Antijudaísmo e a instrumentalização antissionista do universal
Trechos selecionados de Julien Chanet, O incêndio universal: a questão do antissionismo na esquerda (Crise et Critique, 2026; ainda sem tradução).
No mês passado, apareceu nas edições Crise et Critique O incêndio universal: a questão do antissionismo na esquerda, de Julien Chanet. A partir de uma perspectiva antirracista e anti-autoritária, o autor desenvolve ali uma reflexão solidamente apoaida sobre a história do sionismo e o papel que o antissionismo veio a desempenhar para uma parcela da esquerda, com suas consequências ideológicas impremeditadas. Nós publicamos aqui alguns trechos selecionados, sobretudo acerca da questão da reciclagem paradoxal do antijudaísmo cristão pela lógica pretensamente universal do antissionismo contemporâneo.
Comecemos por uma conferência proferida por Jacques Ehrenfreund algumas semanas depois do 07 de Outubro, a fim de compreender a maneira como um entusiasmo inicialmente anti-judaico, e então anti-israelense, se perpetua e se reconfigura1. O historiador recordou, na ocasião, as origens fundamentais do antijudaísmo cristão tradicional, ao menos até o Concílio Vaticano II (1965), sublinhando o papel central da teologia da substituição. Essa, por sua vez, postula que a humanidade teria atingido um progresso decisivo com a vinda do Cristo Redentor, tendo passado de um mundo de particularismos tribais dispersos – aquele do “velho testamento” – para a unidade espiritual da comunidade dos homens, o povo de Deus do “novo testamento”, dali em diante “livres da obsessão do povo e da lei”.
O universalismo cristão como fim da história
Nesse esquema, os judeus se tornam vestígios de um mundo ido: suficiente minoritários para que sua persistência sirva de recordação do passado sem ameaçar o horizonte de uma comunhão universal vindoura. Essa é, ao menos, a concepção canônica da igreja primitiva, notoriamente formulada por um de seus padres fundadores, Santo Agostinho. Presos nas garras de um sistema de pensamento profundamente xenófobo, ele identifica os perigos que ameaçam o mundo sob uma perspectiva judaica e apresenta “os judeus como antítipo não apenas dos cristãos, mas também dos seres humanos em geral”2. Contra a concepção mais radical atribuída a João, Agostinho preconiza, no entanto, que não se mate os judeus. Como esclarece David Niremberg: “os judeus são os melhores garantidores da veracidade da Lei. (…) Como os fósseis para os naturalistas, a presença dos judeus sobre a terra é a prova de uma etapa anterior, hodiernamente superada, no percurso da evolução soteriológica”. Importa aqui sermos precisos: o antijudaísmo cristão de matriz agostiniana se constitui simultaneamente contra os judeus e independentemente da sua presença concreta, através da figura do “judeu hermenêutico”. Alimentado tanto pelo antijudaísmo pagão quanto pela xenofobia de Estado característica do Império Romano, ele almeja conter e neutralizar o poder simbólico do judaísmo, na sequência da fundação fratricida do cristianismo. Esse empreendimento passa pela redução dos judeus à funções instrumentais – “marcos”, “exilados”, “púlpitos”3 – destinados a balizar o caminho para uma nova compreensão do mundo, definida em oposição a eles. Ehrenfreund constata que o antisssemitismo moderno rompeu, por algum tempo, com o antijudaísmo cristão clássico para produzir uma imagem do judeu doravante puramente negativa, aí incluso seu poder fantasiado. Essa ruptura foi, todavia, de curta duração.
A memória do extermínio dos judeus torna-se, paradoxalmente, o sustentáculo mesmo de uma superação da História: ela é convocada a garantir o ingresso em um mundo pacificado, liberto das violências do passado. O ano de 1948, com a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi assim interpretado como aquele do surgimento de um novo mundo reconciliado consigo mesmo.
Como relembram Adorno e Horkheimer, “os antissemitas se fizeram os executores do Antigo Testamento: garantem que os judeus que provaram do fruto da árvore do conhecimento retornem ao pó”4. Em outras palavras, o antissemitismo racial moderno não aboliu a herança teológica, mas radicalizou alguns de seus motivos. Depois da Shoah, um poderoso movimento de deslegitimação do antissemitismo racial atravessou a Europa. Esta reatou, então, com uma forma de “ambivalência” herdada do seu antigo antijudaísmo. O sentido da História é doravante pensado como uma saída da história conflitual, para que pudessem advir a paz e a unidade das nações reconciliadas, além dos particularismos e narrativas nacionais antagonistas. Nesse quadro, a memória do extermínio dos judeus torna-se paradoxalmente o sustentáculo mesmo de uma superação da História: ela é convocada a garantir o ingresso em um mundo pacificado, liberto das violências do passado. O ano de 1948, com a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi assim interpretado como aquele do surgimento de um novo mundo reconciliado consigo mesmo. Essa autoproclamada ruptura com o particularismo, com a eleição e a inscrição nacional da identidade, encontra uma formulação filosófica emblemática em Hegel: “Não é senão no princípio cristão que o espírito individual essencialmente adquire um valor infinito, absoluto; Deus deseja contribuir para a salvação de todos os homens”5. O universalismo cristão se torna, assim, o quadro normativo do segundo pós-guerra.

É neste contexto que a criação do estado de Israel em 1948 – reatando um elo político e material entre os judeus e uma terra – reaviva a antiga acusação de uma afronta judaica em recusar a dissolver-se na comunhão universal. Em outras palavras, nota Ehrenfreund, “os judeus deram prova uma vez mais de não haver compreendido a mensagem universalista”. Os sionistas aparecem agora como os judeus do “antigo testamento”, judeus na contramão da História. Como escreveu a historiadora Karma ben Johanan: “Os críticos do sionismo não detestam o Estado de Israel por se tratar de um projeto judeu, como se poderia esperar de antissemitas convictos. Ao contrário, a oposição a Israel não é um ódio dirigido puramente contra judeus onde quer que estejam, mas contra judeus em todos os lugares onde se recusem a compreender o “verdadeiro” sentido da história judaica”6. Ehrenfreund acrescenta, na mesma toada: “A Shoah deveria ter-lhes feito compreender que seu particularismo acabou”. Ou, as raízes do sionismo – múltiplas e heterogêneas – são indissociáveis do caráter estruturalmente hostil da Europa em face dos judeus, dos pogroms até a Shoah7. Elas justificaram, aos olhos dos seus promotores, a necessidade imperiosa da fundação de um estado nacional, com tudo aquilo que isso implica em termos de soberania, de defesa e de fronteiras. Nessa leitura crítica, o sionismo é descartado como um resquício anacrônico – o nacionalismo estatista – que se opõe ao suposto sentido progressista da História. Os judeus teriam assim tirado da Shoah “uma conclusão nacionalista e particularista”, no que são precisamente reprovados: eles estariam, assim, “do lado errado da História”. Essa visão teológica e mecanicamente evolucionista da História, embora amplamente ultrapassada, continua, no entanto, a ser aplicada sem um verdadeiro exame crítico quando se trata do nacionalismo judeu. O paralelo com a teologia da substituição reside, tanto para Ehrenfreund quanto para Ben Johanan, na recusa à persistência judaica e, mais ainda, ao seu retorno ao campo político.
Não sem alguma incoerência, uma vez que é precisamente ao postular o advento de sociedades pós-nacionais que se pode qualificar o sionismo como um anacronismo ameaçador à paz e à unidade humana, perfazendo assim os contornos de um antijudaísmo contemporâneo que raramente se assume abertamente.

A “traição israelense”: uma narrativa antissionista e… supremacista judaica
Todavia, existem teorias que seguem essa mesma toada antijudaica, mas que ultrapassam essa incoerência. Ao se inscreverem no caráter nacionalista (e não pós-nacional) do mundo atual, os judeus teriam traído um ideal de emancipação que haviam anteriormente incarnado através da figura do “judeu errante”8. O nacionalismo judeu e sua concreção sionista, através da edificação do Estado de Israel, são, nesse contexto, teorizados de igual maneira, porém em sentido inverso, daquela do lugar que os primeiros cristãos, sob influência de Agostinho, atribuíam aos judeus: trata-se da recordação e da memória não mais de um progresso inelutável, mas ao contrário, da decadência nacionalista9.
A objetificação10 não visa apenas os judeus. A conformação de um Povo-Objeto palestino11 se prolonga naquela de um Povo-Mártir, através da denúncia do genocídio, mas também igualmente como aquela de um Povo-Cristo de virtudes redentoras. Ao judeu hermenêutico de Santo Agostinho, símbolo negativo de uma visão de mundo ultrapassada, responde agora o “palestino hermenêutico”, símbolo positivo, redentor dos nossos pecados imperialistas, capitalistas e ecológicos. Opera aí uma instrumentalização anacrônica, escatológica e ocidental, desconectada da realidade, que, por sua vez, continua a nos atingir. Dado que a crítica a Israel, quando não se funda em uma metafísica preguiçosa do sionismo, mas parte de uma realidade “kahanista12”, acerta em cheio. É preciso ser desonesto para não enxergar a situação paroxística de uma deriva nacionalista e messiânica em ação. Isso se traduz em um aviltamento das normas, inclusive bélicas e militares, rumo a um devir espartano desastroso, tanto no plano da influência exterior (crimes de guerra, crimes contra a humanidade), quanto interna, assim como em relação ao plano de defesa dos judeus no mundo, o aparelho estatal israelense não hesita em firmar alianças com verdadeiros antissemitas – tendo em vista todo o documentado, dentre outras, pela Revista K13, não me demorarei no assunto. Precisamente, deve-se acrescentar que, nesse sentido, uma posição “pró-palestina” e, mais amplamente, “anti-imperialista”, tem toda a legitimidade. Da mesma forma que uma posição sionista que se refira minimamente à Declaração de Independência – que parece por hora tão distante, mas cujo esquecimento não faz senão trabalhar para os destruidores internos de Israel, os mesmos que dão livre azo à perseguição aos palestinos14: “O Estado de Israel promoverá o desenvolvimento do país em benefício de todos os seus habitantes, e será fundado sobre os princípios da liberdade, da justiça e da paz, ensinados pelos profetas de Israel; ele garantirá a completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus cidadãos sem distinção de credo, raça ou sexo15”. Mas o antissionismo toma o caminho errado, sobretudo quando replica o “palestino hermenêutico”.
As raízes do sionismo – múltiplas e heterogêneas – são indissociáveis do caráter estruturalmente hostil da Europa em face dos judeus, dos pogroms até a Shoah16. Elas justificaram, aos olhos dos seus promotores, a necessidade imperiosa da fundação de um estado nacional, com tudo aquilo que isso implica em termos de soberania, de defesa e de fronteiras.
No ocidente, as interpretações hermenêuticas ou simbólicas dos termos “judeu” ou “palestino” se distinguem pela sua visão de mundo. Estando o primeiro associado à injustiça, a lucidez e a verdade se situam no pólo antijudaico, enquanto que o erro e o engodo se situam no “judaísmo”. O segundo termo, por sua vez, se encontra associado a uma forma de mediação redentora. Mas ambos partilham a condição de “marcos” do progresso humano sob a forma de uma boa consciência ocidental. Desse modo, transformando toda a antiguidade hebraica em uma expressão exclusivamente “palestina” – por exemplo, ao tornar Jesus um palestino, ao invés de um judeu – os judeus israelenses encarnam não somente e exclusivamente a figura do estrangeiro usurpador e ladrão de terras – uma posição xenófoba – mas são igualmente feitos cúmplices de um deicídio simbólico: o assassinato do Povo-Cristo.

O anacronismo de Israel: atualidade de uma antiga polêmica
É tendo isso em mente que devemos ler os textos antissionistas contemporâneos. O historiador britânico Tony Judt, na sua obra Israel: a Alternativa (2004, sem tradução) navega nas águas turbulentas de uma teologia da substituição aplicada à geopolítica17. Ao preconizar um “Estado único”, multiétnico e multicultural, Judt parece sobretudo empenhado em apagar a experiência estatal israelense. No prefácio da sua obra ele cita A Luta Magiar, de Engels, um texto que carrega pesados resquícios de um hegelianismo reprimido – quase darwinista, para os menos indulgentes – condicionando o socialismo ao apagamento de certos grupos étnicos que teriam sido feito órfãos pelo processo histórico e evolutivo, tendo encontrado refúgio sob a proteção de impérios reacionários (no caso, o império austríaco dos Habsburgo). Engels reprova-os por terem optado, em nome da sua autodeterminação, pela manutenção da sua “identidade nacional” em lugar do internacionalismo. Esse movimento reacionário teria, assim, sido a causa dos fracassos revolucionários de 1848. O paralelo torna-se então evidente: Israel, ao decidir preservar sua identidade judaica e colocar-se sob a proteção de um império (os EUA), estaria do lado errado da história – aquele do nacionalismo étnico contra o internacionalismo socialista. Para Judt:
“O problema de Israel não é, como por vezes se sugere, que se trate de um enclave europeu no mundo árabe, mas que tenha chegado tarde demais. Ele importou um projeto separatista típico do fim do século XIX em um mundo que evoluiu, um mundo de direitos individuais, de fronteiras abertas e direito internacional. A ideia mesma de um “Estado Judeu” – um estado no qual os judeus e a religião judaica gozassem de privilégios exclusivos dos quais os cidadãos não-judeus são permanentemente excluídos – está enraizada em um outro tempo e espaço. Em síntese, Israel é um anacronismo18”.

Tony Judt, falecido em 2010, escreveu portanto em 2004 que o nacionalismo judeu na Palestina seria anacrônico. Se ele se inscreve, assim, em uma tradição anti-judaica pós-Shoah, como nós a definimos com Ehrenfreund, essa orientação crítica não pode interrogar-se senão à luz do contexto regional. O “Oriente Médio” atual é, de fato, pouco conhecido pelo seu entusiasmo anti-nacionalista, e os Estados ditos “laicos e socialistas” na região – tanto no Iraque quanto na Síria – não ficaram para trás na instauração de regimes de terror e no uso da violência estatal em massa. No entanto, Judt afirma que existe atualmente um status quo de Estados “pós-raciais”, por assim dizer, cuja paz está ameaçada pela “nação oculta”, que é, curiosamente, Israel. Ele cita as armas nucleares de Israel como o principal obstáculo à não-proliferação; ele afirma que “Israel foi uma das principais razões para invasão estadunidense do Iraque, com a Síria na mira19”. O “Estado único”, multiétnico e multicultural, defendido por Judt, repousa ainda sobre premissas no mínimo controversas, senão paradoxais. O sionismo, apresentado como um traidor da modernidade pós-racial supostamente já concretizada alhures, deveria ser superado com vistas a permitir o advento de uma soberania pós-nacional em escala mundial. O ônus da prova cabe, portanto, aos próprios judeus, convocados a encarnar essa hipótese universalista – ao custo do desmantelamento da sua própria experiência histórica e política.
O sionismo, apresentado como um traidor da modernidade pós-racial supostamente já concretizada alhures, deveria ser superado com vistas a permitir o advento de uma soberania pós-nacional em escala mundial.
O sionismo, embora siga uma via própria, não está, por isso, imune às diferentes concepções políticas de seu tempo, e pode ser compreendido como a continuação da busca por emancipação dos judeus em meados do século XIX20, e não como sua oposição. A modernidade sionista, assim, trabalha para dar continuidade à promessa da emancipação, não mais fundando-se sobre um Estado-nação agora considerado incapaz de defender e proteger os judeus – inclusive quando aderem aos princípios da modernidade – mas assumindo a necessidade de “fazer nação” por si mesma.
Essa emancipação nacional, uma vez que estatal – ela mesma eivada de obstáculos – foi transpassada de ponta a ponta pelas ferramentas de auto-interpretação próprias à perspectiva liberal. A emancipação, assim, assimilou e reproduziu certas falhas, inclusive no seio do sionismo – mas não todas. O Estado de Israel, Estado para os judeus, aparece portanto como o lugar de uma síntese dialética entre o exílio e o território, entre o universal e o particular. O sionismo, enquanto busca pela emancipação dos judeus em pleno século XIX, constitui assim um salto na modernidade, para retomar os termos de Bruno Karsenti21, que podemos, primeiramente, apreender em sua dimensão interna: “Se a nação consiste em determinadas relações sociais, ela não existe e nem se concretiza fora dessas relações: ela resulta de uma história e essa história é social. É por isso que ela não designa um caráter preestabelecido cuja partilha substancial bastaria para definir a identidade real, mas uma forma de vida construída e conquistada através de certas práticas22”.
Embora não haja fatalidade alguma que obrigue os povos, entendidos como nações, nem os Estados, por vezes sem nação definida, a se constituírem como Estados-nações, sobrepondo comunidades políticas e comunidades étnicas, tanto uns quanto outros são, no entanto, incentivados a investir na engenharia estatal-nacional para não ficarem relegadas ao escalão de “nações-residuais”, perdedoras do jogo inter-estatal-nacional, mediatizado pelo sistema-mundo das relações sociais capitalistas. A modernidade, devendo ser compreendida em uma perspectiva dialética, produz ela mesma oposições aos pecados criminosos ou homogeneizantes inerentes à busca pela soberania, nomeadamente por vias jurídicas supranacionais ou éticas, tendo em vista, por exemplo, os Direitos Humanos. Estes, por sua vez, devem ser objeto eles mesmos de uma crítica dialética, a fim de separar o joio do trigo (a solidariedade da liberdade e da igualdade e a necessidade de aprofundá-las em conjunto do discurso dos Direitos Humanos a serviço de uma política de eficiência dos mercados23).
O que significa a destruição das instituições sionistas?
Uma vez estabelecido esse ponto de teoria política, ele autoriza, no mínimo, uma profunda desconfiança em relação a qualquer pessoa que afirme querer a destruição de Israel – ainda que apenas como “entidade sionista” – mesmo que afirmando não querer destruir a sociedade israelense nem, a fortiori, atentar contra a vida de seus membros. Uma abordagem durkheiminiana do estado recusa inteiramente uma tal dissociação. Sendo o Estado o espaço onde as manifestações sociais e simbólicas de uma sociedade se concretizam institucionalmente – é dizer, política e juridicamente -, a destruição imposta das estruturas estatais equivale necessariamente à vontade de destruir as próprias estruturas sociais, deixando espaço livre para uma nova elite dispor da população. Certamente as instituições não se reduzem ao Estado, mas ao contrário – a não ser que se adote uma leitura neoliberal -, elas constituem a própria arquitetura do Estado. O objetivo aparece, então, claramente, ainda que raramente formulado como tal: ao se atacar as “instituições sionistas”, trata-se de impedir, de forma autoritária, qualquer retorno dos judeus à esfera política autônoma e de encerrar definitivamente o parênteses israelnse. Um império de fachada, pensamento mágico, anti-dialético e profundamente anti-marxista, a destruição de Israel, enquanto “entidade sionista” por forças externas não tem, na verdade, nada a ver com a teoria marxista do definhamento do Estado. Igualmente, as perspectivas pós-estatais, confederativas ou federativas, apontam horizontes teóricos distintos, que não devem ser confundidos com uma lógica simplista de destruição. Consequentemente, em uma época em que Jean-Luc Mélanchon – para o qual Volodymyr Zelensky já não seria “o presidente de mais nada24” – apoia a Rússia e, portanto, na verdade, a Vladimir Putin, para o qual a Ucrânia “não é nada”, e que assim se vê aclamado por pseudo-marxistas “decoloniais” em plena deriva teórica, não é, sem dúvida, de se admirar que, apenas pela força de um pensamento abstrato – aliado a um imperialismo judeófobo -, alguns possam desejar fazer desaparecer um país que lhes desagrada.
Sendo o Estado o espaço onde as manifestações sociais e simbólicas de uma sociedade se concretizam institucionalmente – é dizer, política e juridicamente -, a destruição imposta das estruturas estatais equivale necessariamente à vontade de destruir as próprias estruturas sociais, deixando espaço livre para uma nova elite dispor da população.
Contra o antissionismo e a instrumentalização do universalismo: livrar-se dos resquícios nacionalistas e reacionários
Ressaltemos, por outro lado, que durante esse período de emancipação, a integração das “nações judaicas” – figuras coletivas paroxísticas do Outro, por muito tempo percebidas como vivendo fora da história -, aos olhos do projeto moderno, assumia um alcance exemplar. Se um povo assim essencializado e estranho à história podia aceder à modernidade política, apoiando-se somente sobre sua própria tradição e história singular, então qualquer outro grupo deveria poder, por sua vez, aderir ao mesmo projeto. Nesse sentido, as nações judaicas passaram a figurar, ao fim de acirrados debates25, como verdadeiros “casos exemplares” de integração, intimamente ligados à ideia de comunidade nacional. O século XIX viu, de fato, os estados europeus se reconfigurarem, absorverem as diferentes “nações” que os compunham e, correlativamente, exigir dos judeus – os estrangeiros por excelência – que renunciassem às suas formas de organização tradicionais a fim de plenamente se integrarem ao projeto moderno. Alternativamente, o sucesso dessa integração foi tamanho que suscitou desconfiança: como foi possível que um povo reputado por ter vivido tanto tempo “fora da história geral” poderia participar com tanta facilidade na vida social, econômica e intelectual? É assim que se formulou a “questão judaica” contemporânea. Para autores antissemitas como Drumont, essa integração não é senão aparente: os judeus se reorganizaram em subgrupos étnicos perpetuando as suas tradições à revelia – ou mesmo contra – o projeto moderno. Eles não jogariam o jogo liberal da emancipação individual, mas atuariam por meio de redes invisíveis, escapando à transparência cívica e tornando-se, dessa forma, indignos de confiança. Daí resulta uma situação paradoxal: o estatuto jurídico e social dos judeus se transforma no sentido da integração, renovando inteiramente, ao mesmo tempo, os termos da “questão judaica”. Mesmo o seu sucesso torna-se suspeito, reinterpretado como a dissimulação da persistência de estruturas tradicionais. O antissemitismo que daí decorre não é, portanto, mais essencialmente racial, mas se apresenta como o diagnóstico de um “mal social”. Os mecanismos de homogeneização próprios do Estado-nação moderno tornam-se, assim, um dos motores da opressão dos judeus no próprio cerne da modernidade, constituindo simultaneamente — um paradoxo adicional — uma motivação profundamente moderna para a criação de um “lar” político próprio. O projeto moderno, ao qual comunidades judaicas amplamente aderiram, implica de fato na constituição de um imaginário nacional que tende à formas de homogeneização cultural, linguística ou étnica26. Se a “heterotopia existencial27” – destinada a realizar a utopia sionista – pretendesse, inicialmente, distanciar-se dos cânones românticos do nacionalismo europeu, sua concreção efetiva, no entanto, acabou retomando alguns de seus traços constitutivos. Essa evolução se explica, ao mesmo tempo, por conflitos internos ao movimento sionista, que gradualmente conduziram a um consenso nacional-estatal em resposta a um contexto geopolítico hostil, assim como por relações complexas com as potências ocidentais aliadas e os países árabes durante as décadas de 1920 e 1930. Nada disso, porém, já estava predefinido. Como sublinha Gershom Scholem, os intensos debates e as divergências profundas entre as diferentes correntes – socialistas, sionistas nacionalistas, estatistas ou culturais – testemunham um verdadeiro “pluralismo de correntes e de disputas de partidos […] Essa multiplicidade refuta a tese de uma visão dogmática e unitária28”. Não obstante, perpetua-se a tese de uma pretensa unidade “sionista”. Essa leitura de uma história monolítica é alimentada, ao mesmo tempo, por algumas partes da classe dirigente israelense, que mobilizam afetos securitários – com o inimigo palestino servindo para reunir a sociedade israelense em torno de um “projeto sionista” homogeneizado – e por uma ampla parte da militância antissionista para a qual o sionismo se confunde, indistintamente, com o racismo, o capitalismo, o colonialismo e o imperialismo. Essa recusa em considerar a tradição sionista em toda a sua extensão histórica, sua pluralidade interna e sua construção dialética, a fim de reduzi-la exclusivamente à versão reacionária da ideologia sionista promovida atualmente pelo Estado de Israel, constitui um reducionismo ao menos problemático – senão francamente suspeito – da parte de militantes pretensamente críticos e progressistas. Não se trata mais, portanto, de analisar uma tradição política, mas de cristalizar um significante cômodo que pode ser imediatamente mobilizado como inimigo. Nesse sentido, o próprio termo “sionismo”, elevado a adversário estável e disponível, insere-se no mesmo registro retórico de outras categorias desqualificantes – “racista”, “indigenista”, “islamo-esquerdista”, etc – cuja função inicial é de suscitar rejeição rápida, repulsa e um sentimento de unidade em meio ao público, em detrimento de toda inteligibilidade histórica e política.
Excertos retirados de Julien Chanet, L’Incendie Universel: a questão do antissionismo na esquerda, Crise et Critique, 2026, pp. 199-207 (alterações para a presente publicação feitas pelo autor).
Tradução Deco Vaillant
- Jacques Ehrenfreud, “O retorno da guerra, os judeus e a crise da história”, Museu de Arte e História do Judaísmo, 14 de dezembro de 2023. O texto da palestra foi publicado na revista K. ↩︎
- David Niremberg, “Antijudaísmo: um pilar do pensamento ocidental”, Genève, Labor et Fides, 2023 (2013). p. 169 (ainda sem tradução).
↩︎ - O autor aqui emprega termos em sentido metafórico de tradução literal difícil – “bornes” (marcos) e “pupitres” (púlpitos) sobretudo. O primeiro indica um ponto de referência e conota, provavelmente, o uso retórico dos judeus (da ideia de judeu) como uma alusão situacional (o povo do “velho testamento”, o contexto social do messias etc). Já o último provavelmente refere-se ao uso dos judeus como suporte argumentativo, como figura para argumentos soteriológicos evolucionistas ou prova histórica da antiguidade profética do messianismo – ou seja, como evidências no sentido de uma validação da pregação cristã (N do T).
↩︎ - Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, “Dialética do Esclarecimento”, Paris, Gallimard, 1983, p. 195 (no Brasil pela Zahar, 1985).
↩︎ - Citado por Ivan Segré, “Os pinguins do Universal: Antijudaísmo, antissemitismo, antissionismo”, Paris, Lignes, 2017, p. 38. (No Brasil pela editora Perspectiva, 2025).
↩︎ - Karma ben Johanan, “Os judeus, ainda na contramão da história”, Revista K, os Judeus, a Europa, o século XXI. 24 de Janeiro de 2024.
↩︎ - Especificamente os pogroms decorridos durante as guerras civis russas (1918-1921): “pelo menos 100 mil mortos, 200 mil feridos e inválidos, dezenas de milhares de mulheres violadas, 300 mil órfãos em uma comunidade de cerca de 5 milhões de pessoas”; em Nikolas Werth e Lidia Miliakova (orgs). “O livro dos Pogroms: a antecâmara de um genocídio – Ucrânia, Rússia, Bielorússia, 1917-1922”, Paris, Calmann-Lévy, 2010, p. 30. (ainda sem tradução).
↩︎ - Ver Michel Feher, “Tornar-se outra vez judeu: as desventuras de um pacto de branqueamento recíproco”, La Découverte, 2026. “Em Tornar-se outra vez judeu, o filósofo Michel Feher defende a cultura e a condição dos judeus da diáspora, pesadelo dos antissemitas, contra os bloqueios identitários e a deriva de Israel”. Xavier de La Porte, Nouvel Obs, 7 de Maio de 2025 (livro e matéria sem tradução).
↩︎ - Essa temática da memória dos judeus ancestrais e da traição está muito presente na literatura “descolonial” francesa, especialmente na obra de Houria Bouteldja.
↩︎ - O empréstimo dessa expressão do vocabulário psicanalítico almeja descrever uma relação patológica com um objeto que satisfaz uma pulsão. Os palestinos, aos quais se nega a capacidade de se apresentarem como protagonistas de seu próprio destino, mas também como atores singulares no seio da própria opressão que sofrem, são tratados como um meio, uma superfície de projeção ou uma ferramenta de satisfação.
↩︎ - A redução instrumental e objetificante da “causa palestina”. O conteúdo da expressão “Povo-Objeto” destina-se aos ocidentais e não descreve uma realidade (segundo o mesmo modelo do orientalismo). Ele constrói às custas da Palestina uma teoria metafísica (hilemórfica) que consiste em fazer corresponder uma matéria (a defesa da Palestina) à sua forma (a prática militante do antissionismo). Ver Julien Chanet, Incêndio Universal: a questão do antissionismo à esquerda, Crise et Critique, 2026, p. 118 (ainda sem tradução).
↩︎ - De Meir Kahane, fundador do partido facista, racista, supremacista e homófobo Kach, proibido em 1988. A ideologia kahanista se encontra bem encarnada em Itamar Ben Gvir. Ver Nicolas Zomersztajn, Kahane está morto, sua ideologia racista, bem viva; Regards, n°1075, 27 setembro 2024 (sem tradução).
↩︎ - Pensemos na recente Conferência Internacional Acerca da Luta Contra o Antissemitismo, ocorrida em Jerusalém em 27 de Março de 2025. Ver, na K, Conferência da Vergonha, de Michael Brenner, 26 de Março de 2025 (ainda sem tradução).
↩︎ - Isabelle Mandraud, Na Cisjordânia, os colonos israelenses que cometem crimes gozam de total impunidade., Le Monde, 17 de abril de 2026.
↩︎ - https://langloishg.fr/documents/guerre-et-paix/la-proclamation-de-letat-disrael-14-mai-1948/ ↩︎
- Especificamente os pogroms decorridos durante as guerras civis russas (1918-1921): “pelo menos 100 mil mortos, 200 mil feridos e inválidos, dezenas de milhares de mulheres violadas, 300 mil órfãos em uma comunidade de cerca de 5 milhões de pessoas”; em Nikolas Werth e Lidia Miliakova (orgs). “O livro dos Pogroms: a antecâmara de um genocídio – Ucrânia, Rússia, Bielorússia, 1917-1922”, Paris, Calmann-Lévy, 2010, p. 30. (ainda sem tradução).
↩︎ - Ver John-Paul Pagano, Tony Judt e o Genocídio de Veludo; O Socialismo dos Tolos, 10 de Janeiro de 2010.
↩︎ - Tony Judt, Israel: The Alternative, The New York Review, 23 de Outubro de 2003.
↩︎ - John-Paul Pagano, Tony Judt e o Genocídio de Veludo; art. cit.
↩︎ - “A partir de sua emancipação em 1791, os judeus da França subiram progressivamente na escala social, de uma geração a outra, e em todos os campos. A igualdade jurídica prometida pela Revolução foi plenamente implementada sob a Monarquia de Julho. Sob o Segundo Império, os poderes públicos contribuíram para essa ascensão, promovendo, com base no Estado-nação integrador, sua assimilação. Sua ascensão econômica, social e cultural se acelera sob a Terceira República. Muitos deles identificam seus próprios interesses com os da República, à qual são gratos por tê-los emancipado; a aliança entre a República e os judeus torna-se assim natural”, em Grégoire Kauffmann, “Rothschild & Cie. A burguesia judaica vista por Édouard Drumont”, Archives Juives, vol. 42, n.º 1, 2009, p. 51-68 (sem tradução).
↩︎ - Bruno Karsenti, A Questão Judaica dos Modernos, Paris, PUF, 2017 (sem tradução).
↩︎ - Bruno Karsenti e Cyril Lemieux, Socialismo e Sociologia, Paris, Éditions de l’EHESS, 2017, p. 17 (sem tradução).
↩︎ - Ver Justine Lacroix e Jean-Yves Pranchère, O Processo dos Direitos Humanos. Genealogia do Ceticismo Democrático, Paris, Seuil, 2016. Os Direitos Humanos, fazem eles idiotas? Paris, Seuil, 2019.
↩︎ - Mathieu Dejean, Ucrânia: nas Amfis, o partido France Insoumise é prejudicado pelo seu campismo. Médiapart, 23 de Agosto de 2025 (sem tradução).
↩︎ - Ver, por exemplo: Pierre Birnbaum, Há modos de tornar os judeus mais úteis e felizes?. Concurso da Academia de Metz, 1787. Paris, Seuil, 2016 (sem tradução).
↩︎ - Atualmente, a febre de supremacia branca é um sintoma desse imbróglio, assim como os surtos identitários com tendências xenófobas na Índia ou na China (Han), todos entrelaçados na dialética das orientações concomitantemente nacionalistas e imperialistas das políticas do capital.
↩︎ - Na medida em que advém na modernidade, Israel é heterotópico na medida em que constitui um espaço singular que, segundo a definição de Foucault, “detém o poder de sobrepor, em um único lugar real, diversos lugares, diversas alocações que são, em si mesmas, incompatíveis”. Embora Foucault pense, aqui, no cinema, no teatro e nos jardins, a vertente heterotópica do sionismo se depara necessariamente com essa pluralidade de escalas, essa coexistência de registros históricos, simbólicos e políticos – em outras palavras, com uma dimensão multiescalar e profundamente “interseccional”. […] A heterotopia israelense se viu imediatamente confrontada com um espaço já habitado, atravessado por histórias, identidades e conflitos irredutíveis a qualquer projeção compensatória. Ver: Julien Chanet, Incêndio Universal, op. cit., p. 145-154.
↩︎ - Denis Charbit, Os sionismos no século XX, entre contextos e contingências. Revista de História Vingtième siècle, 2009/3, número 103, p. 27-46.
↩︎