Neonazismo No Sul Do Brasil: uma breve história do presente
Ao longo das últimas décadas, inúmeros incidentes envolvendo grupos neonazistas ganharam destaque no sul do Brasil, particularmente desde a ascensão de Bolsonaro à presidência da República. Neste ensaio, o filósofo brasileiro Renato Levin-Borges examina a longa história dos movimentos fascistas e nazistas na região, revisitando as ondas de imigração alemã e italiana durante o período entre guerras, bem como os estereótipos raciais que ali continuam a circular.
São Pedro de Alcântara é uma pequena cidade catarinense de aproximadamente 6 mil habitantes que fica distante apenas 40 quilômetros da capital do estado de Santa Catarina – Florianópolis. Foi onde se encontra esta pacata cidade que em 1º de março de 1829 se estabeleceu a primeira colônia alemã do estado com a chegada, pouco tempo antes, de 166 famílias alemãs oriundas de Bremen. Passados 193 anos, mais precisamente em 14 de novembro de 2022, São Pedro de Alcântara se tornou o foco de atenção nacional e internacional por conta da prisão de 8 neonazistas. Dentre estes, 4 oriundos do estado do Rio Grande do Sul, um de Santa Catarina, outro do Paraná (estes três estados compõem a região Sul do Brasil), um de Minas Gerais e um português integrante do grupo neonazista skinhead Hammerskins1. Este grupo de 8 neonazistas presos comporia, segundo apontaram as investigações, uma célula do Hammerskins Nation no Brasil. A presença do membro de Portugal acabara por comprovar a existência de uma articulação internacional dos membros brasileiros com o grupo neonazista e supremacista branco Hammerskins, fundado em Dallas, Estados Unidos, em 1988 e que conta com núcleos na Europa e Estados Unidos.
O ano é 2005 e faz frio na madrugada de 8 de maio em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Dois jovens bebem alegremente em um bar na Cidade Baixa, bairro boêmio da capital gaúcha, usando kipás para celebrar os 60 anos do fim da Shoá (Holocausto). Rapidamente, os dois jovens judeus são cercados por um grupo de skinheads nazistas e atacados com socos, pontapés e facadas2. Um dos jovens judeus acaba hospitalizado e felizmente ambos sobreviveram. O que os dois casos separados por 17 anos têm em comum?

Dentre os presos na operação policial em São Pedro de Alcântara no ano de 2022 encontrava-se o gaúcho Laureano Vieira Toscani, condenado em junho do mesmo ano a 13 anos de prisão por ter participado do espancamento e esfaqueamento dos judeus gaúchos em 2005, além de ter sido considerado uma das principais lideranças neonazistas no estado do Rio Grande do Sul. Neste mesmo ano de 2022, apenas um mês após o julgamento que o condenou pelo ataque na Cidade Baixa 17 anos antes, Laureano foi preso pela polícia por ter violado sua condicional. A polícia receava que ele fugisse do Brasil, muito provavelmente para os Estados Unidos, país onde possui contatos com uma série de outros grupos neonazistas.
Poucos anos após o ataque à faca dos dois judeus no Rio Grande do Sul, mais precisamente no ano de 2009, Bernardo Daryell Pedroso, de 24 anos, e Renata Waetcher Ferreira, de 21, saiam de uma festa em uma chácara na cidade de Campina Grande no Paraná. Eles haviam sido convencidos a saírem para buscar mais cerveja para a celebração. Na manhã seguinte, dia 21 de abril, seus corpos foram encontrados ao lado do carro em acostamento no quilômetro 6 da BR-116, município de Quatro Barras. A festa na qual as duas vítimas estavam na noite anterior celebrava os 120 anos do nascimento do líder nazista Adolf Hitler. O casal festejava a data com uma dezena de neonazistas de todo país, e aí entra o motivo da execução: a disputa interna pela liderança de grupo neonazista que ficou conhecido como “Neuland” (“Nova Terra”, tradução nossa). O mandante do assassinato foi o economista Ricardo Barollo, condenado em 2025 há 48 de prisão, que planejava eleger prefeitos e vereadores na pequena cidade catarinense de Balneário Piçarras. Seu intuito, conforme suas palavras, era constituir um país branco, nazista e livre da “influência semita”3. A investigação da polícia paranaense revelou a articulação nacional e internacional do grupo, desde a arma que foi usada nos disparos que vitimou o casal ser proveniente da Argentina, até mensagens revelando contatos com lideranças neonazistas do Chile e da Inglaterra.
Embora o número de filiados ao Partido Nazista no Brasil representasse apenas 0,5% da população de origem alemã no país, foi o maior contingente de filiados nazistas fora da Alemanha, ultrapassando Argentina e Estados Unidos.
O que há então de tão particular no Sul do Brasil para que haja tantos grupos neonazistas ativos? Os três estados sulistas são aqueles que possuem maior concentração de autodeclarados brancos no país4 (no Rio Grande do Sul chega a 78% da população, seguido por Santa Catarina com 76% e Paraná com 65%) e também os que receberam maior fluxo imigratório de alemães e italianos, sobretudo os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul5. Voltemos um pouco no tempo para compreendermos o porquê da imigração para esta região do país. A imigração alemã e italiana para o sul do Brasil tem uma história umbilicalmente ligada a questões raciais. No período final do Brasil Império (final do século XIX) e da Primeira República (começo do século XX) o governo brasileiro adotou uma política de embranquecimento da nação seguindo ideias da eugenia, muito em voga no continente europeu naquele período. Assim, a primeira colônia alemã no sul do Brasil surgiu em 1824 na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, cidade que fica a aproximadamente 35 quilômetros da capital gaúcha Porto Alegre.

Já a imigração italiana começou a ocorrer sobretudo em meados de 1870 para as zonas rurais de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, intensificando-se na virada do século XIX ao XX. Porém, a etapa história mais importante para nossa análise é a quarta – e última – onda imigratória alemã e italiana que ocorreu no período entreguerras até o fim da Segunda Guerra Mundial, e que trouxe consigo um conjunto de ideias fascistas e nazistas entre os imigrantes. Para termos dimensão das raízes do antissemitismo no sul do Brasil, o Partido Nazista no Brasil teve entre 1931 e 1938 (ano que foi considerado ilegal pelo presidente Getúlio Vargas6) aproximadamente 3.000 membros, e algo em torno de 15.000 a 20.000 simpatizantes (alemães que participavam de eventos, se dedicavam à leitura de seus jornais, das associações comunitárias e outras atividades ligadas ao Partido Nazista no Brasil). As sedes do partido se concentraram sobretudo em Santa Catarina e em menor intensidade no Rio Grande do Sul7. O partido não aceitava brasileiros que não tivessem origem alemã, e embora o número de filiados ao Partido Nazista no Brasil representasse apenas 0,5% da população de origem alemã no país, foi o maior contingente de filiados nazistas fora da Alemanha, ultrapassando Argentina e Estados Unidos.
Em relação ao fascismo, os imigrantes italianos tiveram também uma relativa, mas relevante, adesão às ideias de Mussolini. As ideias do regime fascista circulavam a partir dos consulados, associações culturais financiadas pelo governo e escolas italianas no país. Também havia, periódicos em São Paulo e Rio Grande do Sul que propagavam ideias do regime fascista, assim como em escolas italianas e alemãs. No período do regime de Benito Mussolini houve aproximadamente 5 a 7 mil filiados ao Fasci Italiani all’Estero (organizações fascistas fora da Itália) e entre 30 e 50 mil simpatizantes, representando em torno de 1% dos imigrantes italianos formalmente filiado a organizações fascistas e de 2% a 3% de simpatizantes8.

A partir desse histórico da presença alemã e italiana no sul brasileiro podemos compreender elemento-chave para proliferação do imaginário racial nazista e fascista desta região: a branquitude. Conforme a psicóloga Lia Vainer (2014, p. 84)9 explica, o conceito de branquitude corresponde a um imaginário nacional onde o branco está ligado à posição de sujeitos com superioridade racial, pois a posição imaginária do branco no Brasil é a de sujeitos que “foram sistematicamente privilegiados no que diz respeito ao acesso a recursos materiais e simbólicos”, isto é, a branquitude reproduz o imaginário da garantia e promessa de que esses privilégios de poder são um estado de direito, seja ele de ordem política e/ou econômica, efeito gerado “inicialmente pelo colonialismo e pelo imperialismo, e que se mantêm e são preservados na contemporaneidade” brasileira. Projeto social e político que foi reforçado pelo modo com que a imigração alemã e italiana foi promovida no Sul do Brasil como política de embranquecimento da população nacional, a qual era composta majoritariamente por pretos, oriundos da escravização de africanos e do tráfico negreiro, e de diferentes povos indígenas. Assim, segundo Lia Vainer: “para se entender a branquitude é importante entender de que forma se constroem as estruturas de poder fundamentais, concretas e subjetivas em que as desigualdades raciais se ancoram” no Brasil.
O conceito de branquitude corresponde a um imaginário nacional onde o branco está ligado à posição de sujeitos com superioridade racial, pois a posição imaginária do branco no Brasil é a de sujeitos que “foram sistematicamente privilegiados no que diz respeito ao acesso a recursos materiais e simbólicos”.
Para o antropólogo brasileiro negro Alberto Guerreiro Ramos10, a branquitude no Brasil é produto ideológico de uma sociedade miscigenada com promessa de privilégio. Quando há negação de acesso a algum dos privilégios imaginários da branquitude por parte de brancos brasileiros, que creem não estarem no nível de privilégio da branquitude estadunidense ou europeia a eles prometida, isto produziria um efeito de intensificação do caráter identitário racial de afirmação de sua branquitude. Dito de outro modo, o acesso parcial ao que os brancos brasileiros esperam a partir de sua condição identitária reforçaria ainda mais seu apego à identidade racial da branquitude.
É neste horizonte da construção subjetiva da identidade, centrada na suposta superioridade racial do sulista brasileiro, a qual teria direito, pois teria pretensamente herdado de sua imigração alemã e italiana, que o sul do Brasil, juntamente com São Paulo, tornou-se um terreno de produção de uma branquitude subjetiva propícia à captura e radicalização por parte ideias e discursos neonazistas (algo que pode soar, a princípio, um tanto estranho para um estrangeiro quando confrontado tanto com a presença histórica como com o aumento de grupos neonazistas no Brasil). Assim, compreendemos o persistente fenômeno de militantes neonazistas no sul do território brasileiro. Soma-se a esse fenômeno de intensificação da propagação de ideias neonazistas no país a ascensão do bolsonarismo, produto da nova extrema direita brasileira, que unificou e galvanizou grupos que vão da direita democrática até a direita radical em torno do ex-presidente – atualmente cumprindo pena de prisão de 27 anos por tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito, dentre outros crimes – Jair Messias Bolsonaro.
O judeu é materializado como o próprio capital, como sua forma encarnada, e assim o mal-estar que as promessas não cumpridas que o capital produz passa a ser direcionado ao judeu.
A antropóloga Adriana Dias mensurou o aumento das células neonazistas no Brasil em mais de 270% no período pós-eleição de Bolsonaro em 2018 até 202111, totalizando à época 530 células e com mais de 10.000 pessoas integrando-as. Em relatório da Anti-Defamation League (ADL), o Brasil foi considerado o país com maior crescimento da extrema direita no mundo no ano de 2022. Neste contexto, os estados com mais células neonazistas no Brasil são em ordem São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Em Santa Catarina, segundo estado autodeclarado mais branco do país e onde o encontro dos neonazistas do Hammerskins terminou com aquelas 8 prisões, se concentra o maior avanço das células neonazistas em território nacional. Um estado com apenas 3% da população brasileira, Santa Catarina possui cerca de 320 células ativas, tendo apenas a cidade de Blumenau, composta majoritariamente pela imigração alemã e que possui 365 mil habitantes, 63 grupos12. Isto levou o atual governo brasileiro, sob presidência de Luís Inácio Lula da Silva, a enviar uma comitiva dos Direitos Humanos ao estado de Santa Catarina no ano de 2024 para pensar estratégias de combate ao crescimento de células neonazistas no estado13.

A construção do imaginário europeu pela ascendência europeia de parcela da população do sul do Brasil, em comunhão com o mal-estar gerado pela destruição do estado de bem-estar social (de acesso e garantia a direitos), parece ser a combinação que explica, pelo menos parcialmente, como a figura do judeu entra na composição imaginária desta branquitude sulista brasileira. Trata-se da crescente projeção no judeu como o causador da degradação da civilização que lhes prometia superioridade em sua qualidade de vida, fugindo assim do real causador do problema, ou seja, os desdobramentos contemporâneos do capitalismo, como magistralmente argumentaram Moishe Postone e Robert Kurz em suas análises sobre antissemitismo. O judeu se converte assim, novamente, na encarnação de responsáveis pelo capital degenerador da civilização que lhes prometia sua superioridade branca, potencializando assim o sentido explicativo para adesão a células neonazistas no sul do país. Como explica Moishe Postone em sua obra “Antissemitismo e Nacional-Socialismo” (2021, p.48): “o antissemitismo moderno […] é uma forma de fetiche particularmente perniciosa. O seu poder e periculosidade resultam da sua visão de mundo abrangente, que explica e dá forma a certos modos de descontentamento anticapitalista que, ao atacarem as personificações da forma social, deixam o capitalismo incólume”, dito de outro modo, o judeu é materializado como o próprio capital, como sua forma encarnada, e assim o mal-estar que as promessas não cumpridas que o capital produz passa a ser direcionado ao judeu.

Talvez uma saída desta situação esteja na criação de novas formas de subjetivação identitária no sul do Brasil, aliadas de lutas coletivas por melhoria na qualidade de vida. A má notícia, para nós, é que a democracia e o estado de bem-estar social não parecem estar em alta em nenhuma parte do globo. Não à toa, o que temos visto, do Norte ao Sul global, é, ao contrário, a adesão cada vez maior a identitarismos nacionalistas que facilmente deslizam para o supremacismo branco com um bom teor de neonazismo.
- https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/historia-hoje/neonazistas-presos-em-santa-catarina-recrutavam-com-sistema-rigoroso.phtml#:~:text=Neonazistas%20presos%20em%20Santa%20Catarina%20recrutavam%20com%20%27sistema%20rigoroso%27%20%2D%20Aventuras%20na%. ↩︎
- https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2018/09/reus-sao-condenados-por-atacar-judeus-em-porto-alegre-cjm9sagaq04qr01pxkyodpu1x.html ↩︎
- https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/neonazistas-queriam-novo-pais-bk3pusffb7de0binydd0jw7ym/ ↩︎
- https://www.poder360.com.br/brasil/sul-e-a-regiao-com-mais-brancos-proporcionalmente-norte-com-mais-negros/ ↩︎
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwywd01pxr7o ↩︎
- A política internacional de Getúlio Vargas foi marcada por ambiguidades em relação à Alemanha e à Itália sob os governos de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Em um primeiro momento, Vargas aproximou-se do Eixo por afinidades ideológicas, uma vez que também comandava um regime autoritário e personalista. É nesse contexto que, em 1936, o governo brasileiro prende, deporta e entrega Olga Benário Prestes, judia e comunista, à Gestapo alemã. Grávida à época, Olga foi posteriormente deportada, em 1942, para o campo de extermínio de Bernburg, onde foi assassinada em uma câmara de gás. Após esse período inicial de simpatia e inclinação em direção ao Eixo, Vargas manteve uma posição estratégica de neutralidade, ao mesmo tempo em que negociava apoio aos Aliados, sobretudo com os Estados Unidos. As relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália foram rompidas em 1942, quando o Brasil ingressou oficialmente nas Forças Aliadas. Entre 1937–1938, Vargas chegou a promover a chamada “Campanha de Nacionalização”, que proibiu o uso público de línguas como o alemão e o italiano em território nacional, quando passou a banir a atuação do Partido Nazista e de organizações fascistas italianas no Brasil. ↩︎
- Ver:
DIETRICH, Ana Maria.
Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. 2007. Tese (Doutorado em História Social) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. ↩︎ - Importa lembrar que o Brasil também contou com um partido de inspiração fascista, a Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado. A AIB existiu entre 1932 e 1937, tendo sido dissolvida após o autogolpe de Getúlio Vargas, que instaurou o Estado Novo em 10 de novembro de 1937. O integralismo foi profundamente influenciado pelos regimes fascista italiano e nazista alemão, chegando a reunir entre 600 mil e 1 milhão de filiados. É notório que seus membros utilizavam camisas verdes, em clara alusão às camisas negras do fascismo italiano, e adotavam como símbolo a letra grega sigma (Σ), frequentemente interpretada como uma referência simbólica à suástica nazista. Sua saudação, “anauê”, de origem tupi-guarani, inscrevia-se numa retórica nativista que dialogava tanto com o culto às origens quanto com as formas ritualizadas de saudação dos regimes fascistas europeus. ↩︎
- SCHUCMAN, Lia Vainer. Sim, nós somos racistas: estudo psicossocial da branquitude paulistana. Psicologia & Sociedade, [S.l.], v. 26, n. 1, p. 83-94, 2014 ↩︎
- RAMOS, Guerreiro. A patologia do branco brasileiro. In: RAMOS, Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ,1957. ↩︎
- https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/01/16/grupos-neonazistas-crescem-270percent-no-brasil-em-3-anos-estudiosos-temem-que-presenca-online-transborde-para-ataques-violentos.ghtml ↩︎
- https://piaui.folha.uol.com.br/celulas-neonazistas-proliferam-em-santa-catarina/#:~:text=C%C3%A9lulas%20neonazistas%20proliferam%20em%20Santa%20Catarina. ↩︎
- https://sc.cut.org.br/noticias/direitos-humanos-pesquisam-e-combatem-as-celulas-nazistas-em-sc-e-no-brasil-4faa ↩︎