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K. Os Judeus, o Mundo, o Século XXI
Criar uma conta

Do Judeu imaginário ao Judeu inexistente 

Trechos de “Brève histoire des croyances et préjugés antisémites” (Seuil, abril 2026)

Com o livro “Breve história das crenças e preconceitos antissemitas” (em tradução livre, título não traduzido ao português brasileiro até o momento), Pierre Savy e Lisa Vapné propõe uma síntese da longa história dos fantasmas, estereótipo e hostilidades dirigidas contra judeus. Os autores remontam a circulação de dez tropos que se sobressaem desde a Antiguidade até a época contemporânea, examinando sua singularidade, ou a falta dela, dentro do contexto mais amplo dos discursos racistas. O excerto que publicamos explora o paradoxo de um frenesi imaginativo que inevitavelmente produz judeus ficcionais, como se o antissemita não pudesse prescindir daqueles que ele gostaria de ver desaparecer.

O judeu errante, circa 1900 (c) mahJ

Acabamos de retraçar a história de ideias que circulam desde a Antiguidade, a Idade Média ou ainda o século XIX, e que expressam, cada uma à sua maneira, uma hostilidade em relação aos judeus. Essas ideias se retroalimentam e tornam umas às outras possíveis; às vezes, são impulsionadas umas pelas outras: sem a acusação de deicídio não teria havido a de traição; sem a acusação de misantropia, a de complô contra a humanidade não seria possível; e assim por diante. A máquina parece ter saído do controle.

Escrever uma história das crenças e preconceitos antissemitas é, portanto, traçar a partir de fontes extremamente diversas e por vezes até contraditórias, o retrato de um judeu monstruoso que, ao mesmo tempo, teria matado Jesus, odiaria o próximo, conspiraria contra ele, seria lascivo e ganancioso, teria cauda e chifres, não amaria sua pátria e, aliás, não teria nenhuma, exceto talvez Sião, mas que possuiria, ainda assim, algum talento para a música e certa inteligência, ainda que malfazeja. Esse homem, mosaico das crenças e preconceitos antissemitas, ninguém jamais encontrou, e por uma boa razão: ele não existe. Não existe, embora traços pouco amáveis possam ser encontrados em judeus, aos quais se deveria deixar o direito de ter tantos defeitos quanto o restante da humanidade. Ele não existe, salvo talvez na mente dos antissemitas mais fanáticos.

Pois escrever essa história equivale a interessar-se pelo que certos homens e mulheres, em épocas e contextos muito diferentes, tinham em mente sobre outros homens judeus ou mulheres judias, antes mesmo de encontrá-los, no momento de encontrá-los ou, sobretudo, sem jamais tê-los encontrado… Foi no Ocidente cristão que, desde o fim da Antiguidade, a partir da acusação dirigida ao “povo deicida”, desenvolveu-se a maior parte das crenças e preconceitos que relatamos. A partir do fim da Idade Média, a hostilidade se torna mais intensa e prospera mesmo na ausência de judeus. Como escreveu Poliakov, “se o judeu [não existe] mais, ele é inventado, e a população cristã, se depara cada vez menos com judeus na vida cotidiana, é cada vez mais assombrada por sua imagem, que reencontra em suas leituras e avista em seus monumentos”. Quando William Shakespeare cria seu personagem Shylock, numa intriga situada em Veneza, ele jamais havia encontrado judeus reais. É, portanto, a uma personagem de ficção que se deve a mais famosa encarnação do estereótipo que associa os judeus ao dinheiro – antes que a família Família Rothschild passasse a ocupar esse papel. 

Nota-se: os preconceitos antissemitas têm vida própria, eles existem na presença dos judeus e, mais ainda, em sua ausência, como fantasias sem judeus, pois somos obrigados a imaginar aquilo que não vemos. “O antissemitismo sem judeus” é uma expressão pertinente, que aparece aqui e ali em ensaios e livros de história, e que nos lembra que os preconceitos antissemitas dizem respeito acima de tudo a judeus fictícios, embora, e aí reside a essência do problema, suas consequências possam atingir de fato judeus reais.

Pierre Savy e Lisa Vapné

Esses judeus reais formam um povo muito pequeno, segundo a própria admissão do Deus da Bíblia (Deuteronômio 7:7). Alguns são tentados a ver na sobrevivência desse grupo antigo e pouco numeroso uma forma de milagre, resultado da proteção divina. Mas que proteção estranha, que passa por tantos infortúnios! E, sobretudo, o milagre e a proteção divina não pertencem aos instrumentos de explicação do historiador. Seja como for, a persistência dos judeus apesar de tudo pode ser explicada por fatores complexos, mas ela não deve ocultar um fato inverso: o da rarefação do povo judeu. Pode-se estimar que hoje existam no mundo aproximadamente tantos judeus quanto havia há um século: bela resiliência, que teria permitido retornar ao nível anterior à Holocausto, durante o qual 40% da população judaica mundial foi assassinada? Não exatamente: nesse mesmo período, a população mundial foi multiplicada por mais de quatro. Embora o projeto nazista de eliminação total tenha fracassado, essa cifra revela antes um declínio considerável em termos relativos do que uma estabilidade demográfica. Três fatores explicam esse declínio: o extermínio, a assimilação e o fato de que a maior parte dos judeus viveu e vive no mundo ocidental, que já completou sua transição demográfica. A possibilidade de um mundo não sem judeus, mas em que a presença judaica seja muito mais rara e concentrada do que foi desde a dispersão ocorrida há dois milênios, é portanto bastante real e, em parte, já concretizada: por mais que se repita incessantemente que existem comunidades judaicas por vezes prósperas em mil lugares diferentes, da Argentina à Alemanha, de Hong Kong ao Reino Unido etc., permanece o fato de que, exceto em Israel, essa presença é muito pequena, ou até ínfima, cerca de 1,7% da população nos Estados Unidos e menos de 1% em todos os demais lugares. Os preconceitos antissemitas têm vida própria, eles existem na presença dos judeus e, mais ainda, em sua ausência, como fantasias sem judeus, pois somos obrigados a imaginar aquilo que não vemos.

Gostaríamos de apresentar mais alguns números, mostrar quantos judeus reais existiam em cada país na época em que judeus fictícios eram odiados, escrever que os judeus na França eram poucos durante o caso Dreyfus, ou que os de Kielce, na Polônia, eram apenas um punhado antes do pogrom que os teve como alvo em 4 de julho de 1946; gostaríamos de especificar que os judeus hoje representam apenas 0,2% da população mundial, que quase não restam judeus no mundo árabe ou no Irã e que sua presença parece residual em muitos países onde há não tanto tempo foi tão importante (Turquia, Holanda, Polônia e o antigo espaço pós-soviético, etc.), e, assim, mostrar que os antissemitas dedicam muita energia a odiar uma população tão reduzida. Mas, ao fazê-lo, corremos o risco de cair na nossa própria armadilha, porque relembrar que os judeus são poucos numerosamente é um argumento pouco convincente para os antissemitas, que imediatamente retrucariam que os judeus têm um peso considerável para um povo tão pequeno, o que é suspeito, ou que podem parecer poucos em número, mas que isso ignora a sua presença invisível — em suma, que, como escreveu Drumont, “em várias formas e diferentes disfarces, o judeu está, na realidade, em todo o lado”. Muitas fantasias superestimam o número real de judeus, apagando o fato objetivo de sua fragilidade numérica.

Os Judeus fictícios, inencontráveis, imaginados ou imaginários, os judeus que partiram ou foram perseguidos, os judeus que não existem mais porque foram exterminados, os judeus raros: todas essas figuras apontam para a mesma possibilidade da inexistência dos judeus, o que é uma espécie do auge da fantasia antissemita, uma possibilidade que seria ao mesmo tempo sonho e pesadelo para aqueles que, embora certamente sonhem com um mundo Judenrein, livre de judeus, ao mesmo tempo pensam constantemente nesse povo desprezado e às vezes vivem apenas através dessa obsessão.

Colocar em série diversas formulações que giram em torno dessa ideia de uma inexistência dos judeus produz um efeito no mínimo perturbador: “Já não há judeus nem gregos” (Paulo de Tarso, São Paulo para os cristãos). “A emancipação judaica consiste em emancipar a humanidade do judaísmo” (Karl Marx). “É o antissemita que faz o judeu” (Jean-Paul Sartre). “Os judeus desapareceram” e “Palestinos é o nome dos verdadeiros judeus” (Alain Badiou), etc. Tais formulações devem, por vezes, ser entendidas em sentido puramente teológico ou supostamente filosófico; outras vezes exprimem uma defesa desajeitada dos judeus: é preciso, portanto, ter cuidado para não as confundir. Mas todas remetem ao fato, examinado sob perspectivas diversas e muitas vezes bastante conflitantes em um número considerável de livros escritos há uns vinte anos, de que os judeus constituem manifestamente um obstáculo a uma certa concepção do mundo como aberto e indistinto, da sociedade como ilimitada e totalizante e do homem como universal e, por assim dizer, sem qualidades: a singularidade judaica, obstinada, essa fidelidade que consiste em “permanecer judeu”, na célebre expressão de Leo Strauss, é algo intolerável para essa concepção 

Nossa ambição aqui não é, como já assinalamos, propor uma nova teoria geral do antissemitismo, que desse conta de suas molas propulsoras e, sobretudo, de suas causas, ou mesmo de sua causa primeira. Essa última questão, a da causa, é colocada com frequência. Ela é vertiginosa. Por que os judeus? Há várias respostas e, para começar, deve-se salientar que os judeus não são os únicos grupos humanos a serem objeto de crenças e preconceitos negativos, por vezes assassinos. Outros grupos étnicos são ou foram objeto de violências terríveis. Houve outros genocídios. E até mesmo outros grupos, constituídos de outra maneira, como as mulheres, que não foram, e com razão, ostracizadas do mesmo modo, são vítimas de crenças e de preconceitos e de uma violência muitas vezes mortífera. Essa constatação desoladora não deve dispensar um olhar abrangente e atento às especificidades sobre todas essas crenças e todos esses preconceitos antissemitas que evocamos.

Os judeus constituem manifestamente um obstáculo a certa concepção do mundo como aberto e indistinto, da sociedade como ilimitada e totalizante e do homem como universal e, por assim dizer, sem qualidades.

Parece-nos, em primeiro lugar, que, entre elas, uma desempenhou um papel cuja importância dificilmente se exageraria: o deicídio. Ele inevitavelmente coloca os judeus no cerne da identidade cristã, inclusive quando não há judeus reais: esse vínculo ontológico e necessariamente complexo (mas não necessariamente odioso, sejamos claros) entre judaísmo e cristianismo (e consequentemente o Islã) também explica esse antissemitismo sem judeus que evocávamos há pouco. O deicídio, portanto, ou mais amplamente esta ligação íntima com um sistema religioso de imensa influência, o cristianismo: eis a mais importante das armas desse arsenal antissemita, mas não a única. Afinal, e este é o segundo ponto que queremos apresentar aqui, esse arsenal é vasto (há cerca de dois mil anos que ele se constitui e é reativado, ao longo de períodos por vezes muito extensos) e o impacto cumulativo de seus desdobramentos é assustador, como que por um efeito bola de neve. Encontram-se milhares de fontes, recursos, temas, autores, motivos antissemitas; sua quantidade, sua consistência e sua variedade são consideráveis, o que constitui um alimento inesgotável para o ódio antissemita. Esse arsenal acaba por provar a si mesmo: se há tantas coisas, é porque deve haver algo. Esse não é um raciocínio válido, mas mais de um antissemita o adota.

Resta compreender por que essas crenças e esses preconceitos antissemitas, de modo geral, para além de tudo o que os diferencia, exercem uma atração tão forte. Numa conferência proferida em 1961, o filósofo judeu alemão Max Horkheimer apresentava uma reflexão pessimista sobre o preconceito de ódio, que descrevia como “inabalável, porque permite ao sujeito ser mau ao mesmo tempo em que se julga bom”. A essa dimensão moral soma-se uma valorização de si que um preconceito coletivo opera mecanicamente: Horkheimer lembra que “o preconceito negativo é um só com o preconceito positivo”, no sentido de que um implica o outro, de que são as duas faces de uma mesma moeda. Quando falo mal dos outros, valorizo os meus (e, assim, a mim mesmo): como todo preconceito racial, o antissemitismo me valoriza implicitamente; ele é bom, sobretudo em tempos de crise e de dúvidas, ele infla o meu eu. Eis um primeiro benefício proporcionado pelo preconceito negativo racista (e não apenas pelo preconceito antissemita, uma vez que, apesar das especificidades, os mecanismos dos preconceitos ecoam uns nos outros).

Que outros benefícios existem? A explicação de quase todas as desgraças do nosso tempo (“a culpa é dos judeus”) é um deles, e dos maiores: atribuir as desgraças — as minhas, em particular — a um grupo é um procedimento confortável, porque é dotado de uma capacidade explicativa ao mesmo tempo poderosa e simples e porque é perfeitamente desculpabilizante. Algo forte está em jogo em torno da falta, desse sentimento de culpa, desse staus de vítimas: parece-nos que o ódio antissemita oferece os benefícios de um gozo, sobretudo por sua natureza fantasticamente vingativa — contra a “misantropia” judaica, contra aquelas vítimas judias inocentes cuja lembrança assombra o Ocidente. Nada é melhor, então, do que inverter os papéis e incriminar as vítimas. Conhece-se a frase célebre e tristemente atual pronunciada por Vladimir Jankélévitch em 1971: “E se os próprios judeus fossem nazistas? Seria maravilhoso.” A construção por meio de crenças e preconceitos de uma imagem do judeu fantástica, até mesmo mitológica, que legitima e autoriza o ódio e que apaga as faltas passadas, não é o menor dos encantos venenosos do antissemitismo. Esperamos que conhecer seus principais motivos e as principais razões de sua atração possa ajudar a combatê-los melhor.

Brève histoire des croyances et préjugés antisémites, Seuil, avril 2026, 288 pages, 19 €.

Tradução: Márcia Sussermann

Foto de Lisa Vapné

Lisa Vapné

Lisa Vapné é doutora em ciência política, especialista no mundo judaico da Europa Oriental. Pesquisadora independente e tradutora, colabora regularmente em filmes de história.

Foto de Pierre Savy

Pierre Savy

Pierre Savy é docente em história da Idade Média na Universidade Gustave Eiffel. Organizou Histoire des Juifs. Un voyage en 80 dates, de l'Antiquité à nos jours (História dos judeus. Uma viagem em 80 datas, da Antiguidade aos nossos dias, PUF, 2020) e, em 2023, publicou, também pela PUF, Les princes et les Juifs dans l'Italie de la Renaissance (Os príncipes e os judeus na Itália da Renascença).