Por um sionismo pragmático
Historiadora das ideias e filha de Amós Oz, Fania Oz-Salzberger recusa o confronto letal entre apoiadores de Israel e da Palestina. Contra narrativas de soma zero e concepções absolutas de justiça, ela afirma a igual legitimidade da cidadania dos dois povos, distingue o antissionismo histórico daquele que contesta, hoje, a existência de Israel, e defende uma paz imperfeita baseada em comprometimento. Um texto político e pessoal que pretende reabilitar o sionismo humanista de Isaiah Berlin e Amós Oz em face dos nacionalismos e “falsos amigos” dos dois campos.
Eu começarei por uma observação pessoal, uma vez que o momento não tem nada de ordinário. Eu sou uma israelense nascida e crescida naquilo que outrora chamamos o campo da paz israelense, e dois desastres recentes arruinaram a posição internacional do meu país, o fio da minha existência e uma parte da minha alma.
O massacre cometido pelo Hamas em sete de Outubro de 2023 no sul de Israel, e a guerra israelense a Gaza que se seguiu, não são somente os eventos mais determinantes da minha vida pública, como cidadã e como voz acadêmica, como são também catástrofes íntimas.
Eu falo com um sentimento de luto: não somente pelas pessoas assassinadas que eu conhecia, e nem mesmo apenas pelos muitos israelenses inocentes e pelo enorme número de inocentes mortos em Gaza que eu não conhecia. Eu sei que o meu país, mesmo que sobreviva e prospere, carregará um fardo histórico, uma mácula de culpa. Mas eu não estou mesmo certa de que ele sobreviverá e prosperará. Eu não escrevo, portanto, como simples observadora ou analista: eu temo pela minha casa, pelo meu pertencimento e pelo futuro da minha identidade.
Este não é o melhor momento para ser israelense. E sê-lo, sendo jovem, como é o caso dos meus filhos e de seus amigos, é ainda mais difícil. São os jovens, portanto, que inspiram a nossa luta para curar Israel e Palestina.
Nesse momento, em que se aproximam as eleições israelenses, dispomos ainda de alguns recursos e de um horizonte de esperança. Eu acredito que a sociedade israelense ainda pode erguer-se e restaurar as suas instituições governamentais e midiáticas. Essa reparação poderia reabrir a via de um compromisso negociado e, a longo prazo, de alguma paz ao lado de uma Palestina pacificada. Diversos partidos que se apresentam no Knesset (dentre eles os partidos árabes e o partido democrata, de maioria judaica) falam abertamente de paz e de uma solução de dois estados. Essa também é a posição da maior parte da sociedade civil organizada. Eu ainda espero, portanto, que a minha família continue a viver em Israel e falar hebraico por gerações. Considero que é meu dever cívico falar enquanto ainda houver uma esperança política concreta.
A questão de saber quantos israelenses eu represento não vem ao caso, mesmo que eu certamente não seja uma voz isolada. Não se trata de pesquisas de opinião – a crer-se nas respectivas maiorias, as duas nações desejam destruir-se mutuamente. Nesse sentido, é verdade que as opiniões contam enormemente. Como escreveu David Hume, o governo assenta exclusivamente na opinião, e essa máxima vale para os regimes mais despóticos e militares, assim como para os mais livres e populares. Todavia, John Stuart Mill acrescenta que o efeito das opiniões é questão de opinião.
Não se trata de um otimismo fácil. A opinião dos israelenses sobre a paz com o Egito mudou literalmente do dia para a noite quando Anwar Al Sadat visitou, sem aviso, o primeiro-ministro Menachem Begin.
Uma observação preliminar acerca das falhas de diálogo globais se faz necessária, apesar, ou talvez por causa, da internet e do mundo que a trouxe à luz. A maior parte dos israelenses, ainda hoje, não tem consciência da dimensão do desastre que se abate sobre nós. Eles estão terrivelmente presos em uma realidade unidimensional, em parte fabricada pelo governo israelense e pelos seus meios de comunicação, que afirmam obstinadamente que Israel é uma vítima irrepreensível. Eles se encolhem na posição fetal de um vitimismo sem fim, de uma forma surpreendentemente próxima, em certos aspectos, à posição palestina.
Essa dissonância me fere e me encoleriza mais do que eu saberia expressar, mas a minha cólera não visa os cidadãos traumatizados. Certamente não aos meus amigos e colegas que o Hamas enlutou permanentemente com a barbárie de 07 de Outubro. Minha cólera visa os manipuladores de cima e os influenciadores digitais que escondem a humanidade dos civis do outro lado. Os mesmos dirigentes e demagogos que gritam lobo ou apelam ao antissemitismo assim que um verdadeiro amigo de Israel formula uma crítica severa à sua política.
O antissemitismo é real, em parte imemorável, em parte ressurge renovado, e sua violência real se intensifica na mesma medida de sua verborragia. No entanto, ao invés de uma solidariedade firme para com as comunidades judaicas do mundo inteiro, meu governo desperdiça a oposição liberal ao antissemitismo: difama verdadeiros amigos e aliados sinceros e classifica como antissemitismo críticas legítimas. Ao mesmo tempo, alguns antissemitas declarados são por vezes celebrados como pró-israelenses, ainda que seu ultranacionalismo os torne o arquétipo do amigo falso.
Ao invés de uma solidariedade firme para com as comunidades judaicas do mundo inteiro, meu governo desperdiça a oposição liberal ao antissemitismo: difama verdadeiros amigos e aliados sinceros e classifica como antissemitismo críticas legítimas.
A boa nova é que inúmeros cidadãos israelenses, sobretudo do espectro que vai da esquerda à direita moderada, veem nas próximas eleições a oportunidade de reparar aquilo que foi quebrado, de tratar aquilo que está gravemente doente, e de criar um clima mais favorável a uma redemocratização de Israel. Uma parte desse espectro, mas não a totalidade, está decidida a reabrir as negociações com os palestinos. E em sua totalidade opõem-se à corrupção do governo, à violência ilegal dos soldados e dos colonos na Cisjordânia, e ao controle da polícia, do policiamento de fronteira e da administração penitenciária por um ministro condenado por racismo que Netanyahu apoiou para sustentar sua coalizão (Itamar Ben Gvir).
Eu defenderei aqui três teses: que a ideia de um conflito de soma zero entre Israel e a Palestina é falsa; que deve-se distinguir as formas históricas e contemporâneas de antissionismo; e que a paz, por imperfeita que ela seja, deve ter primazia sobre as concepções absolutas da justiça. Eu defenderei também uma reabilitação do pragmatismo, valor sionista de outrora, hoje posto de lado.
Os fantasmas de Oxford
Esse texto é dedicado à memória de dois homens que se encontraram pela primeira vez em Oxford em 1969, um encontro ao qual eu pude assistir ainda que tivesse apenas oito anos: Sir Isaiah Berlin e meu pai, Amós Oz. Eu sou grata que eles não estejam mas aqui para ver o presente desastre. Ao meu modo profano, penso que seus fantasmas talvez ainda rondam por aí, sem poder descansar em paz. Eu me lembro de sua obstinação, durante toda a sua vida, à procura de um fio humanista na feiúra e selvageria da história, a contrapelo da madeira retorcida de que a humanidade é feita.
Foi no decurso de uma de suas conversações em Oxford, nos anos 1980, quando eu preparava, ali, meu doutoramento, que ouvi meu pai dizer que o conflito israelo-palestino é um confronto entre justiça e justiça.
Enquanto tal, dizia ele, esse conflito é a tragédia grega por excelência, no sentido exato em que a compreendiam Sófocles e Eurípedes. A ideia de reivindicações de justiça concorrentes está hoje abafada pelo barulho da teologia política pretensamente pró-palestina. Composta de anjos e demônios, de conquistadores e conquistados, de hemisférios norte e sul, de colonialistas malvados e meras vítimas inocentes, de bem e mal. Ela faz dos meus avós colonos europeus abastados que se instalaram em terras palestinas para roubá-las.
Em sua versão extrema, bastante comum, essa teologia política chega a adotar o Hamas e o Hezbollah, sustentando que o morticínio é uma resposta justa ao roubo.
A história da vida dos meus avós, me dizem, foi anulada. Pelas universidades, pelos intelectuais, pelos dirigentes políticos, pelos jornalistas e influenciadores.
O sionismo, que o meu tio-avô Joseph Klausner considerava um composto moderno de judaísmo e humanismo, foi anulado também. Repetem-me nas redes sociais que não existe sionismo liberal, e menos ainda sionismo humanista, porque essa seria uma contradição de termos. Uma quimera lógica.
Se eu o escrevo aqui, é porque penso existir. Mas cabe ao leitor decidir.
Eu empregarei, portanto, estas palavras assoladas pelo ostracismo: sionismo liberal. É o que foram Oz e Berlin, até o fim dos seus dias. O sionismo liberal repousa sobre a distinção clássica de Berlin entre movimentos nacionais benignos e malignos. Até o âmago, ele viu no sionismo, no seu coração, um credo nacional moderado, e ele chamou a atenção, na sua última década de vida, contra a ascensão de um nacionalismo israelense maligno, de uma ideologia de superioridade racial e de negação do igual direito palestino a um estado nacional.
Para ser perfeitamente clara: Oz e Berlin, e toda uma linhagem de pensadores sionistas moderados que os precede e cuja origem remonta mesmo até Theodor Herzl, consideravam a reivindicação judaica de independência nacional igual àquela de todo e qualquer outro povo.
Herzl ignorava a existência de reivindicações de um povo palestino; Oz e Berlin a aceitaram como igualmente justa.
O sionismo, no seu âmago, almeja à normalidade para os judeus entre todas as demais nações. A superioridade judaica não tem nada de normal.
Até o âmago, ele viu no sionismo, no seu coração, um credo nacional moderado, e ele chamou a atenção, na sua última década de vida, contra a ascensão de um nacionalismo israelense maligno, de uma ideologia de superioridade racial e de negação do igual direito palestino a um estado nacional.
A quem nega a existência de um sionismo liberal ou humanista, respondo que quase todas as negociações de paz alguma vez realizadas nesse conflito ocorreram entre palestinos moderados e sionistas liberais.
Eu quero saudar aqui meus interlocutores: Ahmed Fouad Alkhatib, Samer Sinijlawi, Aziz Abu Sarah, dois amigos na Alemanha que preferem, por hora, não ser identificados, e muitos outros, todos expostos a um ódio extremo por ter defendido publicamente um devir comum para palestinos e israelenses.
É preciso adicionar aí um grupo importante de palestinos da Cisjordânia que participa de uma série de encontros na Europa com membros da oposição israelense e que segue, por hora, fora do radar. Somos pontos de apoio uns para os outros perante a hostilidade que nos acomete. Se estes parceiros de paz me aceitaram, eu não renunciarei à minha descrição de mim mesma, à minha identidade ideológica: democrata liberal primeiro, sionista humanista na sequência.
Um cerco inexistente
Eu quero questionar a falsa dicotomia entre pró-Israel e pró-Palestina. Eu não tentarei delimitar a quadratura desse cerco, porque ele próprio é ficcional.
A idéia de que Israel e a Palestina formam um conflito de soma zero – ou seja, de que a vitória de um povo deve constituir a destruição do outro – é intelectualmente falha e politicamente perigosa. Ela nos prende em uma lógica na qual só a vitória total ou a derrota total são pensáveis.
A realidade humana é menos nítida. A “madeira retorcida da qual a humanidade é feita”, fórmula de Emanuel Kant tão belamente envernizada por Isaiah Berlin, não produz simetrias perfeitas. Nós não podemos desfazer as catástrofes passadas, mas podemos dar forma àquilo que vem. As sociedades, como as pessoas, podem resistir, adaptar-se e até se recuperar – nunca sem cicatrizes. Como os homens e as sociedades, as velhas árvores guardam suas cicatrizes enquanto se curam e crescem.
Eu gostaria de deixar claro de onde falo. Eu sou filha e neta de judeus de ascendência européia, e em parte sefaradita, que chegaram ao porto de Jaffa em 1930 com um certificado de imigração emitido pelo governo britânico mandatário da Palestina. Todos eles não eram sionistas aguerridos, mas essa era, para os quatro, a única saída da Europa oriental nesse período já tardio, antes de setembro de 1939. Todos os familiares que lá permaneceram, incluindo aqueles que desesperadamente procuraram obter passaportes para outros países, foram detidos e, posteriormente, fuzilados ou asfixiados com gás pela Wehrmacht e pela SS. Em 1942 já não possuíamos nenhum parente vivo na Europa.
Eu sou também historiadora das idéias. Minha tese de doutorado versava sobre o Iluminismo. Levou anos para que eu compreendesse o quanto o meu objeto de estudo estava intimamente ligado à história da minha família. O Iluminismo, e particularmente a Aufklärung alemã, inspirou os pioneiros da Haskalá judaica, que acendeu, ela própria, o ideal sionista. Ela nutriu igualmente ideologias não-sionistas e antissionistas no seio da vasta população judaica do leste europeu, então em pleno despertar cultural. Mas a Haskalá se pôs a sustentar cada vez mais o ideal sionista, uma vez que seu humanismo pan-europeu se via cada vez mais acossado e ridicularizado por um antisseitismo modernizado. Meu avô, Arieh, contava que, quando ele era criança na Europa, as pichações nos muros bradavam: “Judeus, voltem para a Palestina!”. E quando visitava a Europa mais recentemente, as pichações por lá diziam: “Judeus, fora da Palestina!”. Os tempos mudaram.
Confrontemos um fato simples: o ideal sionista da minha família não implicava no deslocamento de qualquer palestino, e salvou a vida dos meus quatro avós. Esse ideal tornou possível o único espaço no qual eu poderia ter nascido. Sua imigração nos anos 1930 – sem esquecer a campanha do exército britânico na África do Norte – foi o que impediu que a Wehrmacht e a SS matassem os meus pais quando ainda eram muito pequenos.
Certamente, esses avós acreditavam em um estado para os judeus e para todos os seus cidadãos, em uma antiga reivindicação (judaica) por aquela terra e na construção de uma comunidade justa, que fosse um país ou um grande kibbutz. Mas sua principal razão para partir não era ideológica, mas de sobrevivência.
Na minha família, a sobrevivência passou pela imigração. Aquilo que o meu pai mais tarde chamou de “justificativa do bote salva-vidas”: o sionismo não como destino, nem como ideologia, mas como refúgio.
Somente o fato bruto de que multidões inteiras de judeus somente sobreviveram por causa do sionismo não me obriga a ser sionista. Não me impõe qualquer narrativa histórica nem qualquer romance nacional específico. Contudo, obriga-me a tentar ser honesta.
Alguns outros historiadores israelenses chegaram à conclusão moral que o sionismo não deveria jamais ter acontecido, e que a existência mesma de Israel é, portanto, injustificável. Suas biografias são, talvez, diferentes da minha. Suas famílias tiveram, talvez, outras possibilidades. Eles são, talvez, melhores historiadores, ou melhores seres humanos, mais desapegados do que eu, capazes de tratar o fato mesmo de suas próprias existências como moralmente indiferente.
Eu respeito sua seriedade intelectual. Mas sou incapaz de segui-los. Não posso considerar a sobrevivência dos meus avós e o meu próprio nascimento como uma nota de pé de página em uma argumentação teórica. O sionismo salvou-lhes as vidas. Tornou possível o único espaço onde eu poderia ter nascido. E eu me recuso a banalizar esses fatos.
O sentimento palestino de pertencimento a uma terra ancestral merece um respeito de igual ordem. Ninguém deve partir, nem os judeus israelenses, nem os palestinos. Eu gostaria que os dirigentes do mundo e, mais fortemente, o meu próprio governo, houvessem, de início, proclamado esse ponto de partida elementar. Na falta do qual se põem em movimento as monstruosidades do jogo de soma zero: do rio ao mar, por todos os meios, destruir Israel, apagar Gaza. Um mundo de falsos amigos que pregam cada vez mais sangue.
A herança dos dois estados
Na última década de sua vida, meu pai costumava dizer ao seu público, com humor, que ele não era nem pró-Israel, nem pró-Palestina, mas pró-paz. Meu título parafraseia-o deliberadamente: como nos ensinou Isaiah Berlin, nós temos o direito de parafrasear os autores mortos – para o seu próprio bem.
Amós Oz era certamente pró-Israel, e também pró-Palestina, ao seu modo. Ele era profundamente ligado ao Estado de Israel, e eternamente entusiasta da língua e da cultura hebraicas modernas. Ele foi, também, um dos primeiros israelenses da sua geração a sustentar a existência de um estado palestino ao lado de Israel, entre o rio e o mar. Era a sua ideia de compromisso, palavra esta que, no seu vocabulário, era positiva. Era a sua ideia de paz, que significava, para ele, que ambas as nações sobreviveriam e prosperariam, não em se unindo, mas em se dividindo e partilhando.
O movimento crescente de nacionalistas judeus que coloniza a Cisjordânia e Gaza não é hiper-sionista, mas antissionista: mina o próprio cerne daquilo que justifica a existência de um estado para os judeus na terra de Israel.
Por que não um único estado? Por que os judeus e os árabes não podem viver como uma única família feliz? Porque – e essa é a última citação do meu pai que farei – nós não somos um, nós não somos felizes e nós não somos uma família. Se querem a paz no Oriente Médio, ele dizia, ajudem-nos a nos divorciar e dividir em dois o nosso minúsculo território.
Eu tinha sete anos quando a Guerra dos Seis Dias estourou, e dezessete quando, sentada sobre o tapete do apartamento dos meus pais no kibbutz, eu vi nascer o movimento Paz Agora. Eu estava lá quando o meu pai entretinha diálogos com intelectuais palestinos, Sari Nusseibeh no primeiro escalão, e quando ele se juntou à equipe de negociação dos acordos de Oslo para ajudar a colocar em palavras a preciosa idéia de um compromisso territorial. Eu sou, literalmente, a filha de uma solução de dois estados.
A persistência das palavras
Eu chego, então, a um problema de outra ordem: não mais a realidade política, mas o idioma no qual a descrevemos. Discutamos a morte das palavras e a falência dos conceitos. Atualmente abundam os obituários semânticos e precisamos de novas filosofias da linguagem para enfrentar isso. Porque as ideias, as palavras e os conceitos não morrem simplesmente porque desejamos a sua morte, ou porque os julguemos ultrapassados, historicamente kaputt, teoricamente insuportáveis. Na sequência do 07 de Outubro, afirmou-se que a solução de dois estados estava morta. Alguns o dizem com tristeza, outros com júbilo. Eu contesto-os.
Outros, incluindo aí os intelectuais judeus liberais que estimo, me dizem que o termo sionismo pereceu e que é urgente sepultá-lo o quanto antes porque – em síntese – os influenciadores obtiveram êxito em convencer a maior parte da humanidade digital de que sionismo equivale a nazismo. Meus amigos se inquietam, com razão, ao ver-me arrastar o peso-morto de uma palavra vilipendiada.
É uma dissonância insuportável viver entre os judeus israelenses e, ao mesmo tempo, à escuta do resto do mundo. Uma dissonância inacreditável que descredibiliza tudo que pudemos pensar sobre a internet como um meio de comunicação universal. Ela não o é. É mais uma torre de Babel, e perigosa.
Enquanto historiadora das ideias, formada em Tel-Aviv e Oxford, eu gostaria de sugerir que os conceitos e vocábulos não morrem assim tão depressa. Nós os declaramos, por vezes, mortos, porque desejamos ardemente que assim estejam. Eu gostaria de recordar que uma grande maioria dos sete milhões de cidadãos judeus de Israel ainda se dizem sionistas, incluindo uma parte surpreendente e crescente de ultra-ortodoxos. Muitos com uma fé fervorosa na verdade e na justiça da sua própria narrativa histórica. Esse sentimento de identidade encontra-se hoje dirigido contra milhões de palestinos, de amigos e de auto-proclamados amigos dos palestinos, entre eles um poderoso contingente de acadêmicos e intelectuais públicos. Duas convicções grandiloquentes e unilaterais que não podem senão produzir um jogo de soma zero banhado em sangue.
Não podemos falar de manifestantes pró-Palestina sem perguntarmos de qual Palestina eles são partidários. Não podemos falar de manifestantes pró-Israel sem nos perguntarmos de qual Israel eles são partidários.
Como, de fato, vocês esperam “desionizar” toda essa gente? Nós dizíamos outrora que o iídiche é um dialeto e o hebraico, uma língua, porque o hebraico possui um exército e o iídiche, não. De igual modo, e de maneira crua, para além de qualquer justificativa moral ou histórica, o sionismo é hoje uma ideologia dotada de armas nucleares. Aqueles que se identificam com essa causa não darão ouvidos à crítica teórica e resistirão pela força bruta, ainda que essa resistência os torne ainda mais brutais. A força bruta tampouco pode, de igual maneira, debelar o movimento nacional palestino, como vimos aprendendo às nossas próprias custas.
O sionismo – na sua essência, o credo de Herzl – possui um núcleo bastante sucinto. Tudo que o circunda ou é gordura, da qual se pode prescindir, ou uma distorção odiosa, uma espécie de cancro como aqueles que, por vezes, na história das idéias, se agarram a um conceito fundamental para o seu infortúnio. Eu não deixarei nunca de repetir a fórmula de Herzl, porque ainda estou pronta para defendê-la com a minha vida: o povo judeu tem direito a um estado moderno no seu território ancestral.
Aí está o núcleo sucinto ao qual Herzl adicionou um elemento: que o estado judeu seja uma democracia liberal, ou seja, um país democrático, garantidor de direitos civis iguais aos seus cidadãos judeus e não judeus. A declaração de Independência de Israel o diz de maneira concisa: “[o Estado de Israel] será fundado sobre a liberdade, a justiça e a paz, tal como a conceberam os profetas de Israel; ele assegurará uma completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, sem distinção de religião, raça ou gênero; ele garantirá a liberdade religiosa, de consciência, língua, educação e cultura”.
Reside aí uma parcela imensa do DNA fundador do movimento sionista, e é por essa razão que toda política antidemocrática e contrária à igualdade civil, venha ela do atual governo ou de certos antecessores, é essencialmente antissionista. Em primeiro lugar, a Lei Básica de 2018, dita sobre o Estado-Nação.
Vejamos, então, as notícias da Terra Santa: a conversa interna em Israel, antes como hoje, não passa pela demolição do sionismo, mas pelo abismo que se abre entre o sionismo de Herzl e da declaração [de Independência] e o pretenso sionismo de Netanyahu e de Ben Gvir. O segundo será, talvez, desmanchado nas próximas eleições. O primeiro não morrerá tão cedo, qualquer que seja o número de professores pós-coloniais e de estudantes engajados que o condenem conceitualmente.
Em outras palavras: o Estado de Israel existe, e se a sua existência não fosse colocada à prova, não haveria sionismo algum. Nenhum outro estado dispõe de uma ideologia comparável para defender a sua existência pela simples razão de que a sua existência não é, jamais, questionada.
Enquanto sete milhões de judeus israelenses permanecerem encolhidos em posição fetal, dominados pelo medo existencial pelo seu país, eles empregarão o termo sionismo. Ele não desaparecerá – e que venha esse dia – enquanto israelenses e palestinos não tiverem, ambos, um lar nacional seguro na sua terra ancestral. Dois estados ou uma confederação inovadora.
Os dois antissionismos
Existem dois tipos distintos de antissionismo e a diferença entre eles é, primeiramente, temporal.
O primeiro é o antissionismo histórico, que sempre foi simultaneamente legítimo e amplamente difundido. Na Europa oriental do começo do século XX, muitos judeus rejeitavam o sionismo por razões de princípios: crenças religiosas, para alguns, ideais socialistas ou cosmopolitas, para outros. Para eles, a questão era saber se os judeus deveriam almejar a uma soberania.
A história não tratou essas opções igualmente. Muitos daqueles que rejeitavam o sionismo foram destruídos pela catástrofe que se seguiu, enquanto aqueles que emigraram, sobreviveram. Na minha família, a sobrevivência passou pela imigração. Aquilo que o meu pai mais tarde chamou de “justificativa do bote salva-vidas”: o sionismo não como destino, nem como ideologia, mas como refúgio.
O Estado de Israel existe, e se a sua existência não fosse colocada à prova, não haveria sionismo algum. Nenhum outro estado dispõe de uma ideologia comparável para defender a sua existência pela simples razão de que a sua existência não é, jamais, questionada.
A segunda forma é o antissionismo contemporâneo, que trata de uma questão inteiramente diversa: não mais se o sionismo deveria ter surgido, mas se o estado de Israel tem o direito de continuar a existir.
Essa distinção é decisiva. Discutir o sionismo antes de 1945 era discutir uma possibilidade. Rejeitar Israel hoje é bater-se com uma realidade consolidada: milhões de pessoas com um estado, uma sociedade e nenhum lugar para onde ir.
Confundir esses dois antissionismos, por preguiça intelectual ou talvez por desonestidade manipuladora, não é somente uma falha do ponto de vista analítico. Isso oculta o que está moralmente em jogo no presente: a possibilidade de uma solução sem derramamento de sangue, tanto para os palestinos, quanto para os judeus.
Os falsos amigos e o conflito entre a justiça e a paz
A cada vez que um bom jornal como o New York Times ou o Guardian noticia o confronto entre pró-palestinos e pró-israelenses, sinto-me ludibriada. É quase sempre uma simplificação enganadora, por vezes manipuladora. Não podemos falar de manifestantes pró-Palestina sem perguntarmos de qual Palestina eles são partidários. Não podemos falar de manifestantes pró-Israel sem nos perguntarmos de qual Israel eles são partidários.
Se, como venho de sustentar, Israel e Palestina não formam um jogo de soma zero, então o que há de pró-palestino no desejo declarado de destruir Israel? Nenhum desejo genocida contra os judeus tem qualquer coisa de pró-palestino.
Igualmente odiosa é a postura que pretende ser pró-Israel desejar que os palestinos desapareçam do mapa, sua submissão ou sua limpeza étnica. Nenhum desejo genocida contra os palestinos é pró-Israel.
Toda política antidemocrática e contrária à igualdade civil, venha ela do atual governo ou de certos antecessores, é essencialmente antissionista.
O mundo está hoje repleto de falsos amigos. Muitos tentam fazer a quadratura do círculo clamando por uma solução de estado único: a solução da “família feliz”. Agora é a minha vez de empregar a formulação triste: não mais, depois de 07 de Outubro. Não enquanto eu viver. E, sem dúvidas, não enquanto meus filhos estiverem vivos.
Não vai haver cidadania comum entre os combatentes da Nukhba e as avós dos kibbutzim. E visto a partir de Gaza, compreendo que me digam que não haverá uma cidadania comum entre civis bombardeados, enlutados e deslocados e os soldados do Tsahal que, por vezes, cometeram crimes de guerra contra eles. Este não é o momento certo para casarmo-nos. Um “e viveram felizes para sempre”? Talvez mais tarde.
Eu não peço às pessoas de boa vontade que renunciem ao sonho de um estado único. Eu digo, simplesmente, que ele não poderá vir nessa geração e nem na seguinte. Os dois estados, por sua vez, sim, podem. Eles não são nem minha quimera, nem minha utopia messiânica, e certamente não são a justiça. Mas são certamente um horizonte viável de coexistência, e um bote salva-vidas para as duas nações.
O que me traz à questão da justiça e da paz. Nós estamos habituados a ver esses termos emparelhados na tradição judaico-cristã – “a justiça e a paz abraçar-se-ão”. Mas no mundo de hoje, a paz desapareceu de quase todos os vocabulários políticos, exceto naquele de uma esquerda irredutível. Devemos acrescentar, inclusive, que existe um uso ultranacionalista e racista do vocábulo shalom (paz) entre os defensores da colonização de Gaza e os partidários da limpeza étnica da Cisjordânia. A paz deles é a paz de um cemitério, a da superioridade judaica e do sonho claudicante do desaparecimento dos palestinos. Mas a maioria dessas vozes simplesmente não menciona a paz inteiramente. Não menos do que o fazem a maioria das declarações públicas das pretensas vozes pró-palestina.
A grande exceção, exceção preciosa, são os cidadãos árabes de Israel, ou palestinos israelenses. Representantes políticos como Mansur Abbas ou Ayman Odeh falam abertamente de paz no quadro de uma solução de dois estados e propõem, mais amplamente, um nível mais alto de coesão entre judeus e árabes de Israel. Outros grupos avançam ideias ainda mais originais, como um quadro estatal único para duas nações livres e independentes. Todas as ideias originais são bem-vindas.
O termo justiça, por outro lado, incide resolutamente do lado palestino naquilo que eu chamei de jogo de soma zero. Ele serve frequentemente de eufemismo aceitável para fins que não podem ser obtidos senão pela violência (com a palavra “resistência” fazendo papel de eufemismo aceitável para violência). Trata-se de um apelo à limpeza étnica de judeus, como no slogan “voltem para a Polônia” e seu gêmeo ainda mais tolo, “voltem para a Alemanha”. Uma tal concepção da justiça é o exato oposto da paz, ou almeja a paz de um cemitério. Porque ela supõe que os judeus que fundaram Israel não possuíam justiça alguma de sua parte. E essa revogação, essa anulação da pretensão judaica e sionista à justiça, se encontra perfeitamente corroborada pelas teorias pós-coloniais.
É por isso que acredito que a teoria pós-colonial não pode ser o único paradigma. Qualquer que seja seu potencial explicativo, ela não abrange inteiramente a verdade tal como eu a conheço e tal como alguns a conhecem comigo. Eu me atenho, nesse ponto, então, ao legado de meu pai: à teoria das justiças tragicamente conflituais, que devem se reconciliar através do comprometimento.
Há dois tipos de tragédia, dizem: a shakespeariana e a tchekoviana. Na primeira, a cena está repleta de corpos quando a cortina cai, e um vago aroma de justiça total paira em um ar acre. Na segunda, a cena final deixa a todos feridos, decepcionados, desiludidos e infelizes – mas vivos.
Conclusão: o pragmatismo do devir
Abro minha conclusão com o maravilhoso poeta israelense Yehuda Amichai: “no lugar onde temos razão”, ele escreve, “nenhuma flor brotará”. De minha parte, recomendo uma paz injusta ao invés de uma justiça sem paz.
Eu gostaria, portanto, de recordar um traço esquecido do sionismo original. A visão de Herzl era intensamente futurista e utópica, cheia de amor e confiança na modernidade, na técnica e no racionalismo. Outros sionistas foram mais realistas, e foi precisamente esse realismo que fez nascer uma outra virtude do movimento original, ilustrada por Chaim Weizmann e David Ben Gurion: o pragmatismo. Eles atribuíam um peso considerável à diplomacia e uma importância enorme à legalidade. A resolução 181 da ONU, em 1947, foi o seu Graal, o bilhete de ingresso, tanto tempo aguardado, dos judeus na comunidade internacional.
Os governos israelenses recentes deixaram de lado esses valores sionistas originais – realismo, pragmatismo, moderação – e os dilapidaram. Eles não apenas rejeitaram o engajamento herzliano pela democracia liberal, como também, tal qual os defensores fanáticos do segundo templo no primeiro século, eles jogaram fora, pela janela, a razão de Estado. Pior ainda, eles extirparam tudo o que restava do humanismo que o sionismo original cultivava: o sonho de Herzl de tornar o mundo melhor para os judeus, para os árabes e para a humanidade moderna como um todo.
As próximas eleições israelenses são historicamente decisivas. Se somos milhares engajados no ativismo civil e político, é precisamente porque a janela de oportunidade permanece aberta para democratizar Israel e retomar – tristes, desiludidos e desanimados – o processo de paz no interior de fronteiras seguras e juridicamente reconhecidas.
E ao meu neto, eu digo o seguinte: o Estado Nacional não é sagrado. Ele não é a nossa herança milenar, vinda de tempos imemoriais. Ele é um mecanismo moderno e profundamente imperfeito que será um dia substituído por arranjos governamentais melhores, regionais ou globais. Então, o sionismo e todos os outros movimentos nacionais estatais serão relegados às cinzas da história – trágicas, ensanguentadas, e há muito ultrapassadas. A justiça e a paz abraçar-se-ão novamente, e as flores brotarão.
Até lá, a nossa tarefa é mais modesta e mais difícil: escolher a nuance contra o absoluto, a vida contra a pureza, o compromisso contra o desespero.
Tradução: André Vaillant
Esse texto foi pronunciado como uma conferência durante a Massada Annual Lecture do Worcester College, na Universidade de Oxford, no início do verão de 2026, a convite de Naomi Rokotnitz. Foi publicado em inglês na Fathom.