltada pela modernidade. No entanto, quando chegam a se integrar, os judeus escolhem, quase invariavelmente, as versões mais afirmativas da modernidade integradora. Seu gosto pela vanguarda — seja ela política, artística ou moral — varia conforme os indivíduos; mas, se a substância do gesto integrador muda, a forma do gesto permanece a mesma.
Não assistimos ao retorno do antissemitismo, mas ao renascimento, sobre novas bases, de uma judeofobia especificamente ocidental. Suas causas são internas ao Ocidente e fundamentalmente independentes de qualquer referência ao islã.
Após 1945, um grande número de populações no mundo julgou que sua sobrevivência exigia a modernidade. As comunidades judaicas não foram exceção. Poder-se-ia ter acreditado que, entre o reconhecimento dos campos de extermínio e a vontade comum de modernidade, a integração judaica se inscreveria no movimento geral. Isso se verificou parcialmente. Pode-se supor que, ao enveredar resolutamente pelo caminho da democracia formal e da inovação tecno-científica — não sem salpicar o conjunto com diversas marcas de secularização — o Estado de Israel consolidava sua própria posição. Em contrapartida, beneficiou-se da proteção do Ocidente. Assim fortalecido, pôde negociar com os judeus antimodernos e anti-integracionistas — aqueles que se chamam frums.
Esse dispositivo só poderia funcionar enquanto a modernidade reunisse em torno de si um consenso. Mas, como eu disse, a modernidade tornou-se suspeita. Para fixar as ideias, digamos que a reviravolta data do século XXI. Aos olhos dos não ocidentais, ela aparece como uma invenção destinada a assegurar a supremacia da raça branca. Evoca-se seu passado, feito de conquistas territoriais, sujeição de populações e predação cultural. Evoca-se seu presente, marcado pela proteção egoísta de vantagens herdadas. Evoca-se seu futuro, cada vez mais incerto desde que superpotências rivais do Ocidente desenvolvem suas próprias versões da modernidade, depuradas das faltas atribuídas à sua versão ocidental. Putin elabora uma modernidade russa; a China, uma modernidade chinesa; suspeita-se mesmo que os ideólogos de Trump concebam uma modernidade norte-americana, despojada das escórias europeias. Talvez seja preciso admitir várias modernidades não superponíveis. A secessão dos Estados Unidos ainda está por se confirmar, mas não se deve crer que o trumpismo detenha seu monopólio; Barack Obama já raciocinava nesses termos. A antiga modernidade ocidental, oriunda das Luzes europeias, encontrar-se-ia então reduzida apenas à Europa. Seria, assim, uma entre as modernidades possíveis e, de fato, a menos moderna de todas.
Se é cedo demais para estimar que a situação tenha encontrado sua forma definitiva, já se vislumbra um futuro plausível. Tal como se tornou, a antiga modernidade ocidental deu lugar a uma descendente. Esta já não merece ser chamada ocidental, pois se tornou própria dos europeus, sem mais envolver os Estados Unidos. Melhor chamá-la euro-ocidental. Do mesmo modo, seus adeptos deveriam ser ditos euro-ocidentais, e não simplesmente ocidentais, e o conjunto que formam constitui um euro-Ocidente, e não mais o Ocidente. Ora, um paradoxo salta aos olhos: se a modernidade russa é aceita pela maioria dos russos, a modernidade chinesa pela maioria dos chineses, e a modernidade norte-americana pela maioria dos norte-americanos, a modernidade euro-ocidental, ao contrário, não é aceita por uma maioria de euro-ocidentais. E isso em nome do planeta, posto em perigo pela ciência e pela técnica, mas também em nome da desigualdade que nem a democracia social nem as formas estatais conseguem reduzir.
A modernidade euro-ocidental já não acredita que o balanço de suas realizações efetivas seja globalmente positivo. Ao contemplar as realidades, acusa-se de ter traído seu ideal. Atribuir a si mesma, em todos os domínios, violações constantes e sistemáticas da igualdade equivale a condenar-se sem apelação.
Falei de desigualdade e, portanto, de igualdade.
Se tantas suspeitas recaem sobre a modernidade euro-ocidental, todas derivam de uma única grande queixa: uma falha em relação à igualdade. Retomo aqui as palavras de Alexis de Tocqueville: “os povos democráticos têm pela igualdade uma paixão ardente, insaciável, eterna, invencível…”. A modernidade ocidental queria-se indissoluvelmente democrática; queria-se, portanto, intrinsecamente igualitária.A modernidade euro-ocidental pretende manter-se fiel a esse ideal, mas, diferentemente de sua antecessora, já não acredita que o balanço de suas realizações efetivas seja globalmente positivo. Ao contemplar as realidades, acusa-se de ter traído seu ideal. Atribuir a si mesma, em todos os domínios, violações constantes e sistemáticas da igualdade, equivale a condenar-se sem apelação.
Quando se acreditavam integrados ao Ocidente, os judeus viam a si mesmos como modernos. Muitos judeus, no euro-Ocidente, mantêm elevada sua vontade de integração. Não poderiam, portanto, escapar à suspeita que desperta a modernidade euro-ocidental. Fora do euro-Ocidente, é evidente, mas também, e talvez sobretudo, no próprio euro-Ocidente. Os judeus de Israel são duplamente suspeitos: enquanto judeus e enquanto israelenses, já que seu Estado tem um único significado histórico: mostrar que, ao mesmo tempo em que respondem a uma exigência imemorial da Torá — o retorno a Eretz —, colocam-se na vanguarda da modernidade, naquilo que ela tem de pior: a transformação da natureza (“fazer florescer o deserto”), o espírito de empresa, a justiça social, a eficácia militar. A isso se acrescentam as feridas constantes que os judeus israelenses são acusados de infligir à paixão igualitária. Mesmo quando consentem à paz, não persistem em querer um Estado que não se regula pelos usos e costumes dos países árabes que os cercam? Sem necessariamente conhecer a frase de Charles de Gaulle, retorna-se à sua expressão: “povo de elite, seguro de si e dominador”.
Nesse ponto, de nada serve destacar a rudeza de Benjamin Netanyahu e as exações da Tsahal, pois se toca aqui um dado infinitamente mais profundo: a existência judaica, em si mesma, fere a igualdade. A queixa não atinge apenas os israelenses; estende-se a todos os judeus do mundo, enquanto judeus. Charles de Gaulle já não basta; é preciso remontar à sua fonte, Tacitus: “com seus irmãos, fidelidade à toda prova, compaixão sempre pronta a socorrer; contra o resto dos homens, ódio e hostilidade”.
Paixão judeofóbica, paixão antiocidental, paixão antimoderna, paixão igualitária, paixão anti europeia de uns, paixão anti estadunidense de outros, paixão anti-israelense de todos — os judeus encontram-se na confluência. Se a opinião euro-ocidental persistir no caminho em que se engajou, concluirá que em lugar algum os judeus poderão ser acolhidos, senão provisoriamente. “Do rio ao mar”: conhece-se a palavra de ordem. Denunciou-se a ignorância daqueles que a repetem, já que não sabem de que rio se trata e mal sabem de que mar. Nos fatos, porém, essa ignorância nada tem de negativo. Ao contrário, ela traz consigo, como reverso, uma universalização afirmativa: onde quer que se possa encontrar algum rio ou algum mar — por mais distantes que estejam um do outro esse rio e esse mar —, os judeus devem preparar-se para deixar o lugar. Se tomarmos como referência o livro Nomos da Terra, de Carl Schmitt, diria que a articulação de um rio e de um mar define a forma mais geral de um território possível; desde então, proclama-se que nenhum território real oferecerá acolhida ou refúgio. Eis o que chamo de novo exílio, tal como os slogans do propalestinismo o determina — ainda sem sabê-lo, ainda que sem querer, mas brincando com a ideia, como uma criança brinca com os dados.